A menina das tranças brancas

Alcínio Vicente - Aldeia do Bispo - © Capeia Arraiana

Lá está ela no cimo do monte, à sua janela, vestida de branco. De tempos a tempos vai-me acenando e cantando. Suas tranças brancas ondulam levadas pelos ventos que a forçam a rodopiar, nesta ampla janela aberta da clareira, mas permanecendo prisioneira do seu destino.

Vai cantando com seu rodar

Vai cantando com seu rodar

Vai cantando com seu rodar umas vezes mais lenta outras mais de vagar, consoante os caprichos do seu algoz o vento. Que dirá esta menina branca solitária em seu segredar, como escrava da sua função de produzir energia. A sua melodia chega-me ao ouvido, umas vezes num compasso acelerado, outras com som sibilante, outras mavioso, suave e doce.
Será que me está a perguntar, que fazes tu aí? Que tens pensamento que é mais rápido que o vento que pode estar em qualquer lugar, a qualquer momento, que podes cavalgar nas suas asas, cantar, amar, rir, chorar, odiar, sem peias das imposições e limitações castradoras dos tiranos, ou de ideais obscuros, que te possam calar? Tu que não és escravo, nem tens raízes de ferro, como as minhas que te prendam à terra?
Como te enganas menina das tranças brancas, quem dá a liberdade é também o meu algoz, o pensamento, que também me escraviza mantendo-me prisioneiro à corrente da consciência.

Da minha varanda vejo, lá no alto do monte, girar as pás das turbinas eólicas, sob o impulso e orientação do vento. Sem sair do seu lugar. Capturada e prisioneira do seu destino na função de produção de energia escrava dos ventos. Vai cantando ou sibilando canções indecifráveis para o seu companheiro e aliado e sob a sua inspiração. Seu destino é girar. Também nós somos prisioneiros do pensamento levado nas suas asas para lugares situações ou mundos e vivências nunca experimentadas. Sem peias das imposições, limitações castradoras da tirania ou de ideais obscuros.

Pensar a única e verdadeira liberdade do homem. Por ele podemos adormecer ricos e acordar pobres de pedir, amar e odiar rir e chorar , voar sobre as nuvens ou sobre brasas viver fantasias ou realidades através dele podemos mudar o mundo. Com ele passado e futuro podem ser presente. Mas quando perde o eixo sobre o qual gira é o caos. Caminhos sem retorno.

Tudo roda da esquerda para a direita roda a lua o sol eu sei que é a terra que roda mas parece o contrário. Só o meu coração roda da direita para a esquerda a parte da direita do nosso corpo é mais forte que a esquerda. Enquanto as pás da hélice se movem pelo impulso do vento sem sair do lugar nos caminhamos vencendo etapas até meta final. Há os que afirmam que só existe presente porque o passado é sempre visto com os olhos do presente. Mas se não houvesse passado como haveria progresso para a humanidade? Para mim só existe passado. O presente é uma linha que separa o passado do futuro e este não o conhece. Mas, assim como o vento que impulsiona a hélice, nós temos o pensamento e sentimos o seus efeitos mas sem presente nem passado. Sentimo-lo mas não o capturamos. Não tem tempo nem lugar. É uma corrente – a corrente da consciência – que corre em todos sentidos, sem parar, porque parar é enferrujar e enferrujar é morrer.
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«Vivências a cor», de Alcínio

3 Responses to A menina das tranças brancas

  1. Georgina Esteves Craveiro Ferro diz:

    Texto que me fez voar na “corrente da consciência” no tal linear entre o passado e futuro desse presente que já está no passado….Deliciei-me na leitura!…

  2. vitor coelho diz:

    Lindo e muito original.

  3. Alberto Pachê diz:

    Caro Alcínio Vicente , nunca pensei que fosse possível criar tantas figuras de estilo para fazer das “mastodônticas” eólicas um texto de prosa poética tão belo e tão gracioso.Parabéns.

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