Ai que saudades da minha infância! (2)

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

HOMENAGEM AO MEU TIVOLI – Nas aldeias quase todas as famílias têm animais: um burro, um cão ou um gato. Quem tem espaço em frente da casa, o curral, e um telheiro (cabanal) tem ainda um cavalo, galinhas e, às vezes, coelhos, patos, perús ou mesmo gansos. Antigamente usavam a loije, andar térreo, para as vacas, burros ou cavalos. É o que acontecia frequentemente com os lavradores que tinham vacas. Havia quem tivesse galinhas ou porcos num pequeno espaço debaixo da escaleira (no poleiro das pitas) e (na cortelha), que se passeavam durante o dia pelas ruas, tal como os cães. (Parte 2 de 2).

O cão da minha infância chamava-se Tivoli - Capeia Arraiana

O cão da minha infância chamava-se Tivoli

Pelos fins do Outono, quando eu ia bem cedo cortando o frio, de cesta na mão a caminho da Burraca apanhar as castanhas encravadas no códão, a sorrir dentro dos ouriços, lá seguias tu a meu lado. Apanhar as castanhas é que não conseguias, que eu não te permitia usar os dentes no alimento que a família haveria de comer. Mas sentia o teu carinho soprando o teu bafo quente sobre as minhas mãos ao ver-me gemer de frio.

Quando ouvia o chiar cadenciado das rodas dos carros puxados por pachorrentas vacas, acompanhavas esse ruído com ladricos também cadenciados, como em consonância com os carros.
Só não saltavas para o carro quando eu saltava para dar uma cavalada.

De vez em quando lá andavas tu à bulha com algum colega que se interpunha entre ti e mim. Por vezes a bulha era atiçada pelo Liseu para te ver lutar com outros da tua espécie.
Às tardinhas no Verão e já noite no Inverno, fazias parte da bicha que se formava junto da casa do Sr. Zé Simão a aguardar que apartasse o correio para o distribuir. Pressentias que eu iria ter carta ou não, com o teu olhar contente ou triste. Davas saltos de contente quando o Sr. Zé Simão me entregava uma carta e eu mostrava o meu contentamento com um sorriso na tua direcção. Parecias irmanado comigo! E lá regressávamos a casa pela calçada, tu como a trote e mirando-me constantemente. No jogo das cartas no cabanal, seguias atentamente atrás de mim as cartas que eu botava em cima da mesa e davas sinal de contentamento quando eu as recolhia da mesa, porque havia ganho a vezada.

Tu ias comigo dar de beber à burra no pio, ias comigo para o campo a cortar erva, a regar, a bater à burra para tirar água do poço do Soito Concelho para a mãe poder regar as batatas, feijões ou milho, ou assistir a alguns trabalhos. No teu íntimo deves ter-me acusado de maltratar a tua amiga burra! De volta a casa brincavas a meu lado a fazer um pocinho onde deitava água para ser retirada por uns cambos que também fizera a teu lado.

Quase a fazer 7 anos, começaram em casa a falar de matricular-me na escola. Matricular? Que era isso? Seria levar um martelo para a escola e bater com ele em alguma coisa? Marticular, como pronunciavam, tinha sabor a martelo!

E lá fui eu para a escola, já na casa de cima. Levavas-me até lá, Tivoli. Quando regressava a casa e me punha a tentar ler em voz alta: a, bê , quê, dê, tu latias também em ritmo cadenciado, como a mostrar-me que também sabias ler. E quando eu pegava na pedra e, com o pedrisco, rabiscava números nela, tu olhavas-me dum lado e doutro, abanando a cabeça, sem saber o que eu estava a fazer. Só acalmavas quando eu me levantava, colocava a pedra e pedrisco na bolsa que a mãe fizera e ia brincar contigo. E tu não regateavas em ir comigo. Onde parará a pedra? Deve ter-se partido em pedaços e foi deitada no lixo. O pedrisco partiu-se, certamente. Mas ainda conservo um, inteirinho, para mostrar ás meninas como se escrevia quando não havia esferográficas.
Ai! Se tu tivesses presenciado a bofetada que o professor Evaristo me deu quando, ao quadro, não conseguia fazer um problema! Seguramente terias mordido a mão do professor.

Das galinhas, patos, gansos, burra, égua as saudades são mínimas comparadas com as que sinto por ti. Da égua guardo também bastantes saudades. Já grandote, ia todo vaidoso ao pio dar-lhe água, a galope por aquelas calçadas! A galope ao lado da camioneta da carreira a ver quem ganhava a corrida, a caminho da Eirinha. Égua que até saltava paredes. Meiguinha. Mas, também acabou por morrer. E de morte macaca. Meteu-se debaixo da majadoira no cabanal. Ao levantar-se partiu a espinha ao bater na majadoira. E acabou por morrer.

Já velhinho, o pai resolveu arranjar outro mais bravo, para guarda da casa-o Tejo, um cão mais corpulento, meio Serra da Estrela, cão bravio que não permitia a entrada de estranhos no curral. Passava os dias preso, quando tu, Tivoli, jamais sentiste um colar no pescoço. Eras dócil.

Dois cães no curral eram demais, até porque o Tejo não brincava contigo e ameaça morder-te a todo o momento. E lá foste tu para casa do irmão do pai, o tio Quim, a quem tinha morrido o Nero. Via-te de vez em quando, mas tu, dorido por te ter trocado, olhavas-me de soslaio de olhos vermelhos, talvez de tanto chorares por mim. Fui ingrato para contigo. Mas, mal tu sabias a dor que sentia por não te ter a meu lado e de jamais teres saído da minha memória. Morreste, como todos os seres vivos. Provavelmente, eu estava longe para poder fazer-te a última carícia, apesar de já não me pertenceres. Deves ter sofrido muito por não me veres a teu lado e dizer-te o último adeus. As minhas desculpas, Tivoli! Ter-te-ia dado uma sepultura digna, ainda que não piegas, como as que vemos no Jardim Zoológico em Lisboa dedicadas a bichos. Jamais te esquecerei, Tivoli. Como não esqueço o outro Tivoli, meu companheiro de caça, muito meigo para as pessoas, mas impossível na companhia doutros bichos. Ou não fosse ele um Fox-Terrier! Mas, nem deste guardo tantas saudades quanto de ti!

Tivoli, não chegaste a ir comigo à caça, quando já tinha 18 anos e o pai me emancipara. Creio que já tinhas deixado este mundo. Esse papel coube à Listra, raposinha amarelada, muito amiga, mas que preferia a avó, a quem acompanhava até ao Soito Concelho de Cima, onde ela gostava de trabalhar, sem que ninguém lho encomendasse e obrigando-me a ir levar-lhe o jantar. Lá estava ela deitada junto da choça, pronta a ladrar ao primeiro que se atrevesse a entrar no chão. Até a mim talvez tivesse ladrado, antes de me chegar a ela. A afeição à avó Luísa era tal que, deixando a avó o chapéu velho no chão para o usar no dia seguinte, lá ficava a Listra toda a noite a guardá-lo, também sem ninguém lhe encomendar tal trabalho. Por ter a avó sempre no pensamento, era difícil levá-la comigo à caça. Se calhava a passar perto do tal terreno, desaparecia e não mais a via, nem acudia aos meus chamamentos ou assobios. Também ela teve morte pouco digna. Devido ao seu atrevimento de se atirar aos carros que passavam diante do portão, um dia um carro atropelou-a. Foi ela a culpada e, por isso, o pai não aceitou o dinheiro que o automobilista queria pagar-lhe. E tu, Tejo, também tiveste morte matada às mãos do Manel Panto, que te deu com uma enxada na cabeça, por tu teres tido a ousadia de lhe morder. Ganhaste a aposta que ele fizera com o pai, que te gabava a bravura e recomendava ao Panto que não se aproximasse de ti.

– Solte-o lá, que eu não tenho medo dele! – bazofiava o Panto, que ia trabalhar para o pai.

O pai soltou-te. O Panto muniu-se de um grande e pesado ramo de castanheiro para te atacar. Mas tu, Tejo, eras ágil, saltaste por cima do ramo e apanhaste o Panto com os dentes. Ficou-te com ódio de morte. Até que praticou o crime hediondo e cobarde, porque tu estavas preso. Consola-te em saber que ele também já morreu!

O pai substituiu-te por uma cadela filha de lobo que se dera com uma cadela guardadora de gado no Alcambar. Já não me lembro do nome dela. Deixou poucas saudades. Era brava demais mesmo para connosco. Para a prendermos era um problema. Arreganhava os dentes e chegou a morder ao pai. Este acabou por dá-la a alguém, pois não queria tal ingrata em casa.

Com a ida para o seminário a minha infância acabou. Já não tinha Tivoli, nem Listra, nem Tejo, nem burra, nem égua, nem mesmo o cantar do galo ou o grasnar dos gansos bravios, que me picaram uma vez. Perdi a minha infância! Que saudades, Deus meu! Só nas férias a retomava aos poucos. Mas já não era bem a mesma…

Notas:
Alcambar – topónimo no sopé da serra da Malcata.
Capulo – peça de sola onde encaixava outra, juntando a mangueira ao mangual.
C’stantino – Constantino.
Dar-se com – envolver-se de amores com.
Defumeço – defumaço-pequeno vaso com brasas a pue se deitava açúcar, poejos ou malaguetas e se colocava à porta de alguém pelo Entrudo.
Eirinha – topónimo junto da estrada para o Sabugal, onde meu pai tinha uma vinha.
Galhada – galho de uma pernada de carvalho.
Liseu – Eliseu.
Loije – andar térreo para os animais
Majadoira – manjedoura
Pio – grande pia junto do fontenário para dar de beber aos animais.
Rascalheiro – alguém disfarçado e coberto com uma manta munido de um grande ramo de carvalho ou castanheiro, que saltava das esquinas e varria os passantes no Entrudo,
Rebusca-pés – pequeno rastilho com pólvora.
Rocanacó – jogo das escondidas.

(Final da parte 2 de 2).

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«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

One Response to Ai que saudades da minha infância! (2)

  1. Augusto diz:

    É maravilhoso o que dizes do teu TIVOLI enquanto tiveres recordações destas a tua infancia não acaba. Um abraço

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