Os incêndios combatem-se no inverno

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

A frase, dita assim, parece descabida e desajeitada mas, se pensarmos um bocadinho, verificamos que faz todo o sentido. Foi proferida pela última vez que a ouvi, pelo actual Primeiro Ministro.

Limpeza das matas

É no inverno e princípio da primavera que se devem limpar os matos que mais podem provocar no verão os incêndios de que todos anos somos vítimas. E é no inverno por várias razões:
Por um lado é nessa altura do ano que nos campos a intensidade de trabalho agrícola é menor.
É nessa altura do ano que as árvores mais facilmente cicatrizam intervenções de corte de ramos, pois a circulação da seiva é menos intensa.
É nessa altura que podem, desde que informadas as forças de segurança, fazer-se queimadas de matos e silvas, que ajudam a limpar e a diminuir a carga de combustível que cresce nos campos.
Por tudo isto, é natural a preocupação governamental e da sociedade civil que no fundo acabam por reflectir aquilo que vai na cabeça de todos nós. Quem, como a generalidade das pessoas das nossas terras, assistiu muitas vezes ao vivo à destruição pelas chamas dos seus pertences florestais e nalguns casos das suas habitações e dos próprios animais domésticos não acha estranho que se tomem medidas por forma a tentar diminuir os riscos.
Ninguém aceitará que o triste espectáculo incendiário do ano findo reforçado com a perda de vidas humanas e outras nas terras do interior do nosso país possa ter uma segunda versão nos próximos anos.
Por isso, todas as iniciativas municipais e das próprias freguesias no sentido de esclarecer e proteger as pessoas das aldeias só podem ser bem-vindas. No entanto as nossas autarquias não podem apenas ficar pelo esclarecimento, embora este seja necessário e importante. Têm de colaborar na limpeza dos campos, garantindo pelo menos as zonas de protecção recomendadas e que abaixo se dá um exemplo.

Protecção de habitações

Limpar matos pelo menos nas zonas de protecção recomendadas, já é um passo para que se consigam na altura mais propensa a incêndios, o verão, diminuir os riscos.
Por isso, deveria pensar-se também em dar algum destino útil aos resíduos que a limpeza das matas provoca. Há muitos anos atrás este problema não se colocava pois os resíduos que se obtinham da permanente limpeza dos campos eram necessários e utilizados durante o inverno para aquecer as frias casas de granito.
Mas isso acontecia quando os campos tinham muito mais gente do que hoje têm. Assim é necessário encontrar formas de rentabilizar, eventualmente através da produção de biomassa, os resíduos lenhosos que se obtêm da limpeza.
As autarquias poderão aqui ter de novo um papel muito importante quer na limpeza quer na eventual criação de empresas ou outras entidades para a recolha desta matéria combustível que no fundo acabará por diminuir de novo o risco.
A intervenção sancionatória de que tanto se fala para quem não limpar os seus terrenos, parece-me um principio que deve ser adoptado apenas quando todos os outros não surtirem efeitos.
É necessário sancionar quando com as nossas acções ou ausência delas, pomos em risco a comunidade em que estamos inseridos e neste domínio justificam-se plenamente.
Por fim e a propósito das zonas de protecção em torno das aldeias, sempre direi que essas zonas são aquelas que menos protecção precisam na generalidade dos casos. Todos sabemos que os terrenos mais próximos das aldeias são os que por norma são utilizados para o regadio e por isso com muito menor probabilidade de poderem desencadear ou alimentar incêndios.
Na nossa terra, e perto da aldeia, temos a horta que tratamos e onde vamos buscar as hortaliças. Não são estas terras que contribuem para os incêndios.
Vamos todos contribuir e colaborar como pudermos, na diminuição dos riscos. Uma das formas é limpar.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

Após um tempo de ausência, por outros afazeres de ordem profissional do autor, a crónica «Do Côa ao Noémi» está de volta ao Capeia Arraiana – bem vindo José Fernandes.
plb

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