Ode ao Castanheiro

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Não queria iniciar novo tipo de escritos, estes já não sobre Quadrazais mas mais ligados à minha vida de jovem aventureiro, sem dedicar um texto à árvore que alimentou os quadrazenhos e outros povos da Raia de Riba Côa e outras regiões de Portugal durante anos, quiçá durante séculos, enquanto a batata não chegou à Europa e a par desta depois da sua introdução em Portugal. Quadrazais, terra de castanheiros ancestrais como haverá poucas, tinha de viver das castanhas. Cruas, cozidas, assadas, pisadas, em caldudo e a qualquer refeição. Que bom aquecer as mãos ao debulha-las saídas do assador que repousa sobre o lume! Até puxam por uma copa de aguardente! E nunca aí se matou alguém por causa das castanhas.

Castanheiros do Sabugal - Capeia Arraiana

Castanheiros na aldeia de Quadrazais no concelho Sabugal

Ode ao Castanheiro

Castanheiro amigo, que dás sombra abundante no Verão e abrigas da chuva no Inverno! Tuas folhas, quando verdes, podem alimentar animais, quando secas adubam terras. Tuas vergônteas junto aos enormes troncos fazem a alegria das crianças que, com suas navalhinhas arrancam sua casca em espirais, tingindo depois a parte nua com sumo de amoras trigais, divertindo-se como haviam visto aos rapazes que as preparavam para chicotear os cavalos que os levariam à inspecção ao Sabugal. Essas mesmas vergônteas fazem saltar de contentes cabritinhos que as roem como as crianças roem chocolate. Teus ramos ainda jovens encrustam o buraco de enxadas e ganchos que semearão e arrancarão batatas. Teus grossos ramos serviam para a criançada imitar os comediantes, seguros neles pelos pés e de cabeça e corpo dependurados. À tua sombra a criançada jogava a bola. Teus troncos vetustos com buracos enormes abrigavam os crescidos da chuva ou da guarda que os perseguia para lhes tirar o carrego, seu ganha-pão. Mas também serviam de esconderijo nas brincadeiras da criançada no jogo do rocanacó. Teus ouriços ainda verdes, mas já recheados de castanhas que deliciavam crianças, também alegravam rapazotes que jogavam ao castelo na alpendrada da capela de Santo António. Um mês passado, com os ouriços a sorrir, mostrando os dentes, vão alegrar o estômago de quem as come cruas, assadas ou cozidas. Que prazer o da criançada que, ao atirar uma pedra, vê caírem-lhe aos pés aqueles dentes avermelhados, prontos a entrar nas suas bocas! Até as castanhas flercas, que não alimentam ninguém, servem para divertimento, sobretudo das crianças, tão tuas amigas. Cospem-lhe por cima, não com ódio, mas para deitar ao lume e ver se o ventre de alguma mulher do seu conhecimento dará à luz um menino, se estoira, ou uma menina, se bufa. À tua sombra comiam o jantar e a merenda os cultivadores dos chões, revigorando seus corpos e descansando do árduo trabalho. Era à tua sombra amiga que os peregrinos regressados da Senhora da Poba, antes de chegarem ao Sabugal, comiam suas merendas. Por isso ficaste conhecido pelo nome de castanheiro das merendas. Outros nomes te puseram, como o castanheiro da grila, como se fosses alguém da família a que era preciso dar nome de baptismo.

Teus ramos grossos dariam largas tábuas para portas e janelas das casas e ainda para escanos e outras mobílias. Duravam séculos, que o bicho não lhe entrava facilmente. E enchiam os magros bolsos dos donos, se preferissem vender essa madeira. Teus troncos, quando já velhos demais e secavam ou os donos os arrancavam, aqueciam-nos nas noites de Inverno se retirados antes que a rapaziada os roubasse em vésperas de Natal para fazer a fogueira (o madeiro) que haveria de aquecer o Menino e também a população, satisfeita com mais um ano que terminava com alegria.

Enfim, castanheiro, quantas alegrias proporcionaste a crianças, rapazes e velhos! Eras, de facto, o rei da floresta e das vidas dos quadrazenhos. Merecias um monumento. Mas, para quê um monumento pequenino de pedra, se tu és um enorme monumento vivo durante séculos e com a altura de 10 estátuas em cima umas das outras?

És fonte de vida porque alimentas homens e gados, mas também porque à tua sombra quantas burras presas ao teu tronco ou ramos saciaram o cio e procriaram! Quantos amores deram asas ao sonho à tua sombra deitados em cima dum cubejão por causa dos ouriços! Nos buracos do teu tronco e nos teus ramos, quantos ninhos fazem as avezinhas, procriando seus filhotes! Agradecidas, essas avezinhas escrevem nas tuas folhas com o bico mensagens ao de amor, como dizem as crianças.

Quantos enxames de abelhas fazem seus favos de mel que alimentarão novos enxames aí nascidos! Nos teus ramos descansam e pernoitam também grujas com pios agoirentos, que arrepiam os supersticiosos, e abutres que descem da serra até ao povoado.
Mas também serviste de amparo na morte quando alguém acabou a vida dependurado dos teus ramos ou acabou seus dias junto ao teu tronco, como fez o Amaro, e escondeste a morte quando a Bajé Ginginha atirou seu recém-nascido para dentro do teu tronco.
Teu tronco poderia abrigar uns tantos sem abrigo se crescesses em Lisboa ou Porto. Mas tu foges da cidade, por não ser o teu meio ambiente despoluído. Os quadrazenhos, recordam-se de ti quando têm de comprar teus frutos tão caros nas cidades. Nem sabem a castanhas, Falta-lhes o ambiente. Sim, o ambiente da terra que os viu nascer é que lhes dá o gosto.

Quem encomendou ou idealizou o brazão de Quadrazais esqueceu-te. Mas não o povo que ia apagar-te o fogo pegado por algum raio. É que tu não és uma árvore qualquer. Não se deitam ao lume os teus ramos, como o fazem ao carvalho, nem sequer as tuas raízes, ao contrário das cepas do carvalho. Só vão ao lume algumas pernadas secas ou cortadas pela poda. Nem eu te esqueci já que te dediquei a contra-capa do 3.º volume da minha obra e te elogio agora. A tua madeira só poderia servir para fins nobres, para fazer caravelas e naus que haveriam de demandar as Índias e Brasis.

Castanheiros sem folhas no Inverno - Capeia Arraiana

Castanheiros sem folhas no Inverno

No Inverno, despido das folhas, apenas com algum ouriço preguiçoso dependurado dos teus ramos, não perdes a imponência. Teus ramos compridos erguidos ao céu, quais agulhas dos pináculos das catedrais góticas a quererem tocar no Criador, suplicam a esse mesmo Criador que te revista para suportares o frio. E o Criador manda-te as candeias, quais brincos dependurados das orelhas dos que te apreciam.

Que te fizeram os quadrazenhos e habitantes doutras terras para quase desapareceres? Vi muitos trabalhadores a pôr as tuas raízes a descoberto para sobre elas deitarem uma tinta que diziam te iria curar. Mas não! O teu mal foram os gananciosos de muitas partes do mundo que alteraram o clima propício ao teu crescimento. Tu precisavas de Primavera, Verão, Outono e Inverno. Mas passou a haver apenas Verão e Inverno. E tu abandonaste as terras onde crescias. Também muitos quadrazenhos, agora ricos com o dinheiro da França, te maltrataram. Arrancaram-te para construírem casas apalaçadas, como se já não precisassem das tuas castanhas, comprando outras noutras partes com seu dinheiro abundante. Ingratos! E lá se perdeu o encanto do Stº António, da Burraca, Cabecinho, Cova, Soito Concelho e sei lá de quantas partes mais do velho Quadrazais!

Por isso, como os súbditos romanos que diziam: Ave, Cesar, também nós teus admiradores agradecidos te saudamos: Ave, Castanheiro amigo!

Notas:
Caldudo -caldo feito de castanhas piladas.
Cubejão -cobrejão. Manta feita de farrapos desfiados.
Gruja -coruja.
Rocanacó -jogo das escondidas.
Senhora da Poba -Senhora da Póvoa.

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«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

One Response to Ode ao Castanheiro

  1. Ana Rita BRAGA diz:

    Gosto desta história ,pai eu adoro as tuas histórias.

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