Ser da Moita e também ser do Vale de Lobo

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

Tenho uma teoria sobre a Moita, aldeia que viu nascer a minha Mãe em 1920. É que nesta Aldeia o ar é puríssimo, mais antigamente do que agora, por causa da poluição geral. A situação geográfica da Aldeia faz circular o ar puríssimo que vem da Serra da Estrela. Atrevo-me até a dizer que o frio ali é diferente.

Moita – casa dos azulejos verdes

Porque digo isto? Porque os produtos agrícolas são de superior qualidade o que demonstra a categoria das árvores e sementeiras.
Depois temos a água. Puríssima. Brotando das funduras graníticas, a água escorre na garganta fresca, sem sabor e sem cor, como ela deve ser, seja Verão ou Inverno.
Há logo uma consequência. Se a água é de qualidade e igualmente os produtos do campo, logo a alimentação, os cozinhados, são de excelência.
Imaginemos uma panela de ferro no lume de chão, com água das fontes da Moita cozendo batatas, couves, cenouras. Levado à mesa, regado com azeite das oliveiras da Aldeia, com alho picado, mas onde melhor e mais puro sabor? E se for apiguelhado com um naco de toucinho entremeado, então é manjar de deuses, mas sempre presente na mesa dos Moitenses de antigamente.
Por último, o mais importante.
Se o ar é bom, a água a melhor, a alimentação de elevada qualidade, isto tudo faz com que as PESSOAS, principalmente as de gerações anteriores, eram de grande beleza de Corpo e Alma, vivendo sempre até perto dos 100 anos, como estamos vendo ainda hoje.
As Pessoas faziam a diferença das outras Aldeias em redor, e peço desculpa às vizinhanças, mas é uma verdade inquestionável.
No que me toca, tive sorte em ter nas minhas veias uma boa dose de sangue da Moita. Pouco me importa se este sangue tem mistura de sangue francês das invasões ou sangue dos judeus safarditas vindos para a região no Séc.15. Ou pingos de sangue dos Romanos, Celtas e Árabes.
Não me ralo. É sangue da Moita. E pronto, é bom como o de todos os da Moita, Naturais ou Descendentes.
Eu ia muito à Moita. Era a minha Tia Celeste, irmã da minha Mãe que mandava recado por alguém para eu ir à Moita.É que os meus Pais estavam emigrados em Moçambique e eu indo à Moita era uma forma da Família da Moita “vêr” a irmã.
No mês de Julho de 1965 fui passar uns dias a essa Aldeia, para rever Tios, Tias e Primos, enfim a Família dos “Aníbeis” como era conhecida na região do Sabugal, do lado de cá.
Eu ia a pé e passava no Terreiro das Bruxas. Encalhava sempre com a Capela da Senhora do Bom Parto. Naquela minha idade, era uma confusão para mim haver uma Senhora do Bom Parto. Que seria isso do Parto? Havia a Senhora da Póvoa, a Senhora do Carmo, a Senhora do Almortão. Agora do Parto, tinha de saber o que era aquilo, ainda por cima numa Capela que era mais Capelinha.
Passados uns dias, depois de voltar da Moita, perguntei à noite às minhas Tias e Primas, no alpendre da nossa casa do Vale:
– O que isso do Bom Parto, ali no Terreiro?
A minha Tia Ana, solteirona e velhota mas fortalhona, levantou-se e veio atrás de mim com uma vassoura de estevas.
– Olha cas levas!
Pior ainda, agora é que tinha de saber. Fui ao dicionário do meu Avô e na noite a seguir e disse bem alto:
– Já sei o que é isso do Bom Parto, é quando as mulheres estão a parir!
Dessa vez não foi só uma tia, foram todas atrás de mim, querendo-me bater no desgraçadinho do curioso!
Talvez foi por isso que aprendi a correr, ainda hoje.
Voltando à Moita.
O caminho do Terreiro até à Moita, uns 2 kms, era de terra branca, como um areal da praia. Com uma particularidade. A meio havia um grande e largo veio de mica que brilhava ao longe com o sol. E muitos e grandes arrifos de pedra dos lados.
Era costume naqueles tempos haver grande rivalidade entre as Aldeias vizinhas e geralmente ela não era pacífica.
Chego à Moita e a rapaziada que estava no largo da Igreja, começou logo a preparar uma conveniente recepção ao “garrocho”.
Para além de umas pedrinhas que latejavam perto de mim, nunca nada de mais grave me aconteceu. E porque?
Tinha a “santa” protecção do meu Primo Aníbal, filho da minha Tia Celeste da Loja, infelizmente falecido na Guerra do Ultramar. Se algum se metia comigo, o Ani ia falar-lhe, dizer não sei o que, as feras ouviam e amansavam. Mas ouvi muitas vezes:
– “Hádzas levar ó garrocho, vai prá tua terra! ”
Garrocho era como eram conhecidos os rapazes do Vale da Senhora da Póvoa. Garrocho é um ramo grosso, tosco, torcido e feio de uma qualquer árvore. Os da Moita diziam que eles sim, eram da terra das “Meninas Bonitas”.
Houve um acontecimento que resultou aceitarem-me de vez.
Um domingo os rapazes de Sortelha vieram a pé para jogar um desafio de bola à Moita, num campo da aldeia que havia para lá da Fonte Romana. O campo tinha levado há pouco uma sementeira e as balizas eram em cada duas varas de oliveira já secas.
À hora do jogo houve um impasse. Os de Sortelha não queriam o árbitro proposto pelos da Moita. Por ser da aldeia. Disseram:
– Assim nem vale a pena jogar, perdemos antes de jogar, vamos mazé embora!
Quem é que resolveu a situação?
O meu Tio Manuel Aníbal, pai do meu Primo Orlindo e dono daquela casa de azulejos verdes junto à Igreja, construída por ele em 1942.
Estava por perto e ouvindo a conversa, dirigiu-se aos rapazes de Sortelha:
– Ó rapazes, venham cá jogar, eu arranjo-vos um árbitro sério do Vale de Lobo que sabe destas coisas da bola.
– Ó Senhor Aníbal, ele é do Vale? Ainda pior, eles são ruins. Ele dá porrada na gente?
– Qual que…é meu sobrinho, bom moço, rapaz da vossa idade, este nã faz mal a uma mosca !
Chamou-me e disse:
– Zé Jorge, pega neste apito com que eu chamo os pombos e vai lá para dentro arbitrar o jogo!
Assim foi. Fui quase borrado nas calças. Afinal era o que, arbitrar?
Talvez porque a fama dos garrochos era má por aquela região, infundada já se sabe, todos acataram as minhas ordens que foram quase nenhumas. Ao meio do tempo, o meu tio disse-me de longe:
– Zé Jorge, manda parar o jogo, faz intervalo para descansar. E eu apitava. Para o fim do jogo, igual.
A Moita ganhou 3-0 aos de Sortelha, estes lá abalaram resignados a pé, já anoitecia, praguejando até à sua aldeia.
Na taberna os rapazes da Moita deram-me a beber uma laranjada Cristalina e uns tramóiços.
Foram-me dizendo, com palmadas amigas nas costas:
– Dei com a mão na bola e vi que viste, era penalti e nã apitaste.
– O 3º golo não entrou mas eles estavam encadeados com o sol, nem viram!
Passei assim a ser um deles, um rapaz da Moita. E do Vale ao mesmo tempo, coisa rara de se ver naquele tempo !
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«Vale de Lobo e Moita», crónica de José Jorge Cameira

2 Responses to Ser da Moita e também ser do Vale de Lobo

  1. Com Jorge Cameira aprende-se sempre. É uma crónica que vai ensinando muita coisa. Sobressai hoje a água e os legumes. Faz lembrar que ainda o vou ver a escrever fábula. Certamente ainda não se lembrou. Mas é verdade que diz muito a cada passo sobre animais. Um grande abraço de parabéns.

  2. orlindo cameira santos diz:

    Zé parabéns, está muito bem escrita e autentica o que valoriza a cónica. Parabéns, Zé

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