A «salto»… sem despedida

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Havia frio na madrugada da partida. Um vento fresco cavalgava o vale para se abraçar ao Monte. O céu mantinha-se desenevoado deixando adivinhar a limpidez do dia que prometia emergir.

De quando em vez alguém partia “a salto” na longínqua manhã

Os pássaros iniciavam voos velozes. Dezenas de pardais rasavam os chãos de relva pálida em busca de sustento.
Não explicito, com absoluta certeza, a época do ano. Primavera não era, suponho. Não havia flores. Inverno também não, pelo chilrear das aves que cantavam de papo composto e o inverno é muito mais faminto. Talvez fosse final de verão.
Havia Monte, sim. Ele é omnipresente. Havia a expectativa do sol e uma brisa que sacudia tudo, inabilmente.
As lembranças dessa manhã não são todas boas nem todas más. Sobraram desconsolos, despeitos indefiníveis e sentimentos por explicar. Mas resultaram também escassos alívios e alguns sossegos.
Houve momentos, uns mais perfeitos que outros. Mas poucos se perderam. Quase todos foram exarados na memoria.
Vivia-se, nessa época, uma ruralidade absoluta. Os tempos eram magoados e injustos. Secretismos e rumores fechavam os dias, cresciam nos serões, alongavam-se nas noites e renasciam na manhã seguinte.
Eram tempos medrosos, opacos e escondidos. Só as crianças eram verdadeiramente livres.
De quando em vez ouvia-se que alguém partia e, sim, alguém partiu “a salto” na longínqua manhã.
Naquela época era proibido partir. Mas quando se partia não falhava tudo bruscamente porque se levava a esperança. E merecia-se ter esperança.
Partia-se sem despedida. Era triste. Mas se houvesse despedida seria ainda mais triste. O silencio tornava a partida menos penosa.
Merecia-se pensar noutros finais de verão.
Na passagem do tempo, foram-se logrando verões diferentes, de regressos não esgotados na primeira abalada até que os verões esperados se tornaram livres após os alvores de Abril e começaram a trazer agostos joviais e promissores.
Foi então que os finais de verão se fizeram-se muito menos sofridos e já com despedidas permitidas.

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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

3 Responses to A «salto»… sem despedida

  1. Irene Bernardo diz:

    Parabéns Fernando, adorei este teu artigo, um beijinho.

  2. João Duarte diz:

    Que curioso artigo , onde se escreve ” Naquela época era proibido partir” : Tão mais curioso quando há pessoas do concelho do Sabugal (que perdeu 60% da sua população nessa vaga emigratória dos anos 60) a escreverem que as pessoas que partiram foram uma espécie de traidores à Pátria. E conseguem convencer pessoas daquilo que escrevem e , mais curioso ainda, muitos dos que partiram a salto são os primeiros a dizer que viviam foram dessa ruralidade.

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