O galo do ti Pimpão

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

Três rapazes da aldeia, do meu grupo habitual, combinaram sem me dizer nada fazer uma patifaria, uma das grandes e perigosa.

O gajo era o cobridor de todas as galinhas do Cimo do Povo

O meu tio Joaquim Pimpão tinha um galo dos grandes. O gajo era o cobridor de todas as galinhas do Cimo do Povo e até foi visto uma vez na Barreira. Galo que tentasse entrar no seu harém, levava bicada da grossa e então com aquele bicão era ferida certa.
Portanto um Senhor Galo! Pescoço levantado, abria as enormes asas vermelhas e brilhantes para meter medo e impor respeito à concorrência. Comia da vianda do porco, fartura de farelo e couves, cascas de batatas…
Pois os do meu grupo combinaram-se sem mim.
– Vamos apanhar o galo do Ti Pimpão! Aquele bicho tem carninha que nunca mais acaba.
– Vamos comê-lo na tua casa da Avenida, ó M…..
– “Apanhamozo”, torcemos o pescoço e vamos depená-lo na ribeira, as penas e as tripas vão por aí abaixo…
– Mas tem uma coisa… o Zé Jorge não pode vir connosco, se vai e descobrem o Padrinho dele arreia-lhe com o cavalo-marinho, fora as porradas do Ti Pimpão, que é um grande animal…
Pois aconteceu mesmo. Agarraram o Galão ali perto do lagar de baixo, meteram-no numa saca de serapilheira e foram até à ribeira. Mas até lá chegarem foi o cabo dos trabalhos. O galo tinha muita energia, mexia-se com força, as patas às tantas lascaram a saca e ninguém segurava aquela chinfrineira. Com o lenço de assoar do J. atou-se o bico. Até que o M. resolveu o problema, atando as patas com o cinto.
Chegados à ribeira, perguntaram:
– Quem é que mata o galo? és tu que tens uma navalha boa…
No meio daquela indecisão o galo desenvicilhou-se do cinto e com as patas livres mas dentro da saca começou a correr desabridamente por ali na direcção da ribeira. E todos atrás dele pelo meio das silvas, praguejando feitos malucos. Um cagaçal naquela noite. E o bicho às tantas caiu no pego cheio de água quase gelada, pois era Inverno. Como o animal era pesado, a saca ia-se afundando.
– Deixamos o galo ali que se fo…., disse o M.
– Não pode ser assim, o Ti Pimpão vai logo dizer que foi o Zé Jorge.
O A., mais afoito, meteu-se dentro de água e como o galo já estava meio afogado, foi só acabar com uma navalhada certeira.
– Agora seco-me onde? – disse gemendo da frieza.
Foram comê-lo para a casa da avenida. Cortado aos bocados, uma batatas, sal e umas malaguetas… tudo para dentro dum panelão desses de ferro de três patas.
Um ainda disse:
– Se o Zé Jorge tivesse vindo, tínhamos aqui um garrafão de vinho do sr Tenente…
Na hora da comezaina e com a luz de uma vela, descobriram que o galo mesmo morto e cozinhado era rijo que nem cornos!!! Impossível de trincar…
– Isto é impossível comer-se, parece pedra…
Molhou-se o pão no molho e pouco mais.
Meteram todo o comer da panela dentro da saca e foram jogá-lo no fundo do Povo perto do Cemitério.
Na minha casa no outro dia de manhã bem cedinho, apresentou-se o Tio Joaquim Pimpão, vermelho de fúria e tanto que não remoía o caroço da azeitona que usava sempre na boca. Estava eu ainda a dormir na casa de cima, envolto na manta amarela de papa mas ainda me apercebi do alarido.
– Onde está ele? Roubaram-me o galo ontem a noite. Foi ele e os amigos dele… vai levar com esta vide no cachaço…
As minhas tias e primas disseram logo, estranhamente, defendendo-me:
– Não pode ser, o Zé Jorge esteve aqui no lume toda a noite a comer castanhas e a beber anis daquela garrafa que trouxeram de França de presente…
Contaram-me esta aventura (acontecida em 1964), no convívio do Vale na Sertã. Foram precisos 40 anos para eu conhecer a estória do Galo roubado e que o Ti Pimpão sempre desconfiou de mim…
Inocente, “como sempre”!
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«Vale de Lobo e Moita», crónica de José Jorge Cameira

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