Casteleiro – Os caminhos da minha infância

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Falo hoje, mais uma vez, de dois dos caminhos que mais percorri na minha meninice. Recordá-los é entrar nos mais emocionais dos recantos das minhas memórias de infância… Vai perceber porquê.

Entrada para o Caminho do Caramelo - Casteleiro - Capeia Arraiana

Entrada para o Caminho do Caramelo

O meu avô paterno tinha um terreno no Caramelo. Ia lá sempre que me levavam.
O meu avô materno tinha um terreno na Estrada. Ia para lá duas a três vezes por semana. A minha mãe tratava de arrendamento na Serra um terreno do Sr. João Rosa. E eu ia com ela muitas, muitas, terras.

O Caminho do Caramelo

Há locais que nos dominam a vida inteira.
O Caminho do Caramelo é um deles. Mas mais ainda o Caminho da Estrada.
Há uns anitos, a Junta de Freguesia, em boa hora, decidiu arranjar o Caminho do Caramelo.
Fiz aquele percurso milhares de vezes quando miúdo.
O meu avô tinha um terreno lá – o último do Caramelo, mesmo antes do Marneto que se deve escrever Marineto, segundo aprendi naquele tempo, pois era assim que vinha na papelada da Conservatória, e o meu avô gostava que eu visse sempre aquilo tudo, apesar de ter apenas oito ou nove anos. Suponho que aquilo tudo teria pertencido em tempos muito recuados a um qualquer Marim, se calhar algum «senhor» feudal de Sortelha.
Portanto, e voltando ao Caminho do Caramelo: da taberna do t’ Mané Silva e da casita do meu bisavô Pedro Velho – hoje reabilitada e acrescentada (ver foto) – até ali ao primeiro cruzamento que vinha dos Italianos, ainda a coisa era mais ou menos.
Depois, para cima, era um verdadeiro caminho de cabras: pedregulhos no meio da faixa de passagem, altos e baixos por todo o lado, buracos, pedra solta, pedra enterrada com lâminas de fora… De tudo um pouco. Mas era por ali que se ia para o Caramelo…
Depois desta obra, tudo será mais simples.
A pé, ia-se bem por ali.
Eu, de bicicleta, ia com ela à rédea, claro, pelo meio daquelas verdadeiras «escarpas» de pedra.
Era impossível naquele tempo pensar em ir por ali de carro – fosse qual fosse.
Para isso, tinha de se ir dar a volta ao campo da bola (onde agora está o Lar) – que era por onde se ia obrigatoriamente, se se fosse num carro ou num tractor.
Agora, com a reparação, passa a ser uma beleza.

O Caminho do Estrada - Casteleiro - Capeia Arraiana

O Caminho do Estrada

O Caminho da Estrada

Quando se vai para a Estrada, passa-se no Largo da Estalais (Estalagem, claro), as últimas casas do povo, deste lado. Dantes, onde está o lavadouro, havia um pequeno tanque. Atrás do tanque, uns grandes terrenos da Senhora (ou seja: da dona da Quinta das Mimosas, D. Maria do Céu): era o Lameiro. Antes de chegar à Estalais, era a casa do ti Américo Fortuna (que foi Regedor), pai de dois grandes amigos meus, sobretudo o David, quase da minha idade e seu irmão, mais velho, o Zé. Bons tempos por ali sempre na bela amizade e no grande convívio sem guerras. Já na parte superior do Lameiro, já ao pé da Igreja, a coisa não era tão simples: quando havia ali medas, nós os mais pequenitos íamos para lá brincar: escorregávamos pela palha abaixo… Os mais velhos corriam-nos à pedrada de forma selvática… péssimas recordações dessas angústias de garoto aperreado
Volto ao Caminho da Estrada: na foto em cima, pode ver-se a cruz das Cruzes. Do lado esquerdo, nesse tempo de criança, as Cruzes do ti Antonho Jaquim. Mas não era para aí que eu ia quando tantas vezes aqui passava: não: era para a Estrada do meu padrinho Luís Gòveia. Essa fica a uns 500 metros, aqui para a direita (para a esquerda ia-se para a Serra, de que falo mais abaixo). O caminho daqui para a Estrada era lá no fundo. Mas havia uma vereda cá em cima. Se fosse a pé, de certeza que ia pela vereda. Mas quando ia de burra (e ia muita vez), ia lá no fundo. O que valia é que no tempo das moras me fartava de colher e comer – neste caminho havia muitas silvas com moras.
Já agora, impossível esconder a emoção de ver que nesta bifuracação, se formos para a esquerda, podemos chegar à Serra, para onde ia tantas tardes depois da escola coma minha mãe.
Belos tempos, boas memórias.

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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