Emigração clandestina no concelho do Sabugal (1)

Nas décadas de 1960 e 1970 a emigração clandestina para França teve por principal palco a zona raiana do concelho do Sabugal, onde a fronteira se atravessava «a salto», usando os «serviços» de passadores experientes.

O Sabugal foi centro importante da emigração clandestina

O Sabugal foi centro importante da emigração clandestina

A investigação que aqui se desenvolve circunscreve-se ao concelho do Sabugal, localizado no distrito da Guarda, na parte norte da Reserva Natural da Serra da Malcata, numa ótica de compreensão da emigração local nos anos 60 e 70 do século XX, identificando os factores que contribuíram para que se tornasse um concelho de referência da emigração clandestina no período em estudo.
Deu-se especial enfoque ao papel das redes organizadas de transporte de emigrantes, às especificidades do relevo e da hidrografia da zona raiana, à atuação das autoridades, bem como, aos antecedentes históricos que possibilitaram o estabelecimento de relações entre portugueses e espanhóis, nomeadamente o contrabando, que ali se praticou, muito antes da vaga de emigração para França.
É pretendendo estreitar a ligação à comunidade local que justificamos o presente estudo, para além das necessidades ditadas pela instituição universitária para a realização do mestrado de História Moderna e Contemporânea; tratando-se, para além disso, de uma temática atual, num concelho que por razões pragmáticas se nos afigura como local de oportunidades, apesar dos constrangimentos decorrentes de uma interioridade.
Não deixaremos, contudo, de acreditar tratar-se de uma decisão que não se encontra isenta dos riscos que se poderão apresentar decorrentes de eventuais inconsistências próprias de uma gestão do imprevisível, atendendo à complexidade e à multiplicidade de elementos que se cruzam no processo de investigação a realizar.
Um outro motivo, ainda, prende-se com a ligação afetiva à terra natal dos pais que sempre procuraram que se olhasse para o território valorizando aquilo que ele nos oferece.
Num território onde a interioridade apresenta oportunidades nos aspetos social, económico, ambiental e patrimonial, verifica-se uma retração populacional que se afigura como um constrangimento ao seu desenvolvimento; compreender as realidades existentes, à luz de um percurso histórico que se pretende visitar de forma tão analítica e crítica quanto o tempo disponível e o espaço do trabalho o permitam, julga-se poder afirmar-se como um procedimento e uma ferramenta importantes para que, compreendendo o passado num contexto de oportunidades, se possam vir a corrigir erros futuros e a derrubar obstáculos ao desenvolvimento harmónico, bem como a criar sinergias promotoras senão de eliminação, pelo menos do esbatimento de assimetrias regionais e locais, crente de que a soma das partes poderá contribuir para a melhoria do todo.
A realidade migratória no concelho do Sabugal é ainda hoje um facto presente nas vilas e aldeias. Muitos dos que emigraram voltaram, mas as segundas e terceiras gerações, na sua grande maioria, permaneceram nos países de acolhimento. Por outro lado, o ponto alto das romarias e festas populares no concelho – de destacar aqui a Capeia Arraiana, ao que se sabe tradição única no mundo -, coincide com a chegada dos emigrantes de férias, o mês de agosto, altura em que se assiste a um acréscimo da população e a uma dinamização económica ao nível do comércio e da restauração. As influências veem-se ainda no uso de expressões afrancesadas, na arquitetura urbana, nos monumentos que homenageiam o emigrante e em muitos outros aspetos da vida quotidiana.
Com esta proposta, investigou-se um caso específico de história no concelho, assente em fontes orais e escritas, bem como em análise bibliográfica, contribuindo para uma compreensão da realidade local, que possa eventualmente vir a ser útil, para uma compreensão nacional e internacional dos fenómenos migratórios, em conjunto com outras pesquisas.
Numa analogia com a narrativa de uma história de uma batalha, dir-se-ia que aqui, não se pretende conhecer a forma como o general do alto da colina viu o desenrolar do acontecimento, mas sim escrutar a forma como o soldado viu a guerra da trincheira.
Em períodos de maiores dificuldades ou constrangimento de natureza económica e social a atenção que o território desperta torna-se mais interessante, atendendo às oportunidades de uma vida, mais edílica, mais concordante com a sustentabilidade e mesmo com o desenvolvimento económico diferenciado do padrão de bem-aventurança anteriormente aceite de forma dogmática, sendo por isso, que o particular e o singular não devem ser negligenciados em proveito da totalidade.
Neste sentido vai também o pensamento de António Dias, ao defender o micro estudo comunitário, uma vez que é o elemento primordial, que permite compreender o todo nacional. Por sua vez Jorge Dias, confirma que se trata de um método «…complicado e demorado que só se pode levar a cabo com a colaboração de muitos cientistas… para aqueles que se queiram dedicar ao estudo do carácter nacional, é de grande utilidade ter previamente feito estudos de comunidade…», defendendo ao mesmo tempo a importância dos estudos interdisciplinares em Ciências Sociais.
Se assim é entendido para um dado sistema que seja considerado, sê-lo-á para a totalidade dos sistemas, podendo então dizermos na esteira da mesma lógica, que por sua vez permite a compreensão de realidades cada vez mais abrangentes, passando pelo todo nacional, até chegarmos à compreensão das realidades globais.
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«Emigração Clandestina», de Rui Paiva

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