Emigração clandestina no concelho do Sabugal (9)

Nas décadas de 1960 e 1970 a emigração clandestina para França teve por principal palco a zona raiana do concelho do Sabugal, onde a fronteira se atravessava «a salto», usando os «serviços» de passadores experientes. Falemos agora no concelho do Sabugal, aludindo à caracterização do território.

Sabugal 1967

Sabugal 1967

O concelho é caracterizado por uma diversidade e heterogeneidade ambiental, paisagística, de gentes e de património material e imaterial, decorrentes de uma gestão administrativa que se estabeleceu de modo comum, nas margens a norte e a sul do Rio Côa; no seu padrão atual trata-se de um concelho que se encontra marcado por factores que se prendem com a forte emigração em direção à Europa e em especial em direção a França, a qual tendo contribuído para o desenvolvimento e a sustentabilidade económica do concelho por um lado, conduziu por outro, a um envelhecimento da população, a um despovoamento do território e a formas de caracterização de uma mescla de conceitos urbanísticos caótica, pelo menos num dado período onde as «maisons fruta cores», explodiram pelos locais mais inusitados.
Porque onde não há população não existe massa crítica capaz de promover os melhores impulsos, a atividade económica contraiu-se; em simultâneo assistiu-se a um surto de construções desenquadradas da paisagem, por onde passaram a crescer como cogumelos, casa «fruta-cores», tantas vezes revestidas com azulejos berrantes de baixa qualidade e com telhados desenhados ao estilo de regiões onde a neve cai abundantemente. A falta de definição de uma política arquitetónica e de planeamento urbano quando se tornava oportuno que fosse implementada, terá mesmo conduzido a uma desordem urbanística que os poderes instituídos pós 25 de abril foram obrigados a corrigir, com injeção de custos elevados por parte da administração local e, consequentemente, do erário público, apostado em defender o património regional característico edificado e devidamente enquadrado na paisagem dos burgos antigos, de que se destaca Alfaiates e Sortelha.
Embora o Rio Côa se apresente como elemento unificador do território nas suas margens, ao mesmo tempo pode dizer-se que divide o território em duas partes, que embora marcadas pela interioridade e sob a mesma administração local se caracterizam visivelmente, de forma diferenciada não só sob o ponto de vista físico como outrossim na vivência cultural.
Incorporadas na posse da coroa portuguesa no reinado de D. Dinis, as terras a norte do Côa (Terras de Riba-Côa), provenientes da tutela do Reino de Leão, nunca terão deixado de apresentar traços identitários próximos de um padrão castelhano-leonês que teimam em preservar na sua raiz; Na parte sul, porém, mais identificada com a Beira Baixa e com a Cova da Beira a que serve de interface, onde abundam as culturas mediterrânicas (vinha e oliveira), poder-se-á dizer de forma prosaica que se trata de um território mais ameno, onde jorra o leite e o mel.
Conforme nos afirma Nuno de Montemor, nas terras do norte, ao referir-se às terras de Quadrazais donde era natural, a agrura da terra levou as suas gentes à prática do contrabando e à itinerância por todo o território, na medida em que «…a terra mal dá castanhas, fetos e moitas para as assar e mesmo o Rio Côa que passa perto, afocinha para a não regar….» (MONTEMOR, Nuno; «Maria Mim»).
Diferindo os hábitos alimentares na parte norte, daqueles que são próprios da parte sul, mais conformes com a dieta mediterrânica, é natural que também isso influencie as gentes de forma diferente porque, conforme se diz em aforismo popular, nós também somos aquilo que comemos, significando isso, que os recursos de que dispomos influenciam a moldagem da nossa personalidade.
Na parte norte, junto à fronteira com Espanha e também na zona da Malcata, as gentes, empenhadas na atividade do contrabando, rastejam pelo meio dos matagais (giestais e carvalhais) e através das searas ondulantes, procurando assim obter sucesso na sua empresa que se desenrola ao longo da fronteira, podendo, de certo modo afirmar-se que elas terão sido as pioneiras do comércio livre no espaço europeu peninsular.
No norte glorificam-se a cultura e as tradições espanholas, contam-se anedotas e canta-se à maneira Castelhano-Leonesa; cultivam-se as relações com o país vizinho, com as quais muitos naturais são aparentados. Exemplo vincado das tradições mais arreigadas são as touradas raianas de características únicas no mundo (tourada com forcão).
Em contraposição com a parte norte do concelho, a sul, onde o clima se mostra mais ameno e os solos se apresentam mais vigorosos, as populações, procuraram sempre tirar proveito deles, produzindo e desenvolvendo de forma mais vincada uma agricultura ao longo das várzeas das ribeiras; quando migravam ou se deslocavam, preferencialmente faziam-no mais em direção ao sul, quer em direção à campina da Idanha, quer aos polos onde a indústria dos lanifícios desenvolvida na corda sul da Serra da Estrela se apresentava como a alavanca mais dinamizadora da atividade económica.
Nalgumas povoações, facilmente se encontram casas de construção granítica e ruínas de casas velhas envolvidas por estranhas formas de penedia que indiciam formas de muralhas de burgos antiquíssimos, bem como formas toscas de pedras que outrora terão tido utilidades como portas, janelas e muros de courelas abandonadas, onde noutrora, palmo a palmo, se procedia ao amanho de terras avaras, apenas beneficiadas por um fortuito jorro de água.
Ao longo de ribeiros viçosos, observa-se ainda hoje a prática da pastorícia, num território que cada vez mais vai ficando desertificado, fruto de movimentos migratórios de fraco retorno.
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«Emigração Clandestina», de Rui Paiva

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