Emigração clandestina no concelho do Sabugal (6)

Nas décadas de 1960 e 1970 a emigração clandestina para França teve por principal palco a zona raiana do concelho do Sabugal, onde a fronteira se atravessava «a salto», usando os «serviços» de passadores experientes. Façamos agora alusão à «metodologia» que é seguida na investigação e na apresentação deste trabalho.

Homens do Soito que foram a salto para França

Homens do Soito que foram a salto para França

Seguindo as regras e as exigências metodológicas para a elaboração de um trabalho científico, pesquisámos o passado de forma a responder às questões enunciadas na problemática. Para tal recorremos a pesquisas bibliográficas, a entrevistas e a exames de fontes escritas, nomeadamente processos-crime e publicações oficiais no Arquivo Histórico da GNR, orientando a pesquisa para responder à problemática levantada.
Propusemo-nos encontrar fontes originais, nomeadamente testemunhos e documentação nunca antes explorados em trabalhos académicos, conduzindo assim uma cata assente em fontes com as quais tentámos contribuir para a produção de uma nova reflexão histórica e para uma transmissão do saber.
Além disso, julga o autor, que as fontes inéditas são pertinentes para a realização deste tipo de projetos, como forma de construir e aprofundar os conhecimentos históricos.
Na nossa pesquisa bibliográfica, recorremos aos estudos elaborados por outras disciplinas, nomeadamente a estatística, a sociologia, a antropologia e a geografia. A nossa investigação, de forma a torná-la de simples leitura e fácil compreensão, foi ordenada em dez capítulos, sendo os últimos três dedicados a conclusões, bibliografia, fontes e anexos.
Nos dois primeiros capítulo, baseamo-nos sobretudo em pesquisa bibliográfica, como forma de podermos introduzir o tema e explicarmos a importância do nosso objeto de estudo.
Dedicámos um capítulo, em seguida, à componente da Geografia Física do concelho do Sabugal, baseado também em fontes bibliográficas e em testemunhos orais que recolhemos durante a investigação; para além disso, muita da informação descrita resulta do conhecimento do mestrando da geografia da área em causa. A explicação da componente geográfica afigurou-se-nos importante, na medida em que contribui, para a explicação dos fluxos emigratórios de portugueses para França, em particular no concelho do Sabugal, mas também em todo o território nacional.
No quarto capítulo, fizemos uma exposição baseada em fontes bibliográficas e fontes orais, sobre a situação política, social e económica em Portugal e especificamente no concelho do Sabugal, na medida em que importa perceber os motivos sociológicos que levaram a população portuguesa a emigrar. Parece-nos óbvio afirmar que se não tivesse existido uma vontade generalizada da população em emigrar, quaisquer que fossem as outras condições, a vaga de emigração não se teria verificado.
Julgámos também importante, analisar a forma como as autoridades atuavam no território nacional, principalmente no combate à emigração clandestina e à deteção dos elementos das redes de emigração clandestina; foi o que fizemos no capítulo cinco. Realizámos assim uma pesquisa baseada em fontes impressas, sobretudo no Arquivo Histórico da GNR, e no Arquivo do Tribunal do Sabugal, no primeiro consultando as Ordens à Guarda, as Ordens de Serviço e outra documentação dispersa pelos arquivos e no segundo consultado processos-crime. Sempre que nos foi possível, cruzámos a nossa pesquisa com fontes orais e com publicações científicas sobre a matéria.
No capítulo seis, utilizando fontes orais, publicações científicas e legislação da época, realizámos uma análise sobre a forma como o contrabando se desenvolveu na zona raiana Sabugalense, a partir dos anos 40, até 1993, sendo certo que o que releva para o nosso objeto de estudo é sobretudo o período compreendido entre os anos 40 e 60 do século XX. O estudo do contrabando é de fundamental importância para a nossa investigação. Julgamos que só poderemos compreender a forma de atuação das redes de emigração clandestina e a forma como elas foram evoluindo ao longo da década de 60, bem como compreender os seus procedimentos operacionais, se estudarmos a forma como as redes de contrabando operaram anteriormente.
No sétimo capítulo, dedicámos a nossa atenção às redes de emigração clandestina, aos seus procedimentos, à sua forma de atuar e à forma como se foram transformando os procedimentos ao longo da década de 1960. A nossa investigação incidiu preferencialmente em fontes orais e em fontes impressas, nomeadamente na consulta de processos crimes, no Tribunal Judicial do Sabugal.
Os historiadores franceses, Charles-Victor Langlois (1863-1929) e Charles Seignobos (1854-1942), pais da história positivista, defenderam no livro, Introduction aux études historiques sobre metodologia da história, que a história se faz com documentos, realçando a importância dos documentos na investigação histórica, chegando mesmo a afirmar que «… onde não há documentos não há história…».
No entanto a aceitação generalizada pela comunidade científica contemporânea de «novas fontes», levou a historiografia por novos caminhos no que concerne aos procedimentos metodológicos para a produção historiográfica. É a partir dessas «novas fontes», conjugadas com diversos modos de interpretar os factos, que o historiador/investigador vai interrogar as fontes históricas que permitem trazer à liça novas visões do passado.
As fontes históricas são inúmeras e variadas, os avanços na área científica, por exemplo, permitem a colocação de novas interrogações e a chegada a diferentes conclusões, sendo por isso, como ensina Marc Bloch, que a interdisciplinaridade não pode ser subestimada.
A fonte histórica deve assim ser entendida como produto da atividade humana, aquilo que permite compreender o passado da humanidade, qualquer que seja a sua natureza ou a sua forma de transmissão, como no caso concreto que à frente se analisará, a transmissão oral.
Lucien Febvre, no seu livro Combates pela história, defende que a história «…faz-se com documentos escritos, sem dúvida. Quando os há. Mas pode fazer-se deve fazer-se com tudo o que o engenho do historiador lhe pode permitir utilizar…»; portanto, ao dizer isto, legitima todo o tipo de fontes.
Ao historiador cabe analisar tudo e tentar reconstruir os factos, tal como se passaram, de uma forma o mais objetiva e isenta possível, sendo certo que humanamente, tal tarefa torna-se muito difícil, mais não seja porque as nossas análises e as nossas convicções, não podem deixar de ser sempre influenciadas pelas sociedades que nos acolhem e educam.
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«Emigração Clandestina», de Rui Paiva

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