Portugal conhece o Interior?

Alberto Martins Luís - Alberto Pachê - Capeia Arraiana

Decorreu no passado dia 16 de Setembro de 2016 na Quinta do Prado (Vilar Formoso) um Jantar/Debate subordinado ao tema: «Portugal Conhece o Interior?» Não podendo estar presente, como era minha intenção, mas considerando a temática da questão importante para o Interior não quis deixar de sobre ela explanar o meu parecer.

Gostaria antes de mais de felicitar a iniciativa, sendo certo que se não forem as regiões do interior a trazer este tipo de debate para a agenda política, não serão por certo as zonas metropolitanas a fazê-lo. Está por isso de parabéns a Territórios do Côa, até pela escolha de uma jornalista corajosa, que não tem medo de chamar os bois pelos nomes.
É óbvio que Portugal não conhece o Interior, ou dito de forma mais correta, Lisboa, enquanto sede do poder, não deve conhecer o interior. Porque, se o conhecesse, já teria concluído que é quase criminoso deixar-se 2/3 do território subaproveitado. Se o conhecesse verdadeiramente já teria visto nas regiões do interior oportunidades de desenvolvimento que o país, como um todo, não pode simplesmente desaproveitar.
Se outros povos, com falta de território, foram capazes de transformar desertos em oásis, e desenvolver territórios inóspitos, porque não havemos nós, um país com quase mil anos de história, ter a capacidade de dar a volta por cima em regiões que até já foram bastante produtivas.
É preciso solidariedade das regiões mais ricas? É. Mas isso não é nada demais. Ou não foram as regiões de fronteira o garante da defesa do país durante séculos a fio? Se houver agora alguma solidariedade das outras regiões, ela está mais do que paga.
São necessárias por isso políticas nacionais sérias que encarem o problema como tal e se deixe, de vez, de andar a assobiar para o lado. Políticas que olhem para o desequilíbrio nacional como um mal nacional e não apenas um problema desta ou daquela região. Se reclamamos isso da Europa, porque não o aplicamos a nós próprios? Não dizemos nós – e temos razão – que as crises económicas e sociais são contagiantes e que se não forem atalhadas alastram por todo o lado. Queremos melhor exemplo que a própria crise europeia?
Isso não invalida que tenhamos nós também que fazer o nosso trabalho: saber ler os sinais dos tempos. Não vale a pena insistir em modelos de desenvolvimento obsoletos e gastar o dinheiro que é escasso em ações que apenas visam obter votos.
É preciso virar a agulha e potenciar os setores económicos, geradores de riqueza e de emprego. É preciso saber aproveitar e promover os recursos e as sinergias endógenas.
Naquilo que me diz respeito, como sabugalense, penso que muito pode ser feito. As iniciativas levadas a cabo não têm tido impacto na economia, nem têm acarretado mais-valias, porque faltam muitas outras coisas. Desde logo, é preciso romper as fronteiras do concelho e da região.
A tradição popular da Capeia arraiana é uma prova das capacidades e das potencialidades locais. Podemos até aproveitá-la, a nível do poder local, classificando-a, como se fez e bem. Mas é bom que não nos apropriemos de algo que sempre sobreviveu sem o poder e até contra o poder.
Há que dar-lhe, não só à capeia, mas a tantas outras potencialidades locais, as condições para serem geradoras de economia, como polos de atração e desenvolvimento.
A Aldeia Histórica de Sortelha, considerada uma das aldeias históricas mais bonitas do mundo tem um potencial turístico extraordinário que está longe de ser explorado. A Rota dos 5 Castelos: Sortelha, Vilar Maior, Vila do Touro, Alfaiates e Sabugal que se somam a outros da raia, ou as redes de judiarias, têm que ser melhor aproveitadas.
A região tem condições excecionais nos domínios florestal, agroindustrial e no turismo. É urgente uma aposta no fabrico de produtos regionais de alta qualidade, nomeadamente na de carne bovina e caprina, no leite e queijo de cabra e ovelha, e sobretudo na floresta. Só a criação de riqueza e emprego contraria o despovoamento que põe em causa a vida futura num número significativo das nossas aldeias.
Mas não podemos deixar de limar as assimetrias nas acessibilidades. É preciso continuar a investir em boas ligações inter-regionais, não só rodoviárias mas também ao nível das redes de comunicações.
As obras de ligação às autoestradas não podem ficar, como ficam, nos concelhos do interior, e no Sabugal em particular, décadas à espera de serem acabadas.
O escoamento rápido de pessoas e bens passa, a meu ver, pela construção duma via rápida que ligue a A23 a Espanha, e de um conjunto de ramais adjacentes. O progresso da região passa também por aqui quer queiramos quer não.
É preciso encarar o setor do turismo com seriedade e determinação e ajudar os seus agentes (empresários, agentes de viagens, e outros operadores turísticos) a diversificar a oferta no tempo, no espaço e na tipologia.
O Turismo é um dos setores económicos de maior segurança e estabilidade. É um dos que mais tem crescido em todo o mundo, e acreditamos que será um dos que mais pode crescer na nossa região.
Saudamos aqui a recente candidatura da Carta de Turismo Sustentável Terras do Lince – Gata/Malcata. Estamos certos que será aprovada para benefício dos territórios envolvidos. Mas não basta obter um galardão europeu. É preciso arregaçar as mangas, pegar os bois pelos cornos para usar uma expressão que nos diz muito.
Obter apenas o carimbo, como já aconteceu com outras situações, como a Agenda 21, de pouco serve. Mas neste particular, julgo saber, e corrigem-me se estou enganado, que será a Territórios do Côa a gerir o processo. E se assim é, ficamos descansados, que o saberá levar por diante.

Sabugal 14 de Setembro de 2016

Alberto Martins Luís (Alberto Paché)

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