Tardes na aldeia

António Emídio - Passeio pelo Côa - © Capeia Arraiana

Tardes inesquecíveis, tardes belas e serenas, tardes de Verão na aldeia.

No último do horizonte lá estava a verdejante serra

No último do horizonte lá estava a verdejante serra

Céu azul, tarde serena e bela, ouvia-se ao longe o martelar do ferreiro, martelar dormente, ruído convidativo ao descanso da mente, um carro de vacas arrastava-se pela calçada, o seu frágil ruído embalava até a um sono profundo, uma voz isolada, voz de anjo, sinal do Homem nessas horas mortas da tarde… Um cão ladrava chamando o dono, galinhas esgravatavam pelas ruas cacarejando de prazer, eram companheiras de porcos que grunhiam com uma ansiedade comilona, o chafariz, já sem a virilidade que o Estio lhe roubou, a essa hora tórrida matava a sede a um bando de pardais, das eiras vinha um som cadenciado, era o som dos manguais que numa coreografia mágica iam arrancando a alma às espigas, alma feita de pão, pão de vida, amassado com o esforço do Homem. No último do horizonte lá estava a verdejante serra, Paraíso que guarda a alma de toda aquela gente através da Eternidade.
Cai a noite, toque das Trindades, luz da candeia, um manto infinito de estrelas cintilam no Céu, caldo comido com lentidão, adormecer no balcão de pedra embalado pelo som dos chocalhos e balidos das ovelhas, pelo mugir saciado das vacas, pelo zurrar prazenteiro do burro e por todos os animais da noite.
Homem lento, Homem silencioso, ainda não escravo do tempo.
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«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

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