Emigração clandestina no concelho do Sabugal (3)

Nas décadas de 1960 e 1970 a emigração clandestina para França teve por principal palco a zona raiana do concelho do Sabugal, onde a fronteira se atravessava «a salto», usando os «serviços» de passadores experientes. Continuamos a analisar o «estado da arte» em termos académicos.

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Sobre as características dos emigrantes portugueses, José Luís Garcia, afirma serem «predominantemente do sexo masculino, solteiros, em idade ativa e com baixas qualificações escolares», considerando também o mesmo autor que a emigração portuguesa por sexo, foi mais expressiva na emigração masculina do que feminina entre as décadas de 1950 a 1980.
Acerca dos países de destino dos emigrantes portugueses, José Carlos Marques, aponta a Alemanha e a França como destinos tradicionais da emigração portuguesa, pelo menos até 1980, altura em que começa também a ser procurada a Suíça.
Sobre as ligações existentes entre o contrabando e a emigração ilegal, Marta Silva, defende que o contrabando foi a atividade que permitiu o estabelecimento de laços de amizade e de centros de apoio logístico entre as comunidades portuguesa e espanhola, bem como o desenho dos trilhos, dos quais foram subsidiárias as rotas da emigração20; «… fizeram sociedades… trabalhavam em conjunto…».
Na mesma linha de pensamento, Fátima Amante refere que os laços de amizade terão sido cimentados, com as comunidades espanholas de Eljas e Valverde del Fresno «…precisamente na atividade do contrabando …».
De facto, os trilhos da emigração raiana parecem sem dúvida, ter as suas origens na prática do contrabando. Aliás, Marta Silva defende exatamente essa ideia na tese já referida, pese embora não abordar a questão específica do concelho do Sabugal, liga-a de certa forma, nomeadamente no que concerne ao desenvolvimento das redes clandestinas de emigração de Penedono, classificando-as como «filhas» das velhas redes de contrabando montadas por franjas da população sabugalense. Na mesma tese refere também a importância dos passadores naturais do concelho do Sabugal, como o caso do conhecido Salsa, natural da aldeia de Fóios. Na verdade, o conhecido Salsa (António Salsa) era natural da Aldeia de Santo estevão, «… ele era de Santo estevão, mas casou aqui nos Fóios…»; no entanto a maior parte da sua vida foi vivida na aldeia dos Fóios, «… o Salsa… foi o mais aventureiro… foi o mais ativo, embora possamos considerar que havia aqui [Fóios] mais cinco ou seis que se igualavam, mas ele era o mais destemido…».
Ainda sobre a prática da atividade de contrabando, deparamo-nos com localidades onde, a par do emprego de uma linguagem vernácula e bem cuidada, coexistem ainda resquícios de códigos lexicais próprios, verificáveis na raia de Espanha cuja finalidade outrora, se afigurava como um instrumento defensivo no capítulo dos negócios em relação aos quais haveria que adotar métodos e condutas cautelares da forma o mais hermética possível, como era o caso de Quadrazais e freguesias limítrofes, onde existia uma prática reiterada do contrabando. A vasta produção literária de Nuno de Montemor é disso elucidativo, no dizer de Antunes de Paiva, que ao fazer uma recensão crítica de Nuno de Montemor se refere às suas obras como «Muros de livros em alicerces de granito», cuja conceção do mundo cabe ao povo compreender.
De notar que havia na zona da Xalma, em Espanha, comunidades que utilizavam o português como código das suas comunidades, nomeadamente em Eljes, Almedilla e Valverde, tendo deixado de se verificar tal notoriedade nos tempos atuais sobre os costumes de então.
O processo de normalização do ensino, de ambos os lados da fronteira, levou ao esquecimento de muitos termos de origem Leonesa próprios das comunidades de entre Douro e Minho e as comunidades mais pequenas existentes na região que não haviam sido contaminadas por outras mais fortes do Leste, acabariam por ver esbatida a sua cultura comum.
Marta Silva aborda a temática da emigração clandestina no concelho de Penedono, referindo a importância da zona raiana do concelho do Sabugal, no processo de emigração clandestina para França, advogando que as fronteiras mais usadas pelas gentes de Penedono seriam a zona raiana do Sabugal e de Vilar Formoso, onde operavam as redes montadas por gentes sabugalenses.
Sobre a importância da fronteira raiana do concelho do Sabugal, pode referir-se o estudo patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian, realizado por Manuela Reis e Gil Nave, ambos sociólogos, relativos à Freguesia do Meimão, aldeia do concelho de Penamacor, onde se aborda a questão dos emigrantes regressados; Nesse estudo é referido que a maioria da população emigrada fez a travessia da fronteira «a salto» através da Serra da Malcata, região pertencente ao concelho do Sabugal.
Também Vítor Pereira, no seu estudo sobre a visão política que o regime salazarista tinha acerca das questões emigratórias e sobre a evolução da legislação em matéria de repressão criminal, refere que a área contígua ao posto de fronteira de Vilar Formoso, foi a fronteira por onde passou o maior número de desertores militares.
este facto também não era do desconhecimento do poder político da altura. Antunes Varela, ministro da Justiça, aquando da inauguração do Tribunal do Sabugal em 1966, provavelmente como forma de dissuadir a emigração ilegal, sublinha o facto de as penas para os colaboradores com as redes de emigração ilegal terem sido agravadas.
Tony Judt, na sua obra sobre a história europeia, vencedora da 2.ª Edição do Prémio do Livro Europeu, aborda entre outros temas a temática da emigração para França, referindo que cerca de um milhão e meio abandonou Portugal entre 1961 e 1974, dando como exemplo paradigmático desse abandono o concelho do Sabugal, onde a emigração provocou um decréscimo populacional de 43.513 habitantes em 1951, para 19174 em 1981. Com este exemplo, o autor ilustra o dramatismo que se viveu em Portugal, principalmente ao nível da população ativa, com a vaga de emigração que se verificou.
A estimativa de Tony Judt, não encontra suporte nos dados oficiais do INE, se tivermos em conta os Censos referentes a 1960 e 1980, apesar de coincidirem os dados quanto à população existente no concelho, em 1960, já no que diz respeito à população em 1980, os dados apontam para a existência de 23.371 habitantes no concelho. Este facto poderá estar relacionado com a população migrante no interior do território, que eventualmente, declarava residir no concelho do Sabugal. Muitas destas situações ainda até bem pouco tempo verificavam-se, por diversas razões, uma das quais relacionada com os locais de voto nas eleições locais.
Apesar dos diferentes métodos e critérios de contabilizar a população residente, todos os dados apontam para uma diminuição da população em todas as freguesias do concelho, com exeção da freguesia da Cerdeira. Julgamos que este facto está diretamente relacionado com a existência de um Colégio de freiras no local, que provocou um aumento da população na transição da década de 70 para a década de 80, potenciada pelas remessas dos emigrantes, que permitiram aos seus familiares, principalmente os seus descendentes, acesso ao ensino que até aí não lhes era permitido pelas dificuldades económicas da população.
Jorge Carvalho Arroteia, refere que nos finais de 1950, a emigração para a Europa começa a aumentar, «…Assim aconteceu no concelho do Sabugal… devido à ação de antigos emigrantes e contrabandistas…»; mais à frente refere que nos concelhos de Pombal, Leiria e Vila Nova de Ourém, ¾ da emigração legal teve como destino a França e no concelho do Sabugal a emigração legal com destino a França foi superior a 90%. Arroteia ainda destaca o concelho do Sabugal, como um dos concelhos que apresenta um maior número de emigrantes com destino a França.
Dentre os concelhos raianos, o Sabugal, é destacado por Arroteia, como um daqueles com maior fluxo emigratório para França. O mesmo autor refere que no período entre 1960 e 1964, no concelho do Sabugal, 92% das saídas legais, foram com destino a França, representando em termos absolutos 2.510 saídas; entre 1965 e 1969, foi igualmente o concelho do Sabugal a registar o maior número de saídas legais para França, ao nível dos concelhos do interior, com 7.280 saídas, correspondendo a 97,2%31. A explicação pode ser eventualmente dada pelo facto de muito cedo ter sido um concelho, onde se registaram saídas para França e assim se terem criado condições mais favoráveis para os conterrâneos emigrarem, dando estes também notícias das condições de vida naquele país, o que provocou uma apetência maior para que a França se tornasse um destino migratório por excelência dos homens e mulheres sabugalenses, como defende José Manuel Nunes Campos.
Os censos do INE, relativos a 1950, 1960 e 1970, refletem precisamente essa realidade, enquanto na transição da década de 50 para a década de 60 a população portuguesa aumentou, vemos que por outro lado, no distrito da Guarda e no concelho do Sabugal, a população já se encontrava a diminuir, o que revela a existência de uma emigração precoce para França quando comparamos com a evolução global da população nacional.
A diminuição da população no distrito da Guarda, quando comparamos a transição da década de 50 para a década de 60, saldou-se em – 25.061 habitantes, sendo que só o concelho do Sabugal foi responsável pela diminuição de – 5.451 habitantes, o que corresponde a mais de 20% da redução populacional no distrito da Guarda. É preciso aqui termos em atenção que o distrito da Guarda é composto por treze concelhos, o que demonstra bem a centralidade do concelho na questão migratória.
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«Emigração Clandestina», de Rui Paiva

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