As «predizes» da aldeia

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

Nos anos 60, às vezes, o nosso grupo não tinha onde conseguir fanar uma galinha para o petisco de sábado à noite. Ir aos galinheiros das outras aldeias (Meimoa ou Santo Estêvão) era arriscado por causa da barulheira da canzoada, como já tínhamos visto. Casteleiro, essa nunca, porque era a descer para lá e a subir para cá. Moita, havia pedrada garantida e a Benquerença parecia ser lá nos confins.

Perdizes

Então uma sexta feira à noite, alguém se lembrou:
– Vamos às predizes, das galinhas estamos fartos.
– Às predizes? Que bicho é esse, ou é perdizes? E como “apanhamozas”?
O da lembradura explicou:
– Os homens fazem armadilhas na serra e vão buscar as que ficam presas nelas no domingo de manhã para comerem em casa deles.
– E se nós fossemos lá na quinta-feira à tarde?
Se houver alguma “enterramoza” inteira porque dizem que assim fica mais saborosa.
Então na quinta-feira fomos, à tarde, às armadilhas dos homens. Nas calmas, porque sabíamos que eles estavam no trabalho nas suas courelas, a regar, cortar feno ou milho para o vivo.
Foi então que vimos as tais armadilhas, ou lá ou que era.
A meia encosta da Serra da Opa havia uma carreira de estevas e entre elas havia pequenas passagens por onde se escapuliam perdizes e até coelhos. Um caminho habitual deles.
Como era feita a armadilha?
Nessas passagens eles, os homens, prendiam entre ramos de estevas sobre os carreiros os cabelos mais compridos arrancados das caudas das éguas e das mulas. Com um nó frouxo no meio.
Os coitados dos animais quando passavam, enfiavam a cabeça nesse nó e quanto mais se tentavam safar, mais o nó apertava e assim morriam.
Fomos a essas estevas e era verdade: três perdizes e um coelho ali mortos e estendidos à nossa espera!
Nesse sábado houve comezaina à farta numa casa ali perto da Igreja.
Os homens souberam dessa festa dos «garotos» e relacionaram-na com a ausência de presas nas suas téis (tél ou téis – assim se chamava essa armadilha).
Por pouco não levávamos porrada. Por um triz. É que um deles disse:
– Os garotos não eram capazes de fazer uma coisa dessas, são garotos…
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«Vale de Lobo e Moita», crónica de José Jorge Cameira

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