Um sangue, uma sentença

Letícia Neto - Seixo do Côa - Sabugal - Capeia Arraiana - orelha

Sangue. Um azul, outro… apenas sangue. Sangue azul europeu. Sangue, só sangue, quase todo africano. Sangue e apenas sangue… na Síria. Sangue e tão somente sangue quando se está sob o desígnino da santidade bélica. Sangue dos homens. Uns mais homens do que outros.

leticianeto_toiro_590x490_20160412_01

A língua, que deveria estar recolhida, já se vê. O número que desempenha no espetáculo vai a meio. Ou menos do que isso. Em volta há gente. E algum vermelho. Dois tipos de vermelho. Um deles importado da tradição ibérica. O outro exportado de um corpo em sofrimento. E quanta gente se reuniu naquela tarde para testemunhar alegremente aquele segundo vermelho, fruto das investidas de instinto animal. Até para nascer é preciso ter sorte.
Dois carros em forma de lata de coca-cola já bebida fazem-se ouvir para cá e para lá sobre a calçada quase a estrear. A acompanhá-los um amontoado de rapazes. Os mais valentes lá da aldeia. Os mais audazes. Sem cintos de segurança nem lugares pré-definidos, tirando os condutores. Conduzir não é pra qualquer um.
A tarde está fresca mas há gelados daqueles de carrinho. O sol de inverno vai aparecendo por entre as casas e as varandas onde se juntam pessoas. Interessa ter a melhor visão possível. Caso contrário é como ir ao cinema e ter alguém constantemente a levantar-se. Ali qualquer demonstração de raça e dor são imperdíveis. Se está a sangrar é porque alguém escolheu bem. «Este é dos bons! Bate c’mó caralho!»
E corre. Percorre as grades e as carroçarias que o isolam da fuga. E bate. Ruidosamente. Uma e outra vez. E ouvem-se os ecos de mais uma investida. Na voz de uma mulher. Na voz do pequeno aprendiz. Na voz do rapaz valente e do homem bêbado. Todos. Em separado e em uníssono. Não sabe ele que as mostras do seu suposto fracasso ante o homem será o seu bilhete de saída do palco.
Enquanto isso há veterinários a tentar perceber o que se passa com o bulldog francês. E o gato recebe um mimo do dono e até tem direito a uma coleira nova. O cavalo come erva viçosa algures, depois do encerro, onde sempre tem o papel de herói. O jack russel vai ser passeado.
«São criados para isto.» «São as nossas tradições.» «Não matamos nem espetamos coisas ou se espetamos depois tratamos.» «Lá estás tu armada em parva. Não comes carne?» «Se não gostas não vás.»
Ora bem, ora bem.
:: ::
«Calhaus há muitos… Seixo há um», crónica de Letícia Neto

One Response to Um sangue, uma sentença

  1. Ramiro Manuel Lopes de Matos diz:

    Cara Letícia
    Não percebi se é favor ou contra a capeia arraiana, se calhar porque sou ledo no entendimento.
    Mas, explique-me como se eu fosse burro…
    Por mim sou a favor da capeia e sou a favor da tourada seja à portuguesa, seja à espanhola.

    Ramiro Matos

Deixar uma resposta