Casteleiro – Aconteceu comigo há 42 anos

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Um casteleirense que teve a honra de poder ajudar a acabar com a guerra colonial? Um casteleirense que, faz agora 42 anos (no momento em que escrevo) estava sujeito a levar uma «bazookada» a qualquer momento – e que há 42 anos (no momento em que você me lê) estava em paz e sem perigo nenhum? Sim, e se me ler ainda o surpreendo mais – bastante mais. OK?

Terras do Demo

Terras do Demo

Em 25 de Abril de 1974, eu estava no meio daquela gigantesca floresta do Maiombe, em Cabinda. Estava lá e estava em guerra (melhor: estava lá porque me tinham mandado para a guerra que eu não queria nem fazer nem não fazer: simplesmente não queria morrer fosse ali, fosse noutro sítio!).
Mas a vida consegue sempre surpreender-nos: naquele dia (25 de Abril de 1974, repito: há 42 anos) eu não sabia nada. Não sabia que o Movimento dos Capitães, que não conseguira vencer em 16 de Março, afinal tinha conseguido derrotar o regime de Marcelo Caetano.
E como não sabia (ninguém lá sabia: não havia «skype», não havia telemóveis…), para mim – para nós, no Batalhão – foi apenas mais um dia de guerra como todos os outros.
Imaginam isto, visto agora, 42 anos depois?
Vocês, os que cá estavam, já estavam em liberdade e eu, nós, continuávamos com o coraçãozito pequeno à espera de uma granada ou de um disparo de lança granadas-foguete, de um lança-rockets… sei lá.
O 25 de Abril já tinha acontecido, sim.
Mas nós não o sabíamos: a paz só nos chegaria 48 horas depois.
Um casteleirense (eu) teve a honra de ajudar nessa construção da paz.
E isso nunca mais esqueço.
Isso talvez tenha sido o momento de maior responsabilidade e de melhor sucesso de toda, toda, a minha vida.
E ficarei para sempre compensado de tudo o que possa ter-me acontecido antes e depois (e em geral foram só coisas boas e muito boas, àparte o que me fizeram na tropa).
Digo compensado, porque sempre que penso nisso sinto um grande orgulho dentro de mim – lubrifica-me o ego todo, todo… como se compreende, acho eu.
No meio daquela mata (uma das grandes florestas virgens do Mundo), em pleno quartel do Bata Sano, fui honrado com o convite do MPLA para fazermos a Paz. E eu e outro oficial miliciano, meu amigo.
Mas eu já conto isso aí mais adiante.

Um dos locais de morte

Um dos locais de morte

A Paz
Foi fácil. Na prática, foi muito fácil fazer a Paz. Isso, porque todos a queriam (excepto uma meia dúzia de oficiais e de sargentos do Quadro, pessoal de carreira…). Mas esses, nestas alturas, têm pouco poder real. Têm os galões em cima dos ombros, mas pouca influência no curso dos acontecimentos.
Foi muito simples: no dia 26, pela Rádio MPLA soube-se que Lisboa tinha sido ocupada pela tropa e que a Democracia ia explodir no País. Como já tínhamos tido a experiência do 16 de Março, deu logo para perceber que… tinha acontecido – e que, afinal, o regime tão duro e tão fanático tinha caído de forma quase pacífica…
No dia 27, recebo um emissário do MPLA na Vila de Buco Zau: um jovem que pediu para falar comigo e com o Caldeira, também alferes miliciano. Falámos com ele. Trazia uma mensagem revolucionária do Comandante Mabonzo, dizia ele. Mabonzo era o chefe da zona onde o nosso quartel existia.
E o que dizia a mensagem?
Muito simples:
– Vamos juntar-nos e celebrar a Paz. A guerra acabou.
Nós, que não queríamos outra coisa, apenas dissemos:
– Vamos a isso. Juntamo-nos todos no Quartel do Bata Sano e fazemos uma celebração da Paz. Tragam a vossa gente e jantamos lá em cima todos hoje à noite.
Assim ficou combinado.
O Comandante Mabonzo chegou pelas quatro da tarde ao Bata Sano.
O Caldeira e eu levámo-lo ao quarto do Comandante do Batalhão.
Batemos à porta, o senhor veio abrir.
Eu disse apenas:
– Meu Comandante, está aqui um senhor que quer falar consigo.
Ele saiu.
Nós explicámos quem era a pessoa e dissemos que os tínhamos convidado, a ele e aos seus homens, para jantar connosco e assim celebrarmos a Paz.
A cara do homem, nunca mais a esqueço.
Mas ele (eles) não tinha(m) margem de manobra.
O jantar fez-se. Os nossos soldados perceberam de imediato as vantagens da Paz e foi um serão muito alegre.
Nem que vivesse mil anos, nunca mais esquecia esse dia!
Um casteleirense, um filho desta aldeia tão bonita mas tão parada no meio das serranias… com uma missão tão fora de série: ajudar a fazer a Paz em Angola – como em tantos outros quartéis terá acontecido…
Foi bonita a festa, pá.
E porque Abril vale sempre a pena, convido-o a escutar agora uma das canções que marcaram aqueles dias… Clique aqui.
Obrigado.
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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

One Response to Casteleiro – Aconteceu comigo há 42 anos

  1. Jose Jorge Cameira diz:

    Muito bem descrito, José Carlos Mendes !

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