O Toino Joaquim

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

O Toino Jaquim era um rapaz bem mais crescido que eu, talvez mais dez anos, o que é importante numa micro sociedade como a de uma qualquer Aldeia. Bem, também tinha a “escola da vida” de certas vivências noutros lados…

José Jorge Cameira – recordações da infância na aldeia

Quando cheguei ao Vale pela segunda vez, em 1955 (a primeira tinha sido em 1951), vindo de África para onde os meus Pais tinham emigrado e atrás do meu Avô-Tenente (Padrinho, assim ele impôs que os netos lhe chamassem), era um rapazola bem moreno dos sóis fortes dos trópicos e tisnado de alto a baixo.
Soou pela aldeia que eu era um Pretinho da Guiné… igualzinho àqueles que o povo via em filmes projectados na grande parede branca da igreja, estórias trazidas pelos Missionários de Cucujães. Num dos filmes, a malta nova, sentada no chão ali junto à Sacristia, riamo-nos perdidamente quando o Padre Missionário dizia:
– E o Macuna continua a fazer fumo!
Assim eu era apodado – o Pretinho da Guiné! Que evoluiu para o preto, ou o “Zé Preto”, ficou assim o meu nome até hoje… dos tais nomes que qualquer um é rebaptizado em qualquer aldeia, por uma qualquer coisa que aconteça…

O Tó um dia disse-me:
– Ó Zé, vou-te ensinar como calares essas mulheres todas que te chamam o Zé Preto. Mas não digas que fui eu que te ensinei!
Claro que quis e então ele diz-me:
– Quando alguém te chamar esse nome, respondes assim:
Zé Preto?
Abre a tua boca,
Qu’eu to lá meto!

Na verdade, eu não entendia bem o que aquelas palavras queriam dizer, mas funcionou e bem. Quando uma mulher me chamava – ó Zé Preto! – eu respondia aquela lenga-lenga, sem perceber o significado.
Comecei a entender que aquele arrazoado não era coisa boa de se dizer a uma mulher, porque elas tornavam-se de repente abelhas enfurecidas e atiravam-me com paus e pedras. Não iam fazer queixas ao meu Padrinho, porque teriam de repetir a minha pecaminosa resposta, seria falta de respeito.
Ainda hoje rio só de me lembrar dessas mulheres correndo atrás de mim pelas ruas do Vale com paus, pedras, sei lá que mais. E ainda apanhei algumas arrochadas, uma delas foi da Filomena Cardena, rapariga brava com’ó caraças!
O Padre Chorão, um dia questionou-me, de olhos fechados (a sua marca de água), sobre o que eu dizia às mulheres.
– Nada não, Senhor Padre, eu não digo nada – respondi com ar muito inocente, olhando pró chão, temeroso…
– Zé Jorge, é pecado chamar nomes feios às mulheres, vê lá se o teu Padrinho sabe!

Pior do que estas cenas, foi coisa parecida com uma praxe que me fizeram um dia. Era novo na aldeia, tinha que passar numa prova para ser aceite à noite nas ruas.
Os rapazes crescidos, donos das ruas à noite, disseram-me um dia:
– Ó Zé Jorge, tens que ir connosco esta noite lá ao cimo da Serra da Opa, apanhar gambuzinos. Só assim é que serás homem e poderás andar à noite no Povo!
Ora ser homem e rápido é o que a moçada nova quer!
Lá fui com cinco ou seis rapazes dos mais velhos ao cimo da Serra da Opa, fazia escuro como breu, mas as estrelas ainda deixavam ver a norte o recorte da Serra da Estrela.
No topo da Serra enfiaram-me uma saca de serapilheira na cabeça, ataram-na em baixo com um baraço de ráfia e num buraco feito ao meio, disseram-me para tirar para fora a “gaita”, leia-se “gaitinha”…
Aforrada a dita, deitaram sobre a “cabeça” (“cabecinha”!) uma gotas de leite de figo verde, afiançando-me que assim ela ficaria grande como as moças gostam, após o que fugiram pela serra abaixo, rindo desalmadamente, deixando-me sozinho dentro da saca, preso e gritando de dores porque o leite de figo ardia que se fartava!!!
Passava das duas da noite e vim por aí baixo, carregado de lágrimas de dor! Lembrei-me que estava ali perto a Mina (de onde saía a água para a aldeia, antes da canalização) e lavei o meu “coisinho” tantas vezes até sentir alívio.
Andei vários dias a medir o meu “coiso”, a ver se crescia com aquele “tratamento”, mas nada, pareceu-me mesmo que encolheu!
Estava cumprida comigo a tradição da “ida aos gambuzinos”!

Naquelas noites de sábados quentes de Julho, toda a estudantada estava de férias. Naquela aldeia sem nada e nada para fazer, a não ser a imaginação da juventude…
Era normal procurarmos qualquer coisa para fazer um petisco. Tudo servia: galinhas, pombos, pardais, enfim… praticamente tudo o que mexesse. Até cobras e lagartos dos verdes! Fritos com ovos pareciam e sabiam a pescoços de galinha! E ninguém se fazia de esquisito, para não ficar com a fama de maricas…
Um dia escolhemos petiscar pardais fritos. Irmos aos ninhos dos telhados da Igreja apanhá-los à noite nos ninhos não era assim muito atraente, era fácil demais. Além disso, o Padre Chorão estava sempre a pedir-nos para limpar o telhado desses ninhos. Ora fazer um favor ao Padre não estava bem nos nossos planos. Que limpasse ele, para queimar aquelas banhas escondidas nas vestes pretas e sebentas.
Quando alguém arranjava pardalada para petiscar o pior era tirar-lhes as penas: era uma trabalheira… por isso, pardais, só em último recurso!
Havia também outro estratagema para arranjar petisco.
Os homens da aldeia costumavam subir a Serra da Opa e, no meio das giestas, havia as passagens habituais de coelhos e perdizes, ora subindo ora descendo a encosta à busca de alimento. Viam-se bem os carreirinhos da passagem dos bichos pelo meio das giestas rasteiras.
Ora ao fim do dia os homens iam colocar nessas passagens as “téis” – feitas de pelos compridos das caudas das mulas, burros, machos e vacas. Eram colocadas nas passagens e quando o animal passava, enfiava o pescoço no nó feito e quanto mais tentavam se safar, mais presos ficavam até morrerem sufocados.
Durante o dia os homens estavam nos trabalhos agrícolas nas respectivas courelas, indo à noite à serra recolher as peças caídas nos laços das téis.
Estavam sempre vazias! É que nós à tarde íamos fazer a vistoria antes deles…
Bem diziam na aldeia, sabendo bem o que acontecia:
– Ah galéquedos dum raio, se vos apanho…
Num desses sábados, tocou a um de nós ter de roubar uma galinha para todos fazermos uma paródia na casa do Adérito, ali bem perto da Igreja, isto é, da Catedral, é o que ela é, nem mais, dada a sua grandiosidade.
A mim calhou-me depenar a bicha, porque descobriram que eu demorava dois ou três minutos a limpar o animal. Como eu fazia? Cortava a cabeça, ia fora, e com a navalha (bela navalha que eu tinha, que lindas tachas!) era enfiar a lâmina no início e abrir até as patas, depois com as duas mãos era abrir como se estivesse a tirar o casaco…
Ainda vejo esta imagem: dei a galinha limpa (limpa, isto é: sem tripas e sem penas, pois o que havia a limpar mais? Lavar com água, seria tirar o gosto a galinha!) ao Tó Joaquim que a cortava aos bocados, deitava para dentro da grande panela de ferro, já bem negra de tanta cozedura e o resto da rapaziada do grupo olhando o trabalho e aquecendo as nalgas no lume da lareira…
Eis senão quando ele faz um corte bem fundo num dedo e começa a jorrar sangue. Perante a estupefacção de todos, deixou o sangue do dedo pingar para dentro da panela!
Hoje penso que ele raciocinou desta maneira: muitos não comeriam, sobrando tudo ou quase tudo para ele!
Mas comigo enganou-se: fui um dos três que comi e a bem fartar, porque era muito e ninguém quis comer por nojo do sangue dele!
:: ::
«Vale de Lobo e Moita», crónica de José Jorge Cameira

Deixar uma resposta