A comunicação de Manuel Leal Freire

Sabugal - © Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CONGRESSO DO FORAL DO SABUGAL :: :: As intervenções no segundo dia do Congresso, a 9 de Novembro de 1996, prosseguiram com o bismulense Manuel Leal Freire, que, numa intervenção muito apreciada, falou sobre «Aspectos etnográficos do concelho do Sabugal».

Manuel Leal Freire (Foto D.R.)

Manuel Leal Freire (Foto D.R.)

Manuel Leal Freire é natural da Bismula, concelho do Sabugal. Advogado de profissão, foi também professor dos quatro graus de ensino – primário, secundário, médio e superior. Colaborou com a imprensa nacional e regional e é autor de publicações várias: jurídicas, etnográficas, filosóficas, políticas e poéticas.
Aceitou falar no Congresso de uma matéria que domina como ninguém: a etnografia das terras sabugalenses.

Transcrevemos a intervenção de Manuel Leal Freire:

Calendário etnográfico duma paróquia da raia sabugalense

O tempo pediu ao tempo
Que o tempo lhe desse tempo.
Respondeu o tempo ao tempo
Tudo com tempo tem tempo..
.

Esta engenhosa construção da lírica popular sabugalense serve não só para demonstrar que o tempo (dádiva de Deus e perante o qual todos os homens somos efectivamente iguais já que o dia do presidente norte-americano ou do banqueiro Simeão conta exactamente as mesmas horas que o do regedor de Quarta-Feira ou do vagabundo raiano), quando bem aproveitado, nunca se revela escasso, ou que, e agora passamos a utilizar vicentina linguagem, todas as coisas com razão, têm razão.
Por este rememorar, que nos propomos, das horas etnoculturais de qualquer freguesia ou anexa da zona fronteiriça, logo concluírem que até nas épocas de maior aperto e nos trabalhos mais duros, o espírito pode reinar e que a obediência à natureza também aqui se impõe.
Reportamo-nos à época, ainda não distante, dos anos sessenta e tomaremos por guia a confraria dos solteiros.
Sem o conhecimento desta instituição que, embora não privativa da Raia Sabugalense, foi aqui que mais fortemente se afirmou e recebeu mais apertada regulamentação, não poderá fazer-se uma abordagem minimamente esclarecedora da matéria.
Assumindo-se simultaneamente como guardiã de avoengos hábitos e principal motor das realizações lúdicas da comunidade, é ela a responsável pela fixação das datas não religiosamente impostas e o suporte financeiro das actividades que exijam actos ou fornecimentos de estranhos.
Solteiro não é, na terminologia da região, todo aquele que não casou, mas tão-somente o indivíduo do sexo masculino que, tendo atingido certa idade e, com ela, suficiente grau de desenvolvimento fisicopsíquico e até de qualidades morais, foi julgado apto a pagar o vinho à rapaziada, vocábulo que vale como sinónimo da confraria e, corolário, a ser membro activo desta.
A admissão ocorria nos sábados de Novembro, contemplava, por via de regra, os que entretanto haviam atingido os dezoito anos e as primeiras cantaradas assinalavam mesmo o dealbar dum novo ciclo etnográfico.
A confraria tinha um maioral (o decano, pois o cargo, salvo grande impedimento, recaía sobre o que há mais anos pagara a patente), corpo de conselhales (termo de acentos charros, o leonismo da região), que pertenciam os dois imediatos em antiguidade, e outros, pelo chefe escolhidos, por mais farsolas ou possuidores de especialíssimas artes. Tinha plenário, obrigatoriamente consultado em muitas hipóteses e sempre que aparecia um novo candidato. E tinha ainda o corpo dos andantes, moinas ou mandaretes, cinco últimos a ascenderem à dignidade, utilizados para certos serviços de menor exigência de ou mais rebaixada qualidade, quando não até de maior risco.
O pretendente tinha de começar por obter a aquiescência do que, no entanto, a dava sempre que não interviessem as do estilo: justificada oposição de pais ou tutores, inexistência de má fama ou maus costumes, em especial quanto a génio e lisura, que a desordeiros e ladrões a porta estava trancada.
Feita a primeira diligência e, se desse positiva, reuniam conselhales com a presença do novato, inquirido pelo aterrador, como devassa do Santo Ofício.
Finalmente, intervinha o plenário, aqui sem a presença do interessado, para que todos, longe de respeitos, pudessem exprimir motivos de oposição.
Todas as delações eram admitidas e ponderadas, excepto as que, porventura, se fundassem em ciumeira.
Apesar do longe ritualismo, os chumbos finais sempre se mostraram raríssimos, um por década, ou menos.
E, se o candidato atingira os dezoito anos, tinha corpo para dar ou aguentar duas arrochadas, sabia calar o que não devia ser revelado (até sob o chicote do administrador do Concelho, que a bater não era peco), não incorrera em delito de má fama, podia preparar a cantarada.
Esta, fixada pelo corpo de conselhales, variava segundo as posses do proposto.
No mínimo, meio litro de vinho e dois sitilhos mata-ratos para cada membro. No máximo, vinho cabonde para bebedeira colectiva, rez esfoladia, carrola de trigos, tabaco de cu aberto, à razão dum maço por bico.
Na classe de andante ou moina depois o iniciado até que sobreviesse um quinteto de pagantes, o que levaria pelo menos um ano, atenta a fraca densidade populacional da maior parte dos lugares.
Nesse interim, teria de assegurar em efectividade o patrulhamento das ruas, em ordem a evitar que garotos nelas deambulassem após o toque das almas (ou, no inverno, mesmo o de trindades), a prevenir assaltos ou amores ilícitos, a averiguar se forasteiro buscava noiva na terra, a informar o maioral ou o conselhal de serviço de qualquer caso insólito ou anónimo, ocorrido na noite…
Naquele particular, se fora caçado o melro, havia que escoltá-lo à presença do maioral e ali cantar-lhe a dos figos, ou fosse convencê-lo a pagar alta patente, atentas as qualidades da noiva (bela flor do jardim da aldeia, segundo formulário em voga, mesmo que rebotalho da primavera) e rapariga de boa sorte (aqui sinónimo de legítima), ainda que dela pouco mais tivesse que os caminhos desimpedidos e vez no forno comunal.
O peralvilho, se quisesse levar as costelas inteira para casa, não tinha outro modo senão ceder, procurando apenas moderar as exigências do novato, no que, diga-se em abono da verdade, recebia não despicienda ajuda do maioral, mais justo ao avaliar dos dotes da trânsfuga, a rebolar-se no miro de casar em terra alheia.
De qualquer modo, o costume, que se nos pode afigurar um tanto desajustado, possuía entre outras, a vantagem de evitar que certos dons joões de rabona andassem de aldeia em aldeia, procurando vítimas. Rapaz que tivesse pago vinho por mão e não casasse com ela entrava no index; e a rapariga, por quem mais que um pagasse o vinho e desertasse, entrava na conta de videira, destinada a ficar para tia, ou passado, no tarde, a bem pior condição moral.
A falta de policiamento, de que hoje tanto se queixam as cidades, não a sentiam as nossas aldeias, graças à confraria dos solteiros, cujos membros exercendo a vigilância que lhes fora cometida pelo maioral e cabia, por escala ou condições de recém-admitidos, ou moinando, em grupo, por sua própria iniciativa, controlavam ao milímetro todo o movimento nocturno.
No tempo das colheitas, quando os produtos começavam a estar em condições suficientes de maturação ou recolha, organizavam-se núcleos especiais, agora sob o comando de lavrador interessado, para patrulhar os campos, eventuais alvos de ratoneiros.
Rareiam os estudos sobre as origens de toda gama de hábitos e da razão de ser da confraria.
Não andarão longe da verdade os que a associam a corpos especiais de vigilância, nascidos para evitar as incursões de assaltantes em tempos de guerra com Castela e Leão.
Porque exaurir o tema transcende os naturais limites deste estudo regressaremos agora ao que nos propusemos.
Com o pagamento das primeiras cantaradas do ano etnográfico (cujo início fizemos coincidir com o dia de Todos-os-Santos) entram também em efectivo funcionamento os serões.
Estas rústicas assembleias, por vezes começavam um pouco antes e logo que findas as sementeiras do centeio, actividade há poucos anos de grande relevância e que raro passava os meados de Outubro, até por obediência semeia-me em pó e de mim não tenhas dó, que as mandava fazer muito cedo, logo que terminados o arranque das batatas, a recolha das beterrabas e abóboras e o amanho dos nabais.
Mas, verdadeiramente, só Novembro com os seus rigores climáticos dos Santos ao Natal, é inverno: dos Santos ao Natal, bem chover ou bem nevar, cria o ambiente propício e deixa o tempo suficientemente livre para se poder seroar, desde o toque de trindades até as Três Marias empalidecerem no céu.
Dias pequenos, até as refeições diminuem: Levam os Santos as merendas, traz o diabo os serões…
A interferência do Maligno com estas inofensivas reuniões, só pode imaginar-se pelo coscuvilhar do mundo que ali toma assento e se desenvolve mais do que os novelos fiados, a renda ou as meias tricotadas.
Quanto ao mais, só rezas, tão longas que chegam a contemplar os antepassados em seis gerações e até o Senhor Rei Dom Miguel; por vezes, as histórias dos Doze Pares de França ou romança similar, evocada pelo anfitrião; e, mais raramente ainda, tocada, trazida pela confraria dos solteiros se maioral ou conselheiro importante ali têm ou tentam conversada.
Animar as noites, compete também à instituição. Se na aldeia há tocador, harmonia, concertina, realejo até, viola, guitarra ou bandolim dá-se-lhe lugar de relevo para o ter à mão.
À sua míngua, abre-se colecta entre os solteiros, para recrutar estranho que se paga a bom preço e se regala com todos os mimos.
Por via de regra, e salvos períodos de inimizade, sempre, de resto passageiros e resultantes de desordem começada sob fumos de muito vinho, são excelentes as relações entre as rapaziadas dos povos da zona, o que leva a frequentes e reciprocas visitas de cortesia.
Malta que se preze faz-se acompanhar de tocador, disputando-se primazias que fazem sublima bolsa de cotações os eleitos, tendo ficado famosos o Manuel Augusto, o Joaquim Landeiro, o Chico Serra, O Giestas, o Dimas, o Zé Nobre…
Se a ronda se faz de noite, correm-se os serões das duas maltas: visitantes e visitados; se for diurna, tem de recair em domingo, dia santificado, ou, quando menos, de feira. E o músico abrilhantará concorrido baile.
De qualquer modo, haverá fartas libações de vinho e carne, rez esfoladiça passada pelas brasas ou barranhão de chouriças também ramificadas pelo fogo.
Aliás, atear e manter gigantescas piras ardentes, compete ao quinteto dos andantes que, à falta de moreia própria, têm de aprender a surtir-se onde a haja.
São também os membros da confraria que, em colaboração com os mordomos do Senhor, carrearão para o largo da Igreja enorme montar de lenha que na Noite da Consoada, procurará deslumbrar toda a humanidade dos frios suportados pelo Menino Jesus naquela remota noite da Judeia em que começava a Redenção.
Mas obrigações, quando o senso moral preside, geram também direitos.
O ciclo das matanças constitui para a economia regional o expoente máximo da fartura e banqueteação.
Timidamente iniciado pela Santa Catarina, abre-se em electricidade pelo São Tomé, atinge a plena pujança pelos Santos Reis e raramente passa do São Brás.
A data conexiona-se mais com o clima do que com o asseio (no caso sinónimo de gordura) do animal sacrificando.
O frio releva-se essencial à conservação e atenramento das carnes. E, acima que tudo afasta a mosca, que, em anos de mais blandicie, pode inutilizar presuntos e varais.
Pelo São Tomé,
Prende o porco pelo pé.
Se ele disser que é, que é,
Diz-lhe que tempo é…
Se ele disser que tal, que tal,
Guarda-o para o Natal.

O bicho tem roncar grosso, sinal de suficiente corpulência. De outro modo, não passará de berrelho e pouco jeito trará à dispensa e mantença.
Mas Janeiro assinala os limites últimos.
Em Fevereiro… o primeiro jejuarás. O segundo guardarás e o terceiro é São Brás.
E, com este, advogado das gargantas, bem pode advir o tempo quente, sendo mesmo normal que assim aconteça.
O dia de São Brás,
Cegonha verás…
Se a não vires,
Inverno terás…

De qualquer forma, há mês e meio de grandes empanzinadelas que, de resto, não terminam com o grande dia. E o maioral da confraria, com um dos seus imediatos e também um dos andantes (assim se referenciando o mais e o menos) têm assento nas matanças de rico e pobre, no dia de enchimento e até do derretimento das banhas…
Para além de homenagem à confraria, intervirão também razões de aproveitamento de mão-de-obra. Amordaçar o porco, trazê-lo para o banco, aparar-lhe os arrancos finais à entrega dos novelos, exige destreza e força, coisa que os moços costumam ter. Prover de lenha e água uma casa em dia de tal azáfama não andará, por outro lado muito longe de um dos sete trabalhos de Hércules.
A roda do tempo, sempre andadeira, breve trará o Entrudo. À confraria se deferirá o encargo de o manter animado, não deixando esquecer tradições, como a das caçadas (tão arreliadoras para as velhas donas de casa, mas divertidas, mesmo assim, para as moças casadoiras), o julgamento, testamento e morte do galo; a imolação do reixelo ou macho cabrito… as entrudadas, pantomimas assim conhecidas e que se traduzem em rudimentares macaqueações de trajes e personagens.
Mais específicas da região e por isso menos conhecidas dos não especialistas serão as “cacadas” e a “imolação do bode”.
As primeiras começam dez dias antes de Terça-Feira Gorda e terminam na sua véspera. As donas de casa que se precatam, mantendo as portas bem acravelhadas logo ao lusco-fusco. De outro modo, sujeitam-se a receber a cascata, cântaro, barranhão ou qualquer vasilha já esgrouviada, repleta de bogalhos, cacos, chinos ou material equivalente, que com um estrépito de mil diabos, lhe conspurcará corredor, a sala, mesmo a cozinha…
Arremessada por rapazola de pé ligeiro, bem barregará a velha ou rondará o homem, que o autor do despautério já vai para lá dos quintos. Quando se que da a espreitar de padeiro vizinho o reboliço subsequente…
A imolação do reixelo costuma ter lugar em Domingo Gordo. A confraria adquire o mais alentado dos bodes à venda na redondeza. Aliás, as rezes da espécie abundam para a cobrição, há-de ser carneiro velho e bode novo. De modo que, ao ano, todos vão para o cochilo, a não ser em casa de morgado que os castre e mantenha por mais doze meses, quando dará carne melhor que a melhor vitela…
De pele untada, barbas afiladas, corna guarnecida de fitas multicolores, passeará preso a cordel toda uma tarde, dando-se-lhe guita ao pé dos ajuntamentos de moças.
À noitinha, marchará para o catafalco. A carne, prato de substância, esperará pela noite do entrudo e será consumido até à ultima badalada da meia-noite.
Anunciadora do jejum e abstinência que persistirão até domingo de Páscoa.
Por vezes, aproveita-se a parte final do banquete para o empossamento de novo maioral.
O cargo não costuma pesar muito tempo sobre os mesmos ombros. Todos os rapazes ambicionam casar, pelo que a rotação é praticamente anual.
De resto, o tempo de quaresma, talvez por ser de penitência, aproveita-se para os exercícios espirituais de preparação, centrando-se as bodas pelas semanas que antecediam os Ramos.
No ciclo quaresmal, com total interdição de danças e tocatas e os divertimentos dominicais inscritos aos jogos do cântaro e do pilha-três, mantinha a confraria duas tarefas importantes, aliás intrinsecamente conexionadas: a encomendação das almas e o cântico dos martírios.
Ò almas que estais dormindo,
No doce enlevo em que estais:
Queria Deus, não acordeis
No inferno, já aos ais…

A esta quadra, outras se seguem, alternando o grupo do campanário com o do adro:
Não penses que rezas muitos,
Nunca são rezas a mais,
Lá tensões no Purgatório
Vossas mães e vossos pais…

Consumada a reza, seguem-se as estrofes dos martírios, igualmente salmodiadas por dois grupos, que todavia, se não mantêm estáticos, mas deambulam pelas ruas da procissão, dando volta inteira e acabando novamente nas imediações da igreja.
O regra e acompanhantes cantam. Os demais puxam à corda, o que significa que se limitam a repetir a última sílaba do versículo:
O Nosso Divino Senhor já está no Horto a orar…
Um ar, muito rotundo e entoado por dezenas de vozes (que não todos os presentes que não saibam o texto da litânia) reboará então por toda a freguesia.
A antífona prossegue:
Já está considerando na morte que os judeus têm para lhe dar…
E outro ar igualmente caso e sonoroso atravessará as boca-ruas…
Até à morte na Cruz
Do nosso Divino Jesus…

Por vezes, o coro cede o passo a despique de especialistas:
Diz-me poeta sagaz,
Se disto tens alguma luz
Quantas quedas deu Jesus
Do Horto à Casa de Anás?
E quem foi o cruel traidor
Que dentro desta morada
Lhe deu um vil bofetada,
Diz poeta, se és cantor

A contraparte já herdou a resposta de seu avô, que naturalmente também andou nas ruas (isto é, foi membro da confraria):
Do Horto à Casa de Anás,
Se a escritura me não era,
Deu sete quedas em terra
Com as mãos atadas atrás.
Foi onde o Judeu Anás
A bofetada lhe deu
Os pontapés que sofreu
Foram cento e quarenta e quatro,
Ouve tudo o que eu relato,
Anda cá, amigo meu…

As sete semanas da quaresma, como tudo neste mundo, breve passam.
Assim o confirma a prelonga ou parlonga: Ana, Magana, Rebeca, Susana, Lázaro, Ramos, na Páscoa estamos…
Será ainda um membro da confraria, o mais azougado ou atento quem dará o sinal da grande transição, feita ao toque das alvissaras.
De um tempo de contenção e recolhimento geral (em Quinta-Feira-Santa, calara-se mesmo o sino, substituído pela arrastada cegarrega das matracas, por aqui apelidadas de reque-reque; as janelas dos templos haviam-se trancado e as imagens recoberto de pesados lutos) passa-se num ápice e pela magia do sino, por mão hábil de rapaz, a extremos de alegria, a que o sol, costuma associar-se num também esplendores ressuscitar da natureza.
Dai-me alvissares, Senhora,
Alvissareiro serei…
O Senhor que morto fora
Disse já: ressucitei…

Dai-me alvissaras, Jesus,
Dai-mas, que eu fui o primeiro:
Fui em que na torre pus
O raminho do loureiro…

Com a Páscoa, vêm também as primeiras romarias, a que a malta dos solteiros não se dá o direito de falhar.
Fato de ver a deus; a borracha, a ancoreta ou o corno bem sortidos de vinho; merendeiro com as trutas do Côa ou ribeiras que a ele vão dar: enchidos guardados adrede; pão e galhetas trazidos de Albergaria, Alamedilha, ou qualquer pueblo cercano; bengala de igual procedência ou cachaporra extraída de moita legal; tocaram à frente, vai-se cedo e vem-se tarde.
Mas o tempo começa a apertar. O campo requere tantos braços que, em que os moços se volvessem em centimanos, se fartaria.
As rondas ainda se asseguram só que enrolados na mantarrona, até os mais resistentes começam a ressonar, mal engolida a ceia.
Há, assim, como que um compasso nas actividades da confraria, e perdido o seu motor, estância por igual a vida lúdica da aldeia.
O solstício do verão se encarregará, todavia, de cortar o interim.
Além de carregar alecrim, bela-luz ou rosmano para atapetar um que outro largo, ou de implantar e guarecer de flores algum mastro, há o rapto dos vasos.
As raparigas esmeram-se em transformar balcões e peitoris das janelas em zonas vistosas, a rivalizarem com a maravilha do mundo antigo que foram os jardins suspensos da Babilónia.
Conhecedoras da tradição, algumas põem a recato, no tempo que vai do São João ao São Pedro, as suas preciosidades.
Mas são raras as que conseguem subtraí-las à cobiça dos interessados em expô-las no campanário paroquial nas noites que precedem os dois dias festivos, ainda há pouco santos e de rigorosa guarda.
Aliás, estamos até em crer que as manobras de esconderijo não passarão de negaças, porque todas no fundo aspirarão a que vaso seu o mais alto degrau da torre.
Seja como for, a confraria toma muito a peito o bom sucesso destas manobras do rapto das flores, a que apenas ficam sujeitas os elementos ajardinantes tratados por moças casadoiras.
Às vezes, pais mais caturras e habituados à luta (porque foram guardas fiscais ou republicanos, regedores ou cabos de ordens, ex-comandantes ou guias de contrabando) organizam esperas aos assaltantes que acabam por sair mal tratados da refega.
À hora da missa, no entanto, todo o povo se cederá estupefacto e embevecido na contemplação das maravilhas expostas, lançando palpites, fazendo afirmações, ensaiando criticas.
O vaso que está no lugar do ramo não merecia tais honras. Bem mais bonito é o que ficou no quinto degrau. Coisas do maioral que, menos de ano, será o dono da flor e dona…
Ceifas, gadanhas, emborregadelas, carretos, malhas, breve chamarão à realidade da vida dura o pleno da comunidade.
E até ao limpar das eiras, a vida activa da confraria como que se eclipsa de novo.
De resto, por vezes, maioral, conselheiros e andantes, se pertencem a família de jornaleiros, arrogam-se para trabalhar no Campo ou Terra Quente (Penamacor ou Idanha) ou nos plainos espanhóis, ceifando, agadanhando, malhando…
O retorno, colectivo pois a malta mantém-se unida, assumindo-se não raramente o maioral como manajeiro, faz-se festivamente, com tocador, foguetes, rodadas de vinho traçado com bebida adocicante.
As inspecções que também ocorriam nos meses da canícula (não sabemos se para encontrar os quintos menos providos de carnes ou por comodidade dos serviços de recrutamento) marcam outro hiato na madorra lúdica, com os ingredientes de todas as festas populares: vinho, música, foguetes, abertura dos cordões à bolsa.
Entretanto, aprochega-se o São Miguel, que, por aqui, é o protector das colheitas e o marco para os contratos agrícolas.
Quem se aluga pelo São Miguel,
Não é senhor de si quando quer…

Antes do grande surto migratório, começavam por ele exactamente na sua qualidade de arrecadador das colheitas, as festas do orago da maior parte das aldeias da região.
As invocações variam, mas a confraria dos solteiros assumia papel importante na preparação das festividades, ficando quase integralmente a seu cargo a parte não religiosa e colaborando mesmo as manifestações tradicionais que ocorriam também dentro dos templos.
Os mordomos só se ocupavam, na verdade, com os contactos directos de párocos, bandas de música, fogueteiros…
Tudo o demais, preparação e enfeite de ruas e praças, aboletamento de forasteiros contratados, retribuição a acordeonistas, rodadas de vinho e bebidas finas, era com os solteiros, quotizados para o efeito segundo suas posses que contavam também para encargos já em espécie.
São Sebastião, embora de acordo com a flos sanctorum devesse ser celebrado a vinte de Janeiro, tinha por aqui dia especial num dos últimos domingos de Outubro.
Capitão da primeira corte Diocleciano e tendo resistido milagrosamente suplício pelas setas, é que somente invocado com uma parada militar cuidadosamente preparada.
Durante semanas, membro da confraria que, na Guarda, Covilhã ou Castelo Branco, tivesse ascendido à dignidade de cabo (antes dizia-se anspeça ou anspeçada), servia de instrutor. As armas, durante os ensaios eram estadulhos ou cahaporras mal alinhadas e o fato o de cotio.
Mas, para o dia da festa, e já na véspera havia desfile a sério, o instrutor e seus asseclas buscavam, através de familiar residente numa daquelas cidades, ou em casa de oficial os seus descendentes radiados na área, farda lustrosa altamente engalanada e espada a condizer.
Os restantes membros da guarnição trajam espécies que faziam parte de reservista indumentaria deles próprios, se, por el-rei haviam já testado correias e bonés, de familiar ou amigo se ainda não haviam chegado à idade ou, por qualquer falha, a tropa os rejeitara.
De armas servir-lhe-iam velhas reiunas, das que, volta e meia se a encarregavam de achar em inusitado esconderijo ou caçadeiras de carregar pela boca, que, mais finas, rareavam.
De qualquer maneira, o plenário dos membros da confraria, exceptuados os coxos, cegos ou afectados de outro grande estropio, acompanharia as procissões, formaria na Igreja e à hora da consagração, faria mesmo soar o seu terno de clarins.
Elemento que soubesse latim e aqui revelavam-se frequentes os chamados “padre ficou-se”, apodo vertido contra os ex-seminaristas, lia velha oração:
Ò beate Sebastiane,
Magna est fides tua,
Intercede pro nobis ad Dominum Jesum Christnm, ut a morte, epideniae e et ab omni infirmitade corporis et animae, tua intercessirne liberemur.
Ora pro nobis beate Martyr Sebastiane
Et digni efficiamur promissionibus Christi.

Este, aliás, representava apenas o texto da antífona.
Seguia-se o Cremus:
Omnipotens, sempiterne Deus,
qui meritis beati Sebastiani Martyris tui gloriosissimi,
generalem pestem epidemiae hominibus mortiferam revocasti
praesta suplicibuis tuis, ut qui pro simili pestem revocanda, ad ipsum sub tua confidentia confugerint, ipsius meritis et precibus ab ipsa peste epidemiae et ab omni tribulatione mereamur tua protectione defendi.
Per Christum Dominum nostrum, Amen…

Para além do acompanhamento processional, o desfile tem três dias para percorrer as ruas da povoação, efectuando à porta dos quarenta senhores e dos mordomos, do maioral da confraria e conselhales, ou de qualquer outro que se disponha a puxar os cordões à bolsa, estrepitosas descargas, precedidas da jaculatória:
Em louvor de Sebastião, livre-nos deus, Nosso Senhor, da fome, da peste e da guerra,
FOGO…

Trata-se, afinal, duma revivência das grandes distâncias, agora mais solenizadas pelo estrépito da pólvora.
Há mais de mil anos que os povos assim procedem.
Ab omni malo
Libera nos Domine
Ab omni pectrato
Libera nos Domine
Ab insidiis diaboli
Libera nos Domine
A spiritu fornictionis
Libera nos Domine
A peste, fame et bello
Libera nos Domine
A morte perprtua
Libera nos Domine
In die judicie
Libera nos Domine
Peccatores
Te rogamus, audi nos…

É, afinal, mais uma demonstração do espírito religioso que presidia, aparentemente só do foro lúdico.
A festa encerrava o ciclo, tanto para a grande e pequena liturgia, como para as actividades da confraria.
O maioral, se não casara ao dealbar da primavera, aproveitaria agora o tempo morto, mais morto que todos do aprochegar do inverno, que, por aqui assume grande rudeza.
Mas, morena provida de lenha, tulha sortida, o pipo a esperar o São Martinho, o porco a caminhar para a salgadeira, bem-vindo seja o frio que dá enrijar o músculo próprio e a carne dos enchidos, aclara os pipos e prepara as novas cantaradas…
Encerrado um ciclo, outro se iniciará, que a vida não pára.
:: ::
A história do Congresso, por Paulo Leitão Batista

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