Sócrates pede subvenção vitalícia

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

Faz como eu digo e não como eu faço. Na guerra podem ser usadas todas as armas, mesmo as que, em tempo de paz, nunca sairiam das bainhas. Acusados na praça pública podem e devem defender-se também na mesma arena.

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Quando ouvi a noticia, disse para mim próprio que só podia estar surdo.
Quando ouvi o ex-primeiro ministro a seguir explicar por que razão pedia a pensão percebi que não tinha ouvido mal.
O tema das subvenções vitalícias é um daqueles que não consigo encaixar. Fico cheio de comichões e borbulhas e nunca mais paro de escrever o que me vai na alma, escrita essa que no fundo se comporta como uma pomada que me ajuda a tratar essas borbulhas.
Quando ouço o Engº. José Sócrates afirmar que pediu a subvenção vitalícia pois o sistema impede-o de trabalhar, não tinha outros meios de subsistência, não queria acreditar. Algo de estranho se passa, algo de grave, pois não passa pela cabeça de ninguém, ou pelo menos pela minha, que o homem que chefiou o Governo que acabou com essas subvenções para os vindouros, por serem imorais, esteja agora a beneficiar dela, e mais, que a tenha requerido.
A razão para este cenário tinha que ser outra. E era mesmo outra.
O Homem não é certamente nenhum santo pois a santidade é coisa muito rara entre os humanos.
Mas naturalmente que como muitos leitores, fico incomodado, quando vejo o nosso sistema politico/judicial perseguir alguém, sem o acusar concretamente. Tudo são indícios, suspeitas, etc. Provas é que parece não existirem em quantidade e qualidade suficiente para produzir uma acusação.
Mas quando assim acontece, manda a lei que não seja pronunciado o arguido e consequentemente não venha a ser acusado. O processo, nessas condições cessa, com um despacho de arquivamento do representante do Ministério Público que como se sabe conduz a investigação.
Conhecedores disto só podemos ter uma de duas posições:
Ou o Engº. Sócrates está efectivamente a passar dificuldades e por isso, não conseguindo trabalhar, só lhe restava optar por requerer a subvenção vitalícia pois caso contrário, não podia subsistir.
Ou, o que me parece mais plausível, o Engº. Sócrates quis jogar mais um trunfo neste conturbado processo por forma a responder em público a quem em público o tenta acusar. Neste caso, o pedido da subvenção vitalícia pelos motivos que o próprio referiu, tinha que ter um impacto de grandes dimensões.
Um homem que decretou o fim de determinado privilégio por o ter considerado imoral, sujeitar-se agora a pedir esse mesmo privilégio por não ter forma de subsistir pois a investigação do “seu caso” parece não ter fim e nunca mais é acusado, é na verdade mais uma chapada em quem o não acusou ainda.
Este caso, o do Ex-primeiro ministro tem sido recheado de tudo o que não deve ter uma qualquer investigação séria e digna de um pais democrático. Para além de ter havido prisão preventiva durante a investigação, esta parece nunca mais ter fim. É certo que processos desta natureza são complexos, mas que diabo… já parece ser tempo é métodos mais do que suficientes para que se possa concluir algo.
Não me passa pela cabeça que no final deste folhetim não venha a existir acusação. Mas se isso acontecer, então há necessariamente necessidade de retirar daí as respectivas consequências para o sistema de investigação e para quem a superintende.
Naturalmente que todos desejamos que a verdade sobre as questões em investigação venha ao cima pela mão dos investigadores. Mas todos desejamos também que o tempo para a conclusão da investigação não seja ilimitado pois nessas situação a tendência natural é para “o deixa andar”.
Será que o nosso sistema de investigação e judicial não ganhariam mais credibilidade se existissem prazos indicativos para o cumprimento de tarefas?
É que, como em qualquer outra situação, também na justiça a não existência de prazos para a prática de determinados actos, conduz necessariamente a um natural desleixo de quem não tem prazos para cumprir. E isso é péssimo.
Por isso, senhores magistrados do Ministério Público façam um favor a vós próprios e terminem este conturbado processo, assumindo eventuais erros de actuação se existirem ou produzam a acusação. Uma coisa ou outra mas de preferência rapidamente.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

4 Responses to Sócrates pede subvenção vitalícia

  1. António Emídio diz:

    Caríssimo José Fernandes :

    O caso Sócrates demonstra que a nossa Democracia é deficitária, e que há algo por cima do poder legislativo, executivo e judicial, o quê ? Desconfio o que seja, mas tenho receio em dizer o que é, claro ! o sectário « socialista » chama-me f.d.p., mas eu já não me ralo.

    António Emídio

  2. Silvestre Rito diz:

    Não entendo porque é que o homem não pode trabalhar! se não pudesse recorrer á subvenção vitalícia, o que quanto a mim lhe retira razão porque vai contra aquilo que ele próprio defendeu, vivia de quê? aqueles que em igual circunstancia não têm direito a esta subvenção vivem de quê? não lhes resta outra opção que trabalhar porque não há almoços gratis!
    Quando fazia uma vida faustosa em Paris e outros locais sem que tivesse dinheiro para isso , pouca foi a preocupação com o futuro! é que á mulher de César não basta ser séria, é preciso parece -lo e este homem pode não vir a ser condenado por corrupção mas os casos são mais que muitos e o povo pode ser parvo mas normalmente sabe ler os factos, e por mais que lhe atirem poeira aos olhos , o povo é sábio e gosta pouco de ser enganado.
    Uma coisa são os meandros da justiça e aí sabemos que a justiça em Portugal funciona pouco ou nada bem, outra coisa é querer convencer toda a gente que podemos gastar milhões porque um amigo nos emprestou para tal; lamento mas tenho bons amigos ,pelo menos considero – os como tal , mas duvido que algum deles me emprestasse milhões, ainda que os tivesse ou sabe-se lá de onde lhe vieram- é o caso, me emprestasse esses mesmos milhões sabendo que não se destinavam a resolver um caso de vida ou morte, mas sim a fazer uma vida faustosa que eles próprios não fazem.

  3. JFernandes diz:

    Caros leitores:
    Apesar dos vários défices de que a nossa democracia padece, e por isso só posso concordar com a AEmidio, a verdade é que, mesmo assim podemos expressar livremente as nossas opiniões, como eu faço e vocês, todos fazem.
    Por isso, vamos combater os diferentes défices para a melhorar.
    Um abraço

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