Pontes, Pontões e Poldras (1)

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

“A ponte é uma passagem… para a outra margem” e “A ponte é a união de duas margens”, são duas frases que podem definir uma ponte, um pontão ou mesmo umas poldras.

Ponte sobre a Ribeira de Aguiar em F.C. Rodrigo

Ponte sobre a Ribeira de Aguiar em F.C. Rodrigo

O ser humano enquanto residente e ocupante da terra, e principalmente das zonas mais rurais sempre teve como adversário maior a própria natureza.
Era e é ela que na maior parte das situações conduzia a forma de viver de cada comunidade. É a natureza e concretamente os seus fenómenos que obrigam as pessoas a tentar superar dificuldades que ela lhes cria.
Um incêndio provocado numa floresta por um raio na sequência de uma trovoada é algo que os homens combatem por forma a diminuir prejuizos. Mas naturalmente é também algo que o homem ainda não consegue evitar que aconteça.
Um rio, na sequência de grandes chuvadas, é algo que o homem não consegue controlar. Mas naturalmente que é um desafio conseguir passar para o outro lado do rio mesmo quando ele tiver com um caudal que á partida podia impedir isso.
Combater dificuldades por forma a transformá-las em oportunidades como hoje é costume dizer, afinal é um assunto que sempre esteve na mente dos homens. Não imagino um residente numa das margens de um rio que, num qualquer momento, não deseje atravessar o rio para a outra margem. E o desejo de atravessar é tanto maior quanto mais difícil se apresenta a sua transposição.
É esta característica natural dos seres humanos que tem feito evoluir a sociedade ao longo dos tempos e certamente continuará a fazê-la evoluir no futuro.
Neste conjunto de textos vamos concentrar a nossa atenção em construções que vemos nas nossas terras, que muitas vezes usamos e que foram edificadas para permitir a mobilidade das pessoas e nalgumas situações foram destruídas para a impedir essa mobilidade, quando o interesse nacional o exigia.
Sim, é verdade que nas nossas terras se desencadearam grandes confrontos entre exércitos, desde o início da nacionalidade. Isto é, a nossa independência, a criação da nossa Nação não foi fácil, e os rios e depois as pontes tiveram na sua consolidação um papel que apenas eles podiam ter.
Temos situações de pontes destruídas para impedir ou dificultar a progressão de quem nos invadia, por exemplo na 3ª. Invasão Francesa, a ponte velha do Côa perto de Almeida, foi destruída pelas tropas portuguesas que se encontravam na margem esquerda do Côa, enquanto que as tropas de Napoleão ocupavam Almeida e preparavam-se para chegar a Lisboa.
A destruição desta ponte obrigou as tropas francesas a construir uma outra provisória para atravessar o rio e assim a retardar a sua marcha para Lisboa. Isso permitiu que as célebres linhas de Torres pudessem ser terminadas e como se sabe impediram a tomada da Capital quando aqueles chegaram.
Vamos então falar de pontes, pontões e poldras, construções em que a nossa região é fértil. Vamos dedicar-nos a essas construções por vezes extremamente rudes que permitiram unir comunidades quando os rios aparentemente as separavam. Não deixaremos de falar igualmente de outras construções que ainda existem nas margens dos rios e que tanta importância tiveram na vida dos nossos antepassados (moinhos, açudes, noras, etc).
As pontes permitiram antes de mais o contacto a seco entre comunidades que se encontravam de um e outro lado dos rios.
Sobre algumas pontes existe um blog onde o seu autor tem vindo a produzir trabalhos relacionados com essas construções e que poderemos consultar (aqui). Os trabalhos produzidos são de grande importância para a compreensão e divulgação destas construções.
Ao longo de vários textos, tentarei divulgar não só as pontes que com mais ou menos pormenor têm vindo a sê-lo das mais diversas formas, mas também as outras construções mais toscas, menos trabalhadas, mas cuja importância acabou por ser inversamente proporcional às suas características artísticas.
Como é natural, penso eu, a divulgação começará pelos rios mais próximos de nós, o Noémi, o Côa, mas certamente haverá também incursões a outras linhas de água que desaguam nestes ou para onde estes correm.
Como facilmente adivinhamos, ao falarmos de pontes, claro que falaremos também dos cursos de água que por baixo delas passam e que tantas vezes admirámos, e saboreámos durante a nossa infância.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

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