A dívida e o ratting

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

A imagem abaixo, publicada no expresso de 23 de Setembro do ano findo, pretende reproduzir a nova classificação que foi atribuída à dívida portuguesa por uma agência de ratting.

Dívida portuguesa sai do lixo

Conhecendo da matéria apenas o elementar, hoje resolvi partilhar com quem ler uma explicação sobre esta temática. É uma explicação dada por quem tem sobre o assunto uma pequena ideia e não por nenhum especialista. Não esperem por isso grandes considerações e novidades e nem sequer qualquer coisa nova.
Só que, como eu, provavelmente muitos de nós por vezes gostamos de conhecer determinado tipo de coisas que ouvimos. E quando a explicação nos é apresentada por especialistas nem sempre a entendemos, pois a utilização da linguagem própria e hermética não se trona facilmente entendível por todos. Por isso resolvi numa linguagem simples, tentar explicar esta matéria.
Vamos lá então.
Os Estados para se financiarem por norma emitem títulos de dívida pública.
Esses títulos destinam-se a obter fundos para poderem efectuar as suas transacções seja com outros Estados, sejam mesmo dentro da própria economia.
Se o Estado precisa de dinheiro, emite títulos de dívida pública.
Quem tem dinheiro, pode comprar esses títulos de dívida publica desde que com essa compra ganhe alguma coisa. Basicamente o Estado emite um documento que dá garantias de poder vir a ser trocado posteriormente por dinheiro com alguma rentabilidade para quem compra. O mercado deste tipo de produtos, permite que para além dos investidores privados normais, também os Estados possam adquirir dívida pública de outros Estados.
Quando os particulares ou Estados compram esses talões de dívida, pagam em dinheiro e por isso os investidores (particulares ou outros estados) ficam com o bilhete e o Estado emitente recebe o dinheiro.
É uma espécie de empréstimo de dinheiro a prazo.
Quando alguém empresta dinheiro a outrem, por que não necessita dele na altura, ou por que quer obter rendimentos, então o investidor emprestará a quem lhe pagar mais e der maiores garantias de que devolverá o dinheiro e o rendimento que contratualizou quando foi feito o empréstimo, no prazo que acordou.
Se empresto por um determinado período, devo, no fim desse período ser retribuído não só do dinheiro mas também do rendimento desse dinheiro.
Então qual a divida publica que deve ser a minha eleita para adquirir? Certamente aquela que maiores garantias me dá. Mas, como em todos os investimentos, quanto maiores garantias me são oferecidas, menos risco corro mas por outro lado menor retribuição me oferecem.
É nessa altura que aparecem as agências de ratting que avaliam a economia dos países e produzem qualificações para as dívidas públicas desses países.
Um país com uma economia pujante e desenvolvida certamente terá uma qualificação da sua divida superior à de outros em que esse tipo de indicadores sejam negativo.
No fundo, o ratting que as agências publicam é uma espécie de garantia para eventuais investimentos, tendo por base um conjunto de indicadores económicos de cada país
Dívida pública “lixo” corresponde a um país em dificuldades financeiras e por isso é um risco comprar esse tipo de dívida. Por outro lado, quanto maior o risco, menos pessoas estão dispostas a comprar e por isso é normal que quem quer vender por que precisa, diga que paga uma remuneração mais elevada.
Ou melhor, não é preciso dizê-lo. Colocados os títulos à venda quanto mais investidores aparecerem a querer comprá-los melhor para quem vende pois pode vender retribuindo menos.
A qualificações da dívida dos Estados feitas pelas agências de ratting são no fundo conselhos para quem quer comprar. Se lixo corre grandes riscos… Se a qualificação é outra, o risco é menor. Mas com risco menor o rendimento de quem comprar é mais baixo.
Naturalmente que os estados que permanentemente estão a emitir dívida pública devem, e fazem-no, jogar com a melhor forma de comprar e vender essa dívida, por forma a obter um saldo o mais possível positivo.
A emissão de dívida tem juros baixos, então devo emitir para liquidar outra que tenha emitido antes com juros mais altos. Naturalmente que nesta situação acabei por ter um saldo positivo.
Quando dizemos que os títulos de dívida a 10 anos está a 2,5% estamos a dizer que o nosso Estado promete pagar aquele juro a quem lhe emprestar dinheiro comprando os títulos. Como tem outras dívidas anteriores com juros mais altos é altura de as pagar e ficar com estas. Naturalmente se os investidores das dívidas anteriores, aceitarem.
O total destas emissões de dívida são aquilo a que chamamos a dívida geral e que dizemos estar em 2017 a 125,7% do PIB. Isto quer significar que o PIB de um ano não chega para pagar a dívida que o país tem.
Nas primeiras emissões de dívida deste ano, o nosso Pais vai pagar cerca de 2% nas emissões a 10 anos e 0,5% nas emissões a 5 anos o que, na actual conjuntura é um valor bom mas, mais uma vez influenciado pelo ratting e antes disso pelo desempenho da economia.
O tema da dívida voltará a ser abordado aqui no próximo texto, mas agora numa perspectiva local e mais rural.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

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