1971-74 – Os dias da Tropa (02)

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

O meu plano é trazer aqui um resumo dos 38 meses e 11 dias da minha tropa: desde 21 de Julho de 1971 (entrada no Curso de Oficiais Milicianos da Escola Prática de Infantaria de Mafra) até 2 de Outubro de 1974 (aterragem no aeroporto militar de Lisboa, vindos de Luanda). Trarei apenas episódios marcantes, nunca esquecidos, que dormem acordados nos recantos da minha memória.

Recrutas na Escola Prática de Cavalaria em Santarém (Foto: Facebook da EPC) - Capeia Arraiana

Recrutas na Escola Prática de Cavalaria em Santarém (Foto: Facebook da EPC)

Cumpre, hoje, dar continuidade cronológica aos dias da tropa: acabado o 1.º ciclo da instrução em Mafra, lá vou eu direito a… Santarém. Só lá estive 12 malfadadas horas. À noite (estávamos em Setembro), recebo guia de marcha para Lamego.

Nota de aviso prévio

Quando escrevo sobre estas matérias, sei que está toda a gente à espera de que eu fale de mortos, estropiados e tragédias similares.

Mas não é esse o meu caminho…

Não vou contar desgraças da guerra. Isso, já está tudo espremido. Foram dias, meses, do diabo. 27 meses. Sempre a pensar que podia ser o último segundo. G3, granadas, bazookas, HK 21, lança-granadas-foguete… de tudo. E sempre tudo a rebentar, a disparar, a lembrar que não era treino mas coisa séria. Tudo marcadinho na memória até agora.

Mas não é por aí que quero ir…

Siga-me, semana a semana, e verá qual o cerne das minhas memórias desses meus anos loucos.

E agora, sim, voltamos a Santarém, naquela tarde…

Fiquei encantado da vida por sair de Santarém, pois aquelas doze horas foram do diabo… Quando me chamam ao fim da tarde e me dizem secamente:

– O nosso Cadete Mendes prepara tudo e amanhã apresenta-se no CIOE, em Lamego…

Quando tal ouvi depois daquele maldito dia, fiquei feliz…

Mas a felicidade não durou muito!

Basta ler as linhas que seguem aí mais em baixo – para se perceber que ali começava mesmo o inferno propriamente dito.

Foram 12 horas em Santarém – e bastou!

No dia seguinte, apresentação em Santarém. Escola Prática de Cavalaria. Uma escola do diabo, meus amigos! Estivemos lá apenas doze horas. Apresentámo-nos às seis e tal da manhã, como nos mandaram à saída de Mafra no dia anterior. Saí de lá para Lamego (eu e mais três companheiros) – eram seis da tarde ou pouco depois. Foram poucas horas… Mas acreditem que nunca mais as esqueci: saímos do quartel às 7 para instrção nos campos dos arredores de Santarém e entrámos às 18 no quartel.

Nessa formatura, chamaram por quatro de nós – e foi lida a sentença: apresentem-se amanhã até às 18 no CIOE de Lamego (CIOE era o Centro de Instrução de Operações Especiais).

Tinha andado todo o dia com uma mochila com mais de 40 quilos de material às costas. E a fazer caminhada, corrida, aparelhos, sobe monte, desce monte, passo de corrida, de joelhos, nosso cadete, de joelhos, não arrasta os pés, não olha para cima, não olha para trás, segue em frente, rasteja, rasteja, rasteja…

Acreditem: foi assim o dia todo. E todo o dia com aquele maldito capacete pesado e apertado a impedir a respiração, a circulação sanguínea e o mínimo pensamento que não fosse de revolta. Coitados dos que por lá ficaram o resto do ciclo (dois meses e meio). Claro: isso foi o que pensei ao fim do dia, quando me mandaram para Lamego… Mal eu sabia o que me ia acontecer até 8 de Janeiro em Lamego!

Treino militar a doer mesmo... - Capeia Arraiana

Treino militar a doer mesmo…

Lamego foi péssimo. Muito péssimo.

O que sofri em Cabinda, meus amigos, apesar de tudo e da iminência da morte, nem por sombras me fez sofrer tanto ou sentir fisicamente tão mal como quando sofri o que me fizeram em Lamego. Tortura física. Tortura psicológica em último grau.

Cabinda foi mau. Muito mau. Lamego foi péssimo. Muito péssimo.

Nem que viva 300 anos – e é mais ou menos isso que devo durar depois de Mafra, Lamego e Cabinda! – nunca poderei esquecer o que me fizeram naquelas onze semanas de Penude.

Fui para Lamego fazer o segundo ciclo de instrução, depois de Mafra e um dia em Santarém – como já disse. Mandaram-me para Operações Especiais.

Santuário de Nossa Senhora dos Remédios em  Lamego - Capeia Arraiana

Santuário de Nossa Senhora dos Remédios em Lamego

Duas batatas e umas azeitonas em Lamego às 5 da manhã

Naquela altura, havia uma espécie de praxe para quem chegava. Na primeira noite, ataram-nos dois a dois e meteram-nos em Unimogs tapados com lona. Chamavam a esta operação a Largada (em Lamego são 11 as operações e cada uma é maior, mais perigosa e mais dura do que a anterior – e todas têm nomes sugestivos…).

Levaram-nos para distâncias de muitos quilómetros. Deixaram-nos abandonados aos pares, atados, longe uns dos outros lá no meio das serranias, muito longe de Lamego. Nada de comida. Apenas o cantil da água. Havia um aviso: tínhamos de nos desenrascar, desatarmo-nos e estar às sete da matina para o pequeno almoço no quartel, em Penude, uma serrazita a 4 km de Lamego. Era obrigatório chegar juntos ao quartel. Ah, e um alerta muito sério, tipo ameaça: proibido pedir comida, proibido apanhar boleias. Se fôssemos apanhados em falta, não íamos de fim-de-semana durante um mês ou coisa no género.

Lá ficámos, eu e o meu parceiro.

Depois de meia hora, tínhamos conseguido desatar aquela coisa.

Começámos a andar a pé pela serra, em direcção à luz (era meia-noite ou coisa que o valha).

Fartei-me de andar. Claro que me doíam os pés. Claro que amaldiçoei a tropa toda.

Mas lá continuámos.

Aí pelas cinco, finalmente uma casita paupérrima, uma quintazita. Batemos. Vem uma senhora de idade (ou pareceu-nos: aos 20 anos, tudo o que tenha mais de 40 é cota, bem o sabemos).
Pedimos comida. A senhora desculpou-se. Não tinha nada. Só se quiséssemos umas batatas cozidas e umas azeitonas. Sim, claro, fosse o que fosse.
Meus amigos! Que boas que são as batatas cozidas. E se houver azeitonas pretas como aquelas, então são mesmo um acepipe. Experimentem estar nove horas sem comer nada e depois comam duas batatas com azeitonas pretas…

Ainda hoje me lembro do exacto sabor do pequeno almoço dessa matina.

Ao longo de toda a vida, quando vejo batatas cozidas, não resisto e peço umas azeitonas, de preferência pretas… e como-as assim mesmo: sem molhos, sem azeites, sem nada: só as batatinhas e as azeitonas pretas. Ui!…

(Continua.)

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