Os grisalhos

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

Grisalho será um cidadão que, tendo trabalhado uma vida, está agora a usufruir de uma pensão que pagou ao longo dela com os seus descontos. Peste grisalha será a doença que é provocada na segurança social pelos grisalhos que cada vez vivem mais.

Mãos: dum jovem / dum grisalho

Mãos: dum jovem / dum grisalho

De vez em quando somos surpreendidos por declarações e atitudes de quem à partida deveria ter mais tento na língua, principalmente por lhe ter sido confiado um palco para as produzir.
Nada disto teria as repercussões que tem tido, não fora o facto de se ter entendido que um cidadão que não conheço, ter “ofendido” o sr. Deputado Carlos Peixoto e sequentemente ter sido condenado a pagar-lhe uma indemnização.
Este sr. Deputado foi eleito pelo círculo da Guarda e provavelmente com os votos de muitos idosos daquela zona, a nossa, onde abundam, e a que certamente a sua família também não será imune.
O texto que desencadeou toda esta polémica é (este), e foi publicado em 10 de Janeiro de 2013.
A reacção ao texto foi publicada (aqui), e enviada ao autor daquele texto e também para a Assembleia da República.
Depois disso, sabemos o que aconteceu. Uma acção judicial contra o cidadão que questionou o texto do Deputado. Uma sentença da primeira instância, neste caso do Tribunal de Gouveia, que considera não existirem razões objectivas para condenar o cidadão, antes entendendo as suas críticas no domínio da crítica pública, e decide não pronunciar o cidadão, com base na sentença que pode ser vista aqui.
O ofendido, ou provavelmente o Ministério Publico, recorre dessa decisão e o Tribunal da Relação de Coimbra veio a condenar o arguido por ter entendido todo o conteúdo não como crítica pública mas ofensa à honra (aqui).
O problema dos mais idosos e que naturalmente acabam por ficar com os cabelos grisalhos foi abordado por Paulo Portas aqui em Maio de 2013. Nesse texto, em que se usava a expressão “grisalho” aquele político afirmava que Portugal não pode ter uma espécie de “cisma grisalho” que condena principalmente os mais velhos e que por isso nesta fase da vida não têm voz.
Em sentido contrário, apareceu o texto do sr. Deputado Carlos Peixoto que, quer se queira quer não apelida os mais idosos como uma doença que destrói a sustentabilidade da segurança social.
Por vezes é preciso ser incisivo no discurso para que o objectivo que se pretende atingir seja mais facilmente perceptível pelos destinatários. Mas neste caso o senhor deputado, exagerou. E ficar ofendido, na honra ou noutra coisa qualquer, quando alguém lhe responde à letra não é atitude de político e muito menos de deputado da nação.
Percebemos que o problema existe, mas que diabo, será que é preciso começar a eliminar a peste grisalha para que a segurança social seja sustentável? Será que os agora grisalhos cujas carreiras contributivas serão necessariamente longas, são os culpados por eventuais problemas de sustentabilidade? Não me parece.
Provavelmente as dificuldades da segurança social, foram muito mais provocadas por quem legalmente recebe pensões com meia dúzia de anos de contribuições!… como acontece com alguns políticos e juízes.
Acredito que o texto do sr. Deputado teve expressões infelizes e provavelmente consideradas ofensivas principalmente pela adjectivação que lhe colocou.
Acredito que não era certamente o seu objectivo ofender parte dos cidadãos que o elegeram e muito menos os de idade mais avançada que, pela lei natural da vida estarão muitos “grisalhos”.
Também acredito que a reacção do cidadão de Coimbra que não me parece ter sido exagerada em face à qualificação que foi atribuída “Peste” a determinado grupo de pessoas a que pertence “os grisalhos” não fosse ofender quem quer que seja e muito menos um deputado da nação.
Já não acredito que tenha existido suficiente bom senso nas decisões judiciais que depois sobre este caso foram proferidas e que acabaram na condenação do cidadão contestatário, em virtude dos termos usados.
Seja como for, o tema da peste grisalha não irá certamente largar o sr. Deputado durante grande parte da sua vida, pois como sabemos, quem apanhasse a peste, fosse negra, bucónica, etc. tinha na época em que tal ocorreu, a sua sentença definitiva.
Percebe-se que as instituições e seus membros, não podem ser ofendidos, percebe-se que a linguagem parlamentar, entre iguais, por vezes é fértil em excessos. Mas não se percebe que os cidadãos possam ser agredidos com excessos de linguagem e muito menos por parte daqueles que os cidadãos elegeram. E não me venham com a história da responsabilidade política.
Provavelmente, contenção, e compreensão deveriam ser atitudes mais frequentes entre quem informa, decide e julga.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

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