Poldras Pontões e Pontes (5)

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

:: :: A Ponte do Engenho :: :: – As pontes ferroviárias de granito são obras de arte com uma imponência directamente proporcional ao esforço que o granito exigiu para ser trabalhado. A sua beleza tem uma dimensão idêntica à do barroco donde cada elemento foi cortado.

Ponte do Engenho sobre o Noémi

Ponte do Engenho sobre o Noémi

Com a construção da Linha de caminho de Ferro da Beira Alta, vários obstáculos naturais tiveram de ser vencidos. Houve montes que tiveram de ser escavados, dando origem a trincheiras que ainda hoje vemos. Fazer túneis não era ainda a técnica mais usada para vencer montanhas.
Houve também e como é mais vulgar, vales e rios que tiveram de ser transpostos por norma através de pontes que se construíram. Os rios, enquanto obreiros da profundidade dos vales que escavam com a sua corrente da água, foram também elementos a transpor.
Para além da ponte sobre o Côa de que falámos num dos textos anteriores (aqui), outras existem e cuja idade é idêntica à daquela, ou mesmo, como acontece na Ponte do Engenho, com uma idade bastante maior.
A Ponte do Engenho foi construída em 1882, na altura em que a linha da Beira Alta também o foi. É uma ponte de alvenaria de granito, desde as fundações até ao tabuleiro. Possui 5 arcos sendo que o leito do Rio Noémi apenas circula no arco central. Os restantes foram concebidos para garantia a sustentação da ponte.
Sobre o tabuleiro da ponte, encontram-se implantados os carris que suportam os comboios da linha da Beira Alta. É apenas ferroviária, apesar de, como acontece com tudo o que não é permitido, ser atravessada pelos naturais das redondezas em alturas pontuais principalmente pelos mais jovens.
O vale do Noémi que neste ponto é vencido, precisamente entre o Jardo e Castelo Mendo, é profundo, fruto da inclinação do terreno e ainda da proximidade da sua entrada no Côa. De qualquer modo a altura da ponte desde o rio é muito inferior à ponte de ferro.
Possui um perfil transversal de 5,4 metros o que dificultará, se se quiser fazer, a possibilidade de duplicação da linha. O comprimento é de cerca de 90m. Não deixa de ser curioso que estas duas pontes, que na linha da beira Alta estão muito próximas, praticamente uma a seguir à outra, não tenham sequer o mesmo perfil transversal. A de ferro tem 4,8m enquanto que esta tem 5,4m.
Quer isto dizer que quando foram construídas, não foi nunca equacionada a hipótese de duplicar a linha. Estranho também é o facto de ambas terem perfis diferentes e nenhum deles permitir a duplicação.
Quanto ao nome desta ponte, que como é costume é por norma obtido pelos ditos populares como aconteceu com a Ponte de Ferro (que é de pedra), chamaram-lhe Ponte do Engenho provavelmente por existir na altura da sua construção Um Engenho na margem esquerda do Rio Noémi, a montante da ponte.
O local exacto onde se situa a ponte do engenho é indicado aqui, nesta imagem. Aqui se pode ver ainda com alguma nitidez o que resta daqueles engenhos, passados que foram sobre eles várias dezenas de anos ou quase um século.
Esse Engenho era nem mais nem menos do que uma fábrica de lanifícios e certamente que a Ponte e linha do caminho de ferro contribuíram para a sua prosperidade. É preciso lembrar que estamos no final do século XIX e a agricultura e pastorícia eram as actividades dominantes naquela zona. Com o decorrer do tempo, essas actividades entraram em declínio e, já no século XX, a emigração provocou o resto e certamente o fim da fábrica.
O engenho, ou melhor a ponte do engenho é o tampão na foz do Rio Noémi, É o local onde o vale daquele rio acaba e se dilui num outro, de maior dimensão para o qual contribui decisivamente – O Vale do Côa.
Para podermos ver de mais perto a ponte do engenho, já que atravessá-la não é permitido de forma regular (pois ponte é apenas ferroviária), temos de descer até ao leito do Noémi.
Essa viagem pode ser efectuada a pé a partir do Paraizal até atingir o Rio. Aí chegados, olhemos para nascente e certamente veremos a majestosa ponte do Engenho, podendo, se tivermos sorte, assistir à passagem de algum comboio sobre a ponte.
Outra alternativa, sempre pedonal, é partir de novo do Paraizal mas na direcção do nascente, apanhar e percorrer o caminho até à estação de comboios de Castelo Mendo. Atravessar a linha de caminho de Ferro e continuar até à zona em que o Noémi desagua no Côa. Ai, numa zona plana se olharmos na direcção do poente veremos concerteza a Ponte do Engenho agora do lado contrário.
Visitar este local é deslocarmo-nos no tempo, para um tempo em que o tempo demorava mais tempo a passar do que hoje. A beleza do sitio, essa mantém-se e não foi alterada. Os residentes é que diminuíram.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

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