Crónicas do Gervásio – A pesca furtiva

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

Apanhar peixes no rio para comer, mesmo que os métodos não fossem os mais ortodoxos era uma prática relativamente tolerada. Embora nessa altura a palavra sustentabilidade ainda não fizesse parte do vocabulário do Gervásio, ele e os seus amigos eram praticantes, pois sabiam que, se estragassem as condições do rio, teriam menos peixe no próximo ano.

Flor do Budle (Embude) – Planta com raízes tóxicas

Flor do Budle (Embude) – Planta com raízes tóxicas

O Noémi, como já se disse várias vezes, não é um rio muito caudaloso por várias razões, sendo a mais importante e determinante o facto de ter um comprimento desde a nascente até desaguar no Côa de cerca de 40 Km. O leito do rio e consequentemente o seu caudal não é muito desnivelado o que faz com que a corrente seja relativamente calma a não ser em determinados locais mais agrestes e desnivelados em que aí a água corre em grande velocidade, por norma sobre as rochas polidas do leito até encontrar de novo a próxima zona mais plana. Perto de Pailobo, as áreas mais alterosas eram na zona a que chamávamos do muro, para o lado da Miuzela e depois da estação do Noémi quem continuasse até ao Côa.
Por isso, durante o verão, o rio tinha um caudal cada vez menor e que nalgumas zonas e tempos era mesmo interrompido dando lugar a charcas de água concentradas junto dos muros laterais do rio que protegiam as veigas.
Essas charcas de água eram inicialmente de grandes dimensões mas que se iam reduzindo à medida que o verão avançava, desaparecendo em muitos casos.
Com as veigas cultivadas, com milho, batatas, feijão o verão a aproximar-se, o vale do Noémi, nas zonas mais próximas das povoações confinantes, era palco de sons característicos do funcionamento da noras que com os burros de olhos tapados (para evitar as tonturas) retiravam do rio a água que as hortaliças começavam a suplicar principalmente a partir do meio dia. Nessa altura, a ribeira e a sua envolvente próxima eram locais com um movimento de pessoas e animais que faziam aquela zona parecer um local de peregrinação, uns a ir outros a vir .

Burro à nora para tirar água

Burro à nora para tirar água

Enquanto os mais velhos regavam uma veiga, orientando a água que ia chegando ás leiras, voltando cada tornadoiro, os mais novos iam por vezes tentar apanhar peixes nos buracos que as pedras das paredes das veigas proporcionavam. Não era vulgar mas às vezes acontecia que dentro dos buracos também se encontravam outros animais, para além dos peixes, que também tentavam a sua sorte na apanha de algum peixe.
Nessa altura também era vulgar ver a rapidez com que o pretenso pescador tirava a mão do buraco, mal sentia a aspereza do corpo de uma cobra de água, quando esperava encontrar a pele lisa e sensível de um peixe.
Mesmo antes de rio ver a sua corrente interrompida pelo aumento da temperatura era possível apanhar peixes nas charcas que se formavam. Era usual utilizar em determinadas alturas o produto resultante da moagem das raízes duma planta a que se chama budle ou embude.

Raizes do Budle

Raizes do Budle

O embude é uma planta ripicula pois surge nas margens próximas de cursos de água. É uma planta tóxica principalmente as suas raizes cujo aspecto é o de qualquer tubérculo. Os animais herbívoros sabem isso e por isso não a comem.
A sua preparação para a pesca, passava por duas fases. Primeiro era preciso arrancar as plantas e separar as suas raízes. Depois com um saco delas, era necessário proceder à sua moagem até formar uma pasta contínua e que ficava castanha.
Havia na nossa zona em vário sítios locais para fazer a moagem deste tipo de raízes pois como se sabe, em Pailobo e zona envolvente, granito é coisa que não falta. A moagem era demorada e feita com pedras arredondadas de dimensão razoável tipo bola de pedra, que numa cova das saliências graniticas, e manuseamento manual, ia formando a pasta que começava imediatamente a fermentar.
Esta tarefa era dura, pois a dimensão da pedra que se ia rebolando para um lado e outro em cima das raízes do budle era grande (mais de cem quilos) pois caso contrário, a moagem demoraria muito mais tempo.
Depois da moagem eram formadas várias bolas, conforme a quantidade, guardadas numa saca de serapilheira até ao dia seguinte, o dia da pescaria. Estas tarefas da obtenção das raízes e depois da moagem, eram feitas por norma ao fim do dia e às vezes à noite pois apesar de tudo, tratava-se de actividade proibida e qualquer indicio poderia levar a que a pesca no dia seguinte não corresse bem pois poderia chamar a atenção da GNR.
O Gervásio e os seus amigos mais chegados com quem partilhava estas práticas menos usuais, preparavam o material durante a semana, à noite, para a pesca que seria no domingo. Em paralelo e durante as horas de mais calor, passeavam junto à ribeira, para tentar perceber os locais em que os peixes seriam maiores e mais abundantes e ir selecionando para o domingo.
Domingo bem cedo, lá iam os dois, acompanhados às vezes pelos filhos mais velhos, pois por vezes era preciso fugir das autoridades se por acaso fossem vistas e por isso não se levavam os garotos mais pequenos.
Não era vulgar mais às vezes acontecia que os peixes de determinado local (charca) já haviam sido apanhados, por exemplo no dia anterior por outros.Aí era normal ouvir o Gervásio e os amigos a praguejarem contra todos e a tentar encontrar um culpado para o sucedido, que por norma nunca era nenhum deles e muitas vezes era até obra do acaso.
Tinham decidido ir naquele dia à charca em frente do malhadil, que andavam a namorar à mais de uma semana, mesmo encostada à veiga do Ti Zé Rita, mas quando lá chegaram verificaram que outros já lá teriam estado no dia anterior. Ainda se viam pequenos pedaços de budle no fundo principalmente os que tinham sido mais mal moídos.
Ora porra! Devíamos ter vindo ontem!…
Mas já que estavam na Ribeira, com o saco do budle às costas, a solução passaria por encontrar outra charca adequada. Aí interveio o Gervásio:
Vamos à da veiga de cima. Era uma veiga dele, Gervásio, e conhecia bem a charca que se formava de fronte dela. Estava a guardá-la lá mais para a frente pois agora ainda tem muita água e é funda. Mas quanto mais funda, maiores são os peixes, dizia.
Entraram na água que lhes chegava por cima do joelho na maior parte e começaram a espalhar com as mãos dentro da água nas zonas da charca perto dos buracos que por norma existiam entre as pedras das paredes das veigas. Iam também levantando, com os pés, o lodo que por vezes cobria o fundo, o que ajudava o budle a actuar.
Depois de algum tempo era ver os peixes a sair dos buracos e nalguns casos fazerem tangentes na superfície da água com uma sensação de euforia descontrolada, havendo situações em que até saltavam para a areia.
Os restantes podiam facilmente ser apanhados à mão pois subiam à superfície e ficavam num estado de latência e sonolência que a planta provocava.

Embora tóxico este produto que era totalmente natural, desaparecia da água, onde apenas se mantinha enquanto em suspensão. Os seus efeitos desapareciam logo a seguir.
Por isso, apesar de não se tratar duma prática legalmente permitida ela usava-se em muitas das localidades da beira interior e permitia pescar por vezes vários quilos de peixe, para consumo próprio. Estas práticas, minoravam as necessidades das pessoas e, em caso algum dizimavam a fauna piscícola dos rios que com a regularidade com que ocorrem as estações do ano se renovavam sem sobressaltos.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

One Response to Crónicas do Gervásio – A pesca furtiva

  1. fernando capelo diz:

    Caro Jose Fernandes
    A sua descrição fez-me lembrar os meus tempos de pescador “encartado” com uma liçenca que, se bem me recordo , custava 700 escudos. Pescador de água doce, bem entendido. Eram horas passadas à sombra de um freixo a olhar para a água a sentir o rio e a natureza. Mas confeço que os peixes não eram muitos. E nem sei se eles eram o principal objetivo! Enfim, tenho saudades….
    Um abraço.
    F.Capelo.

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