Mulheres em vantagem

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Regresso às minhas origens sempre que posso. Considero vital esse retorno.

A serena vida da aldeia

A serena vida da aldeia

Seria capaz de morar na minha aldeia. Gastaria, por lá, grande parte do meu tempo. Todavia a vida submeteu-me à supremacia urbana.
Fundamento as minhas revindas à procedência com a necessidade de respirar ar puro, de encher a alma de paz e de natureza, de dialogar com a minha gente, de reabitar o meu pequeno mundo. Custa-me a conter as saudades de familiares e amigos. Não dispenso o reencontro com os mais velhos que reputo de criaturas ternas e afáveis. Muitas delas só já se movem escoradas por bengalas. Caminham lenta e obliquamente como se carregassem às costas o peso de vários séculos de memórias.
Chego, então, e deixo-me aliciar por convites.
Reencontro homens regressados de labutas buscando repouso nos sobejos do tempo. Mantêm o hábito de instigar os amigos a entrar nas velhas adegas, sítios térreos e escuros, onde se sorvem pródigas «pingas» e se devora pão centeio acompanhado de chouriças ou presuntos divinais. Há quem diga que a frescura e a ausência de luz ajudam a excecionar o vinho que, por aqui, se consome. Enriquece-se a bebida e a comida com histórias e ditos. Sublima-se o vinho e afiança-se a sua eficácia na preservação da vida. Esclarecem os homens:
– É o vinho que nos trás de pé!
As mulheres, encarnam, na sua maioria, figuras de preto. Quando descansam de vidas cheias encontramo-las sentadas à porta de casa ou a deambular pelas ruas. Vemo-las, frequentemente, adensando peregrinações à missa ou ao terço.
Os seus invites são diferentes das instigações dos homens. Convidam a entrar em casa, comer alguma coisinha e conversar um bocadinho. Há «bocadinhos» que podem durar horas. Por aqui é diferente a noção de tempo.
O assunto preferido das mulheres não é o vinho mas os males que as molestam e as preces com que os curam. Segundo elas mantêm-se vivas porque rezam e têm fé.
A totalidade dos habitantes da minha aldeia são, portanto, de idade avançada e os casais já escasseiam. O desemparelhamento não ocorre pela via do divórcio. Só a morte separa os cônjuges. Ressalta, então, de uma simples observação, que as viúvas são em muito maior número que os viúvos. Para cada figura de adega há várias figuras de xaile. Explicam, então, as mulheres:
– É Deus que nos trás de pé!
Ora, verificados os dois principais pressupostos de longevidade (o vinho para os homens e a fé para as mulheres) irrompe a curiosidade de saber qual deles será a mais firme âncora de vida.
Não me atrevo, claro, a nenhuma leviana conclusão mas desconfio que o arrimo das mulheres é capaz de lhes oferecer maior vantagem!
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

2 Responses to Mulheres em vantagem

  1. antonio barreiros diz:

    senhor Fernando:lindo artigo a sua principal vantage è ser verdadeiro.muito obrigado

  2. Patricio é diz:

    Excelente prosa, com as cores que a natureza pintou a genuína realidade das aldeias do Jarmelo!

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