A minha ribeira

Alcínio Vicente - Aldeia do Bispo - © Capeia Arraiana

Um texto poético de Alcínio Vicente, que evoca a ribeira da aldeia, por estes dias transformada em rio, que transporta as águas da saudade de um já tempo distante no qual as vivências eram intensas.

A ribeira de Aldeia do Bispo

A ribeira de Aldeia do Bispo

Nesta aldeia de barrocais, de caminhos sinuosos e de pinhais
De parcas leiras férteis, e de poços nos “chões” e quintais
De pobres searas, lameiros, com vacas, ovelhas e mais alguns animais
Onde noite, dia, escuridão, luar, chuva ou sol eram iguais
Serras, mato, veredas, ribeiras, “carregos” mas só o grito
Há guardas ou carabineiros, assustavam mais
Bulhas ou zaragatas nos bailes no terreiro, por ciúme
Discórdias em negócios, por beber uns copos, eram normais
A estes tempos, outros se seguiram violentos como os demais
Da estranja ouviam se sonhos que agouravam melhores sinais
É a debandada deixando a família, filhos, mulher, amigos e pais
Em busca dos jardins suspensos da Babilónia, por sofrimento a mais.
Com o coração apertado e dividido não se podia esperar mais
E ei-los que partem em dias e horas incertas com um carrego
Ou fardo mais pesado e para mais distante de sempre
E lá com o que ganharam engordaram bancos, compraram terras,
Realizaram sonhos, construíram casas, uns regressaram, outros não
Hoje sobram casas vazias e solidão.
Conta tu minha doce e fiel ribeirinha histórias que contigo e comigo estão
Como nascemos ténues como um fiozinho no sopé da serra neste inóspito lugar
Como Fénix renascida todos os anos das secas do Verão
Como engrossas os caudais com as invernias e os afluentes que vamos somando
Pelo percurso das planícies e precipícios da vida.
Conta lhe como são belas as águas cristalinas aos raios do sol
O luar de prata e frios os cristais de gelo e as gotas que deles se desprendem
E o silêncio que a altas horas da noite é interrompido pelo canto
Improvisado pelo rouxinol que vem nidificar nos salgueirais
Vai minha ribeirinha agora rio, com recordações para o mar que te aguarda.
Não leves a saudade que essa a carrego eu.

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«Vivências a cor», de Alcínio

2 Responses to A minha ribeira

  1. Bom texto de que se gosta naturalmente. Está o autor de parabéns. Um bom motivo trazido à lembrança.

  2. vitor coelho diz:

    Gosto. Poético, simples, sem presunção.

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