Crónicas do Gervásio – A Pesca

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

A caça e a pesca, mesmo furtivas e utilizando métodos nem sempre legais, sempre foi uma actividade que todos exerciam. É que, no tempo do Gervásio, comer peixe fresco na sua terra, só se fosse apanhado no Noémi ou no Côa. Por isso, apanhava-se da forma que cada um podia.

Uma boga pescada no rio

Uma boga pescada no rio

Como quase todos os seus vizinhos o Gervásio pescava. Pescava por várias razões, comuns a todos os habitantes da sua aldeia: Por um lado, naquele tempo, a peixe do rio era a forma mais fácil de eventualmente se melhorar a alimentação. Por outro lado, o gozo que se sente quando se caça ou pesca.
Durante muitos anos, e principalmente quando era mais novo, o Gervásio pescava de forma fortuita não se preocupando com obter as necessárias licenças para a prática dessas actividade.
Quando o Noémi começava a permitir que se circulasse nos seus areais, era altura do Gervásio armar durante a noite o Galrito para tentar apanhar uma “mãoxinha” de peixes. Vale a pena descrever esta forma de pescar pois como verão é engenhosa.

Bordalo

Bordalo

Tudo acontecia assim: No final do dia, e quando a noite se começava a aproximar, lá ia o Gervásio, por vezes acompanhado do seu companheiro destas andanças, o Ti Manel da Cabreira, escolher no Noémi uma zona de areal, coberta pela água corrente, não muito profunda.
A altura era por volta de Maio, o rio ainda corria caudaloso, os amieiros já tinham rebentado e os ramos estavam cheios de folhas.
Não era consensual a escolha dos locais pois cada um dos intervenientes tinha a sua teoria e razões para apontar neste ou naquele local.
Ali, junto do Malhadil, há cada barbo!… e com as mãos dava a entender que eram grandes. Só por azar não os apanhamos dizia o Ti Manel. Mas o Gervásio estava mais inclinado para a zona da veiga de cima onde tinha estado uns dias antes a olhar para eles… Mas ao fim de algum tempo de conversa, lá chegaram a consenso.
A primeira tarefa passava por cortar, por norma com as mãos nuas, alguns ramos de amieiro “esnocando-os” do tronco onde pertenciam. Depois espetavam os ramos na areia submersa formando uma espécie de parede verde de cada lado por forma a formarem um V depois de completas.
No bico do V montava-se o galrito, protegido de lado pelos ramos de amieiro que tinham sido espetados na areia. O galrito colocava-se com a boca voltada para montante, para onde apontavam também as pernas do V, para que a água corrente do rio o mantivesse aberto.
Durante a noite, e principalmente em noites de lua cheia, os peixes do rio, que nessa altura estão na época da desova, passeiam rio acima rio abaixo, por vezes em cardumes numerosos.
Quando no seu passeio se encontram com os ramos dos amieiros espetados na areia têm tendência a desviar-se ou mesmo voltar para trás. No entanto há sempre alguns que continuam junto aos ramos e acabam por tentar ultrapassá-los no único local onde não há amieiros, no bico do V e onde está o Galrito.
Nessa tentativa de ultrapassar entram no galrito e terão grandes dificuldades em sair se porventura o tentarem, devido à forma do galrito.

O galrito

O galrito

No dia seguinte de manhã bem cedo, antes do nascer do sol, lá voltava o Gervásio ao rio, juntamente com o seu companheiro desta tarefa para verificarem o resultado da sua acção no inicio da noite do dia anterior.
Tirava os sapatos à beira da água, no areal, depois de ter combinado com o companheiro qual dos dois iria buscar aquele galrito específico. Arregaçava as calças até por cima do joelho, e entrava na água para recolher o galrito. Nessa altura, ainda dentro da água, que estava fria, verificava em primeira mão se tinha valido a pena.
Deslocavam-se depois aos outros galritos por norma mais um ou dois, que tinham armado, e repetiam aquela operação prévia à entrada na água: descalçar, arregaçar, entrar.
Por vezes este tipo pesca não corria bem, pois o rio tem mais animais para além dos peixes. E alguns deles alimentam-se precisamente de peixes. As cobras de água
comem peixes, girinos, pequenas rãs que com elas convivem no rio. Na natureza os diferentes actores lutam permanentemente pela sobrevivência e as cobras não são excepção. Sabem, por que estão atentas, que o homem vai apanhar peixes daquela forma e sabendo disso, nada melhor que almoçar peixe, num local onde os peixes estejam presos, isto é no galrito.
Raios partam a cobra….. dizia o Gervásio, à medida que ia olhando para o galrito. Não é só pelos peixes que come. Acham que algum peixe entra no galrito se vir lá dentro uma cobra? Claro que não dizia o Ti Manel que naquele caso tinha sido ele a entrar na água.
Esta já não come mais dizia o Ti Manel que se deslocava para fora da água, com o galrito na mão esquerda e a cobra segura pelo rabo na mão direita, qualquer deles afastados do corpo.
Chegado à areia seca onde o Gervásio assistia à cena, com a cesta na mão, o ti Manel entregou-lhe o galrito para tirar algum peixe que ainda lá estivesse preso.
O Ti Manel, em paralelo, afastava-se mais até uma rocha que apenas nas grandes invernias era coberta pela água. E, como se a cobra fosse um pau, bateu com ela na rocha, várias vezes, segura pelo rabo, até a matar.
Agora é altura de voltar para casa com a cesta que tinham levado, e que, apesar dos contratempos ainda vai dar uma “mãoxinha” de peixes para cada um.
Mais à frente, lá para Junho ou Julho o Gervásio vai continuar a pescar, mas aí, da forma que mais gosta, à linha mas sempre com o seu companheiro destas lides, o Ti Manel.
E, quer o Gervásio quer o Ti Manel, pescavam sempre os maiores peixes…. pelo menos era assim que eles contavam.
Mas essas andanças serão objecto de outra crónica do Gervásio.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

One Response to Crónicas do Gervásio – A Pesca

  1. fernando garcez caramelo diz:

    Tive a honra de conhecer e ser amigo do Ti Manel da Cabreira.Cacei com ele muitíssimas vezes.Era umcaçador exímio.Era sem dúvida nenhuma o melhor atirador da região Que descanse em paz

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