A minha instrução primária na aldeia

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

Corria o ano 1958, a Aldeia tinha mudado de nome havia um ano. Em vez de Vale de Lobo agora era Vale da Senhora da Póvoa. Porque um pastor quando olhava as cabras numa póvoa (terreno de bom pasto e boas águas) encontrou um boneco e parecendo-lhe ser uma santa, levou-a para a aldeia.

Antiga escola primária de Vale de Lobo

Só que no outro dia o boneco reapareceu na póvoa.
– Milagre!!… clamaram na Aldeia.
Se houve um boneco, seria alguma estatueta romana, pois eles andaram por ali há mais de 2 mil anos…
Na Escola Primária dos Rapazes no Cimo do Povo (onde é agora a Junta de Freguesia) a Sala da Escola era grande, mas só parcialmente ocupada.
O Professor era o Prof José Maria Ladeira, nascido na Moita (aldeia da Beira Alta a 5 kms, onde nasceu a minha Mãe). Andava sempre de jaqueta sem nunca a vestir. Casou tardiamente com a Professora D. Beatriz, a então Profª das Meninas.
Na Escola havia à entrada do lado esquerdo 2 filas de carteiras individuais. Cada carteira tinha o tinteiro com tinta azul onde na Aula de Dactilografia se molhava o aparo e escrevíamos os ditados ou as letras que tinham de caber entre 2 linhas nas chamadas folhas pautadas.
A seguir a essas 2 filas havia o corredor e depois outra fila de carteiras.
Não tenho bem a certeza, mas parece-me que as classes estavam todas juntas, da 1ª até à 4ª classe, havendo no total umas 30 crianças.
Lá ao fundo na parede um enorme quadro preto, com uns 3 metros de comprimento e ao lado deste o Mapa de Portugal onde constavam também as Colónias Ultramarinas. Por cima do quadro uma cruz em vez da habitual foto de Salazar, ainda hoje não sei as razões, se todas as Escolas de Portugal tinham a foto e não a cruz.
O Professor Ladeira sentava-se do lado esquerdo, rente à janela,por baixo desse quadro. Na sua secretária a palmatória, grossa, cor amarelo escuro com a parte redonda com diversos orifícios. Detrás da sua cadeira estavam empinadas uma ou duas varas compridas, de marmeleiro, que eram oferecidas pelas Meninas da Aldeia. Iam todas ao Domingo cortá-las para os lados da Ribeira e à noite metiam-nas debaixo da porta da Escola. O Professor quando abria a porta na 2ª feira pegava nelas e testava-as fazendo-as zunir. Nesse momento começava o nosso terror.
No Dia de Leitura nós ficávamos todos em semicírculo à frente da secretária do Professor Ladeira.
Mandava abrir o livro na página tal e cada um de nós lia um parágrafo ou as linhas que ele entendesse.
Conforme um seu critério classificava os alunos. Quem gaguejava ou lia mal, ia para trás para os últimos lugares da fila; quem lia bem ou gaguejava pouco seguia para a frente para os primeiros lugares.
No Dia das Contas, era a cantilena da Tabuada todos em coro. A Tabuada era escrita na Ardósia com o ponteiro mas às vezes o pingo do nariz apagava qualquer coisa e aí começava uma chatice. A seguir perguntava a um qualquer, por exemplo: 9×2? Se a resposta era errada, o aluno levava uma varada na cabeça. Perguntava de novo, se errava de novo, outra varada, mão na cabeça e choro de imediato pela dor. No outro dia, a mesma pergunta ao mesmo aluno e se errava de novo, então já era palmatoada, uma em cada mão.
Na Aula de Geografia, um dia cantávamos as Linhas de Caminho de Ferro e Ramais, no outro dia as Serras e Cordilheiras e os Rios até onde eles nasciam. Os Distritos e as Cidades. Fazia a um qualquer uma pergunta, se a resposta era errada, era varada e reguadas.
O mesmo nas Aulas de História. Cantar os nomes dos Reis, os cognomes, as Batalhas e os Descobrimentos.
A seguir as perguntas e as pancadarias para quem falhasse.
Havia um intervalo de manhã. Todos íamos brincar ou correr para o quintal da Escola. E subir à grande amoreira que ali estava. Alguns perseguindo outros lá em cima nos ramos, partindo sempre alguns que caiam para o chão. Estes ramos eram rapidamente jogados fora do muro da escola para o Prof Ladeira não saber do acontecido. Muitos iam “baixar as calças” fora da Escola, na parte detrás onde existiu um cemitério há décadas, talvez o 2º da Aldeia, considerando que o primeiro foi debaixo do chão da Igreja. Limpávamos o cu a uma pedra, sempre com cuidado, olhando-a primeiro, não tivesse ela já sido usada anteriormente.
Se alguém se atrasava, o Professor Ladeira estava à espera na entrada, rodando a palmatória com ar ameaçador e pelo menos duas reguadas apanhava.
Era para nos habituarmos a ir e voltar rápido e cagar depressa.
Um dia estava eu na carteira junto ao corredor fazer com cuidado as letras nas pautas e tinha a perna direita fora da carteira. Um colega foi mandado pelo Professor fazer um qualquer serviço fora da Escola, mas que fosse depressa. A correr, tropeça na minha perna, cai com estrondo para a frente. O Professor levanta-se da Secretária e aplicou-me 2 reguadas “chiadas” em cada mão. Ou seja bateu-me com tanta força que até lhe saía um som da garganta!
Faltava a vingança do meu colega que pensou eu ter feito de propósito. Não fiz, mas ele pensou que sim. É que o tombo foi grande e provocou grande risada e troça em todos.
No outro dia o Professor Ladeira levou para a Escola uma maçã para estudo, era abri-la e descrever o interior.
Não sei como esse colega fez, mas quando voltámos do intervalo, no lugar da maçã estava o caroço dela bem rapado, as sementes à vista.
O Professor Ladeira rugiu e ganiu de raiva.
– Quem é que comeu a maçã?
– Foi o Zé Jorge, disse o tal colega do trambolhão.
Não sei dizer quantas reguadas levei. Até sangue havia na minha mão. Chorei baba e ranho. Nada disse em casa, senão apanhava uma segunda dose.
Só a minha Tia Isabel soube. Untou-me as mãos com água fria e depois com azeite.
O Professor Ladeira aplicava em nós, Meninos de 9, 10 e 11 anos estes métodos de ensino e de castigos. Nesses tempos era assim. Por vezes os pais dos alunos até diziam ao professor para bater, para não ter pena dos filhos, pois estes eram selvagens e bardinos.
– Casque-lhes, não tenha dó deles! – diziam ao Professor Ladeira.
Um dia ao fim da tarde o Professor Ladeira quando se dirigia para casa viu um homem a sovar violentamente um burro com um pau. Disse-lhe:
– Não faça isso ao animal, ainda o mata!
Teve resposta imediata “sem dó nem piedade”:
– Pior faz vossemecê todos os dias aos rapazes!
Passados que são 50 ou mais anos, uma coisa é certa: sabemos todos ainda na ponta da língua a tabuada, os nomes dos rios, das serras, os reis e os comboios…
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«Vale de Lobo e Moita», crónica de José Jorge Cameira

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