Outra Babilónia

Alcínio Vicente - Aldeia do Bispo - © Capeia Arraiana

Era uma vez um povoado onde ao crepúsculo da noite quando os sinos batiam o toque das trindades se animava com o regresso dos carros das pachorrentas vacas com rodados de ferro e eixos de madeira que rangiam sob aperto das traituras.

Pintura de Alcínio

Pintura de Alcínio

E a aldeia agitava-se com o regresso dos rebanhos de ovelhas ou cabras e o tilintar das campainhas e chocalhos que sinalizavam a sua presença.
Os habitantes comiam as parcas ceias e muitos partiam para novas fainas.
No silêncio da noite escura ou fria esgueirando-se nas silhuetas do arvoredo caminhavam silenciosamente como autómatos sob o peso dos carregos, sós ou em grupos mais perto ou mais longe da fronteira em busca de mais uma peseta.
Mas um dia tudo mudou desesperados com esta vida de miséria deixaram tudo e partiram para lá dos montes que não se avistavam.
Foram tempos duros no princípio.
E num dia tarde noite ou manhã como por encanto regressaram e seus carros de alta cilindrada rugiram nas ruas atroando os ares.
A aldeia virou Babilónia cosmopolita e escutaram-se novas línguas e linguajares.
As casas agora quais palacetes encheram-se de novo, os cafés e esplanadas regurgitam de clientes.
Estremece a aldeia, vibra de agitação e delira com a trepidação da passagem da procissão ao som da banda ao folclore das vestes e desfile dos santos no cumprimento de promessas e na emoção de nostálgicas recordações acompanhadas com as explosões de morteiros que estrelejam no céu… e um dia próximo, o silêncio e a mansidão voltarão à aldeia e o meu espírito continuará a debater-se com o dilema entre ficar ou partir e para onde se eu estou entre o antes e o agora.
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«Vivências a cor», de Alcínio

One Response to Outra Babilónia

  1. Georgina Esteves Craveiro Ferro diz:

    Estou no mesmo ponto da encruzilhada e não encontro palavras mais explícitas do meu próprio sentir que as deste texto, Alcínio.

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