Cozido das Furnas time!

Letícia Neto - Seixo do Côa - Sabugal - Capeia Arraiana - orelha

No seguimento da minha crónica sobre sushi vos digo: sim ao #cozidodasfurnastime. Reconheço que levo ao extremo a apologia do «o que é nacional é bom». Mas não é por obrigação, por ser bonito e patriótico. Talvez seja, mas só um pouco. O que acontece é que eu acho que temos muitas coisas boas (que vão para além da gastronomia) em Portugal. Mas porque sou uma pessoa que se interessa muito por comida e anda atravessada com as modas light e os sushis vou falar-vos de uma maravilha que faz juz à fama: o cozido das furnas.

Cozido das Furnas - Açores - Letícia Neto - Capeia Arraiana

Cozido das Furnas – Açores – Letícia Neto – Capeia Arraiana

Essa iguaria cozinhada na freguesia das Furnas, na ilha de São Miguel, cativa desde logo pela criatividade. Se eu dissesse aos meus avós que comi chouriça cozida com um monte de terra por cima provavelmente pensariam: «Aqui cai o chouriço no chão e vai pró cão.» E não estou a menosprezar a inteligência dos meus antecessores. Eu pensaria em algo do género se nunca tivesse ouvido falar de tal procedimento. O encanto começa na confecção. Comer o cozido das Furnas implica envolvência de quem faz e de quem come. E até palmas! Comer um cozido é um verdadeiro espetáculo. Eu conto melhor.
No dia 3 da visita à ilha o dia começou com a visita às Furnas. O primeiro postal ilustrado da freguesia é a Lagoa. Um vislumbre espetacular apesar de ser já o terceiro dia e de o grau de choque perante tanta beleza se tenha esvanecido ligeiramente. Depois do primeiro miradouro do dia pesquisámos restaurantes para comer o famoso rei gastronómico do sítio. Ganhou o Tonys Restaurante (muito cool o «S» no fim né?). Ligámos a reservar e perguntámos a que horas podíamos ver como é feito. «Mê di vente», disse o senhor, que não tinha voz de Tony mas antes de David, Tony’s son. Demos mais umas voltas, fomos às caldeiras, tirámos mais umas mil fotos e às 11 horas lá estávamos nós na primeira parte do restaurante, junto às caldeiras vulcânicas que há do lado norte da Lagoa das Furnas.
Cheirinho a enxofre, aqui e ali gente do continente (do nosso e de outros) a olhar para o borbulhar da água e para os vários montinhos de terra espalhados e guardados por umas cercas de madeira, acompanhadas de placas a impedir a entrada dos mais curiosos ou audazes. Alguns dos montinhos tinham os nomes e os números dos restaurantes a quem pertenciam. À medida que se aproximava a hora as pessoas comecavam a juntar-se e quando as carrinhas começaram a chegar parecia que tinha tocado a campaínha de saída e que era hora de ir pra cantina da escola. Uma das carrinhas era do nosso chef Tony. Vimos a retirada das panelas gigantes da terra com a ajuda de uns ferros, sentimos o aroma e batemos palmas. Tímidas, mas palmas. Depois fomos, em jeito de casamento mas sem as buzinas, para o centro das Furnas provar o espetáculo. O restaurante era acolhedor e estava à pinha numa segunda-feira, os empregados eram simpáticos, o serviço rápido. O cozido era melhor do que o expectável e ainda houve espaço para provar os pudins de maracujá e ananás. Deliciosamente português. Quanto a bebida (e porque não sou especial fã de vinhos e bebidas alcoólicas) a minha melhor amiga por estes dias foi a Kima (uma espécie de Sumol mas melhor e com sabores da ilha).

Aconselho vivamente. E dá uma hashtag do caraças: #cozidodasfurnasnotonytime
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«Calhaus há muitos… Seixo há um», crónica de Letícia Neto

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