Bem prega Frei Tomás

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

Os lamentos sobre restrição de direitos aos judeus por apenas serem judeus, foi durante muito tempo tema dos próprios judeus e não só. Não encontro justificação para o parlamento Israelita ter feito algo parecido relativamente aos israelitas não judeus.

A estrela de David – símbolo de Israel

A questão da nação israelita tem motivado as mais diversas intervenções ao longo do tempo e dos diferentes interesses que a cada momento se manifestam.
Desde o início do século XX e principalmente depois da primeira guerra mundial que os judeus sofreram perseguições e outras medidas segregatórias apenas por serem Judeus, ou melhor por seguirem determinado tipo de comportamento social próprio daquela comunidade.
Mas já muito antes disso a vida dos judeus nos países onde residiam , não era fácil. Para não irmos mais longe, basta lembrar a inquisição espanhola, e também a inquisição portuguesa, que com os autos de fé sobre os chamados cristão novos, eliminou muitos judeus.
Já no século passado, e depois da revolução bolchevista na Rússia, os judeus foram perseguidos e muitos deles assassinados pelas facções envolvidas na revolução em que cada uma os acusava de “comunistas” ou “fascistas” mas com um resultado invariavelmente comum: a perseguição e a morte.
Claro que durante a segunda guerra mundial e principalmente na Europa que foi o palco de grande parte do conflito, a situação dos judeus foi dramática, principalmente pela perseguição que lhes foi movida pela Alemanha, que acabou no chamado holocausto que deu corpo à chamada solução final.
Mas durante estas perseguições houve como se sabe, várias nações e pessoas que tentaram e nalguns casos conseguiram ajudar os elementos da nação judaica a sobreviver à perseguição que lhes era movida. Para não ir mais longe posso referir por exemplo Aristides de Sousa Mendes, cônsul português em França, que emitiu vistos a milhares de cidadãos judeus, que lhes permitiu movimentarem-se para fora da zona do conflito, salvando-os assim da chamada solução final.
Este português teve aquela actuação contra as directivas do governo, conduzido na altura por Salazar, o que acabou por lhe valer a demissão das funções que exercia e impedido de trabalhar depois disso. Ninguém dava emprego a um homem banido pelo regime a não ser que estivesse disposto a arcar com as consequências. E por norma poucos estavam para isso.
Tudo isto vem a propósito da recente legislação aprovada pelo parlamento de Israel que no fundo acaba por conduzir a que naquele país, Israel, apenas os judeus possam ter acesso a determinados direitos apesar de, dentro do país, existirem outros cidadãos que lá nasceram e que são tão israelitas como os judeus. Falo do direito à autodeterminação.
Uma nação como esta, deveria ter na minha opinião mais cuidado nas posições que toma quando estão em causa direitos dos cidadãos, precisamente por ter sido esta gente que sofreu na pelo o resultado das perseguições que agora se está a preparar para que aconteça sobre outros cidadãos, seus conterrâneos, mas que não são judeus.
O resultado da votação da lei não é consensual, apesar de a grande maioria dos deputados ser judeu. Isso leva-nos a concluir que muitos dos deputados, mesmo judeus, não seguiram as orientações do partido e terão votado noutro sentido. Aliás uma legislação desta natureza acaba aprovada por 62 deputados contra 55.
Uma lei desta natureza, que cerceia direitos, a uma parte da população, não deve ser aprovada por margem tão curta. Aliás isto num qualquer pais da Europa nem seria possível. E Israel quando lhe dá jeito segue as regras da Europa, mas apenas quando lhe convém.
Por exemplo, nas ligas de futebol da UEFA Israel participa com a Europa pois os países asiáticos onde deveria pertencer recusavam-se a jogar com Israel e boicotavam os jogos. Nessa altura a Europa ajudou Israel.
No festival da eurovisão da canção também Israel participa por razões parecidas muito embora se refira o facto de fazer parte da rede Europeias de radiodifusão.
Não conhecendo naturalmente a legislação aprovada mas apenas o seu resultado não posso deixar de lamentar que os deputados de um país cujos pais ou avós foram perseguidos por ser judeus, (para falar apenas dos mais recentes) esteja agora a aprovar legislação que aponta necessariamente nesse sentido para quem não seja judeu.
É altura de citar o provérbio que deu título a este texto:
Bem prega Frei Tomás. Faz como ele diz e não como ele faz.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

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