A comunicação de João Bigotte Chorão

Sabugal - © Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CONGRESSO DO FORAL DO SABUGAL :: :: Na primeira jornada do Congresso, dia 8 de Novembro de 1996, uma sexta-feira à noite, ouviu-se a cuidada e pertinente intervenção do crítico literário João Bigotte Chorão, que abordou o tema «Interioridade e Raia».

João Bigotte Chorão

João Bigotte Chorão

Foi também aqui Pinharanda Gomes que fez o primeiro contacto, sugerindo «uma breve conferência sobre os letrados do Concelho», porém o convidado preferiu uma abordagem sobre a interioridade e a raia, tendo apresentado uma magnífica comunicação que foi muito apreciada e efusivamente aplaudida.
Oriundo de uma família de raízes sabugalenses, João Bigotte Chorão nasceu na Guarda e licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra.
Além de vasta colaboração em jornais, revistas e obras colectivas, como enciclopédias, é autor de livros no domínio da biografia, do ensaio e da crítica literária, onde sobressaem os estudos camilianos. Membro de diversas instituições culturais, entre outras a Academia de Ciências de Lisboa (Classe de Letras) e o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira.

Transcrevemos a conferência de João Bigotte Chorão:

Foi o convite, direi mesmo a insistência de Pinharanda Gomes, a quem me ligam tantos, tão fortes e antigos laços, que me decidiu a vir aqui. Eu não podia responder negativamente a quem está sempre disponível para o que lhe pedem, e tantas vezes faz com sacrifício pessoal, movido só por espírito de missão. Não podia esquecer, ainda, a fidelidade de Pinharanda Gomes às raízes e o espaço que na sua vastíssima bibliografia – ele tem uma obra onde outros exibem apenas graus académicos – ocupam livros sobre terras de Riba Côa – a sua história, a sua cultura, as suas tradições, as suas gentes.
Seria, pois, descortês não atender ao pedido de quem está presente quer se trate do pensamento português quer se trate da pátria pequena. Solicitei só que me fosse concedida alguma liberdade na escolha do tema – para poder divagar um pouco da interioridade e da raia, matéria tão estimulante como actual.
Com o imperativo da amizade, outro imperativo não menor me trouxe aqui. Esta é a terra dos meus maiores, e o respeito devido à sua memória me impunha também o dever de participar na efeméride histórica que o Sabugal comemora. Um escritor francês que exerceu profunda influência, pelas ideias e o estilo, em França e mesmo em Portugal, Maurice Barrès, celebrizou a trilogia a que, segundo ele, devemos o nosso ser profundo: a terra, o sangue, os mortos. A terra onde nascemos (a não ser que o lugar do nascimento seja de todo acidental) imprime carácter. A naturalidade é um dos dados da nossa identidade, com o nome, a data do nascimento, a filiação, o estado civil. Podemos negar tudo, menos as raízes – e são elas que nos salvam do desenraizamento de cidadãos do mundo, esses que julgando-se em todo e qualquer lugar em casa, em todo e qualquer lugar têm o estatuto precário de estrangeiros ou de turistas.
Depois, o sangue. O sangue não é só o líquido cuja composição e propriedades a Histologia estuda. É mais do que isso – é o outro nome da família ou da raça. Quando falamos da voz do sangue, queremos significar essa espécie de rio de que, ao contrário do Côa ou do Mondego, ignoramos, em geral, onde nasce e de todo desconhecemos onde desagua. Há uma sorte de memória imemorial dos antepassados, longo elo de gerações que se perdem na névoa do tempo. Famílias conhecemos, mesmo ilustres e numerosas, que no entanto se extinguem, como um curso de água que seca. Tal é a força do sangue, que ele nos condiciona física e animicamente. Mas, ao lado da família pelo sangue, há outra família, por afinidade abjectiva ou espiritual. A escritora Fernanda de Castro disse, numa bela fórmula, que os amigos são a família que escolhemos.
Enfim, na trilogia barresiana têm um papel fundamental os mortos, que tanto podem ser os da nossa família pelo sangue ou pelo espírito como aqueles que são, digamos assim, património comum da nossa terra, da nossa região, do nosso país, do nosso mundo.
Não posso declarar como Pinharanda Gomes: “Nasci na fronteira, junto à raia. Meu berço foi uma aldeia (…)”. Eu nasci numa cidade, não longe do Sabugal nem da fronteira: sou natural da Guarda. O ter nascido nessa alta cidade e lá ter vivido a infância não foi porém de somenos importância. Aquele viver ainda tranquilo – podia brincar-se na rua como se brincava em casa ou no quintal, aquela sociedade ainda patriarcal – onde toda a gente se conhecia –, aquele frio cortante – contra o qual não eram demais braseiras, camisolas de lã e cobertores de papa, aquela neve que vestia toda de branco a cidade, aquele álgido luar que fazia da noite dia, aquela paisagem nua, pétrea, áspera, aquele vasto horizonte que permitia descortinar já terras de Espanha, tudo isso me ficou gravado na memória e na sensibilidade.
Esse nome de Espanha parecia-me então ter não sei quê de mágico. Seria um apelo à viagem e à descoberta? Mais tarde é que realizei o que representa nascer na raia ou na fronteira – ali onde acabava um mundo e outro começava. Hoje, com a União Europeia, abolidas fronteiras e niveladas diferenças, a palavra – ou melhor, a realidade fronteira perdeu aquele significado de qualquer coisa que, não apenas simbólica mas realmente, separava e, do mesmo passo, unia. Então, nas povoações mais raianas, como Aldeia da Ponte, Fóios, Forcalhos, Quadrazais, a fronteira era ao mesmo tempo uma tentação e um risco. Ia a Espanha e vinha de Espanha, qual caçador furtivo, quem procurava agenciar a vida no contrabando. Lembre-se aqui o romance de Nuno de Montemor, Maria Mim, com a astúcia e a gíria dos contrabandistas para iludir a Guarda Fiscal de cá e a Guarda Civil de lá. Muito em nossos dias, foi o surto da emigração clandestina, com a sua rede de engajadores e a passagem a salto da fronteira.
Quando, já leitor impenitente, li o drama de Montherlant sobre Inês de Castro La Reine Morte – onde, com a invejável liberdade dos artistas e grande mestria, se expõe o conflito entre as razões do coração e a razão de Estado, deparei com uma passagem que não mais esqueci – passagem que vinha despertar a minha fascinação infantil, e quem sabe se fatal, por Espanha. Nessa passagem, põe Montherlant na boca da infanta de Navarra, Dona Bianca, estas palavras, que eu não devia traduzir, traindo-as: “(…) aqui não se gosta da Espanha. Portugal é uma mulher estendida ao lado da Espanha, mas este país que continua mesmo assim à parte, que arde sozinho, e que é louco, impede Portugal de dormir”.
A Espanha é mesmo esse homem – ou essa mulher? – que nos rouba o sono, como uma obsessão, ou uma angústia, ou uma ferida em nosso flanco? Se quisermos governar-nos com a prata da casa, convoquemos então Miguel Torga, bem insuspeito de sentimentos hostis a Espanha. Não se confessa ele ibérico, embora ibérico sem iberismo como se impõe acentuar para prevenir equívocos? Das notas do Diário que exprimem essa sedução temperada de suspicácia por Espanha, transcrevo esta (datada de 23 de Setembro de 1971), e transcrevo-a por muito significativa do seu iberismo como “sonho platónico de harmonia peninsular de nações”: “Almoço no Parador (de Verin),vcom o castelo de Monterey nos olhos e Portugal no pensamento. A abstracção da pátria, possível a um português em qualquer país, é-lhe quase impossível neste. A nossa personalidade individual e colectiva foi modelada de tal maneira de encontro ao perigo raiano, que o simples nome de Espanha desencadeia uma girândola de reflexos em cada um de nós. Não é ódio, como às vezes se julga. É, simplesmente, pânico. Medo terrífico de perder a independência, que sabemos negada no subconsciente dos vizinhos. Homens livres sem contestação em todas as terras do mundo, mesmo que nelas sejam miseráveis ganhões, aqui, até sentados à mesa dum restaurante nos sentimos súbditos potenciais. E, desde os habitantes às obras de arte, só conseguimos ver em cada grandeza pessoal ou monumental instrumentos virtuais de domínio.” ( Vol. XI, p. 142.)
Unidos pela geografia e a história (embora, aqui, tenham surgido os inevitáveis conflitos dos irmãos inimigos), separados pelo idioma e a idiossincrasia, a boa convivência de portugueses e espanhóis aconselha a guardar uma prudente distância, cada qual debaixo do seu tecto. O convívio entre irmãos será tanto mais saudável quanto mais eles viverem em casa própria. A demasiada intimidade depressa leva à promiscuidade. Por sermos diferentes, é que deve funcionar a regra da complementaridade: cada qual busca no outro o que não tem.
Perguntar-se-á: A que vêm estas considerações? Responderei que em nenhum lugar, como nestas terras raianas – para as quais avara foi a Natureza, tão pobres elas são, e de clima rigoroso, terras onde é legítimo falar dos “custos da interioridade”, assim como se fala dos “custos da insularidade”, para significar o ónus do isolamento e o sentimento da solidão, lá onde o próprio homem parece uma ilha perdida na imensidade do mar, em nenhum lugar, dizia, se coloca tão vital e dramaticamente o problema da autonomia e a atracção do abismo. Portugal está entre o infinito do mar e o espartilho de Espanha, ou seja, entre a expansão e a constrição. Somos o que somos por fatalidade geográfica atávica – parentes pobres da Ibéria, mas de uma pobreza que não deve ser miséria a estender a mão ou a escudela à liberalidade da Europa próspera. A Comunidade Europeia, onde os países mais fortes, na defesa dos seus próprios interesses, ditam as suas leis ou fazem os seus ultimatos aos países mais fracos, aí está a mostrar a debilidade das nações periféricas, sem autonomia económica, política e cultural, à mercê dos apetites eurocentristas. Neste contexto, qual o peso de Portugal na balança da Europa?
E como se isso não bastasse, eis que nos propomos agora construir por nossas próprias mãos, em um país tão pequeno e unitário, regiões artificiais, provável factor de divisão, de querelas, de enfraquecimento da solidariedade e da unidade nacionais. Se nos orgulhamos da nossa condição de beirões e de uma franqueza rude que dir-se-ia provir das próprias fragas que nos serviram de berço, queremos é ser identificados como portugueses, pois, mais do que da pátria pequena, somos naturais da pátria maior, com todo o seu património histórico e cultural, com a sua unidade na diversidade, com a sua vocação ecuménica. É esse ecumenismo que nos faz cidadãos da Ibéria e da Europa, mas também da África, da América e da Ásia, do Ocidente e do Oriente, de todos os continentes onde chegou este povo de marinheiros e de bandeirantes. Depois desse rasgo ecuménico, havemos de nos resignar a um campanilismo ou a um clubismo sem asas?
Sempre que leio o nosso paradoxal e provocatório vizinho de Salamanca, Miguel de Unamuno, peregrino também destas paragens (de que não guardou, aliás, gratas recordações), temo que ele tenha razão a nosso respeito. Sob a aparente e celebrada brandura portuguesa, há uma vocação polémica que extravasa em escritos de grande virulência, espelho disforme da nossa alma. Sabemos pelo autor de Por Tierras de Portugal y de Espana que, em 1908, era presidente da Câmara do Sabugal o Sr. José Fernandes Simões Júnior, violentamente agredido no jornal egitaniense e republicano O Combate. Eram esses excessos verbais de jornalistas, escritores e panfletários portugueses que chocavam Unamuno, como acabada expressão de uma agressividade que, nas suas formas extremas, conduzia à destruição do adversário, quando não à autodestruição do plumitivo. Homicídio, ainda que moral, e suicídio físico. “Un pueblo suicida”, eis o seu grave diagnóstico. Havemos nós, quase noventa anos depois, de confirmar tal diagnóstico?
Se não podemos exibir a riqueza monumental e artística da Espanha – fomos sempre um povo modesto, sem grandeza imperial (compare-se a graça feminina de Lisboa com a solidez viril de Madrid), temos, no entanto, e não descurável, o nosso património. Temos sobretudo, com os Descobrimentos, o nosso contributo para a História do mundo e um idioma rico em que se exprime uma literatura que pode vangloriar-se de génio universal. Aqui, nestas povoações raianas, em que nenhum acidente geográfico, rio ou montanha, divide Portugal e Espanha, os caminhos estão aplanados para um mútuo entendimento, já no plano pessoal, já no plano cultural. Culturalmente, temos vivido quase de costas voltadas, talvez por suspicácia nossa ou pela estranha crença, decerto importada de França, de que a civilização começa para lá dos Pirinéus… Já em 1971, escrevia Pinharanda Gomes em Liberdade de Pensamento e Autonomia de Portugal: “Portugal e Espanha existem. Coexistem. Mas não convivem. A convivência exige que os convivas respeitem a personalidade individual e ergonómica de cada um.”
Como vizinhos, é nosso dever fomentar e fortalecer relações de boa vizinhança, sem subserviência nem sobranceria. Lembremos, a quem o não saiba ou tenha esquecido, e seja mais tentado pelo canto da sereia, que o Bispo da Guarda, D. João, não reconheceu Filipe II como rei de Portugal, e que outro bispo egitaniense, a crer em Montherlant, desafiou o poder real, abençoando a união de Pedro e Inês.
Despedindo-me com estes exemplos de hombridade, quero agradecer, com a vossa atenção, a oportunidade que me foi dada de estender por momentos as frias mãos cansadas para a velha lareira familiar.
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A história do Congresso, por Paulo Leitão Batista

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