Os enterramentos na aldeia

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

Recordo-me daqueles dias em que o Padre Chorão mandou substituir as pranchas de madeira do chão da nossa “Catedral” (assim chamou à grandiosa Igreja da aldeia o então Bispo Dom Policarpo) e descobriram-se enterradas centenas de ossadas humanas. Aconteceu em 1960-61…por aí.

A igreja nova de Vale de Lobo – em 1948

Foram amontoadas ao lado da porta lateral para seguirem para o cemitério no Fundo do Povo.
Muitas mulheres da Aldeia foram rezar junto às ossadas, de véu branco rendilhado na cabeça e um terço juntando as mãos.
O que muitos desconhecem é que então se encontrou o corpo de uma mulher enterrado quase intacto. Sei disso porque o Padre Chorão foi a correr falar com o meu Avô, então Presidente da Junta, sobre o que fazer.
Decidiram não espalhar a notícia e enterraram o corpo de novo à noite no actual Cemitério. Tiveram medo que se espalhasse a notícia que era uma Santa e viessem pessoas de todo o lado e acabar-se-ia a calmaria na Aldeia! Ou porque haveria outra Santa a concorrer com a Senhora da Póvoa.
Há centenas de anos atrás, os defuntos eram enterrados dentro da Igreja, se fossem de alguma importância em vida na Aldeia, mas a família pagava uma espécie de côngrua. Os outros, os mais pobres, eram enterrados no exterior à volta da Igreja.
A Igreja era outra, mais pequena e atarracada.
Há um contexto histórico nacional destes enterramentos nas Igrejas.
Os Bispos de Portugal no Séc.19 decidiram que os mortos não mais seriam enterrados dentro das Igrejas por uma questão de higiene.
Nos tempos da Guerra Civil entre os irmãos D. Miguel e D. Pedro, uma tal Maria da Fonte fez um levantamento nacional e os enterros voltaram para dentro das Igrejas.
Mais tarde, de novo fora das igrejas.
Foi então que na Aldeia se fez o primeiro Cemitério – no fim da rua detrás da Escola dos Rapazes, a actual Junta de Freguesia, lado direito em declive. Ainda hoje é possível encontrar a olho nu pedaços de ossos espalhados no meio da terra lavrada.
Era ali o local onde os rapazes da Escola Masculino iam abaixar as calças, quando a tripa o impunha.
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«Vale de Lobo e Moita», crónica de José Jorge Cameira

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