O Centro Católico no concelho do Sabugal em 1918

Jesué Pinharanda Gomes - Carta Dominical - © Capeia Arraiana

Há uns bons anos atrás estudámos o movimento social católico entre os anos de 1850-1930, com ênfase na fundação da Associação Católica do Porto (1871), no Centro Católico Português (1917) e na criação ou reorganização de muitas obras dispersas e sem coordenação, na chamada Acção Católica Portuguesa (1933).

D. José Alves Matoso (ao centro) era Bispo da Guarda em 1918

D. José Alves Matoso (ao centro) era Bispo da Guarda em 1918

Destas três fundações, a que objectivamente surgiu para a intervenção político-social foi a do Centro Católico. De facto, ele constituiu o braço político da mais vasta e abrangente União Católica onde se coordenavam as associações de culto, de assistência, de cultura e de economia.
O Centro constituiu-se, em todo o caso, como a organização autónoma destinada a promover a cristianização das leis e da vida política e nacional, num momento em que a República não andava nem deixava andar, sujeita às constantes peripécias e motins que acabaram por a tornar ingovernável, sujeita a constantes riscos ditatoriais.
O Centro, embora dos Estatutos não constasse que era um partido político, ele veio a concorrer a eleições autárquicas e nacionais, tendo obtido representação na Câmara dos Deputados e no Senado. Embora o número de deputados fosse pequeno, eles eram um factor de equilíbrio, mediante alianças pontuais com os grandes partidos (Republicano, Democrático e Evolucionista) conseguindo então vantagens para a liberdade de ensino religioso nas escolas particulares, para a devolução de muitos dos bens confiscados à Igreja em 1910, para a sustentação das obras sociais e para melhor sustento da vida rural, de que o Centro foi inequívoca voz, perante partidos mais atentos às cidades e ao operariado fabril.
Fundado num Congresso reunido em Braga (1917), contou com o apoio das dioceses, a breve trecho tendo estabelecido centros em muitas aldeias e vilas do interior.
No que ao Sabugal diz respeito, em Junho de 1918 (segundo o Boletim da Diocese da Guarda, Ano lV, nº 1) já estavam a funcionar os seguintes:

Sabugal
Presidente Honorário: Cónego Manuel Garcia de Carvalho; Presidente efectivo: Dr. João José da Fonseca Garcia; Vice-Precidente: P. Vital Augusto Lourenço de Almeida; Secretário: P. Manuel Nabais; Tesoureiro: Dr. Emídio Gomes Dias e Neves; Vogais: P. José Gonçalves Leitão, P. Júlio Matias, P. Francisco Pires, Manuel Bernardo Simões e Francisco Martins Lavajo.
É este o único concelho do distrito onde já se encontram organizados todos os centros paroquiais. O clero, com o seu inteligente e activo arcipreste à frente, tem sido de uma dedicação pela organização católica bem digna de registo.
O Sr. Dr. João José da Fonseca Garcia*, que de Lisboa veio propositadamente assistir à reunião do centro, deu mais uma prova do Zelo e amor à causa católica, que sempre defendeu e à qual tem dispensado todo o seu esforço.
Depois de feita a eleição do Centro concelhio o sr. Presidente enviou ao Ex.mo Prelado o seguinte telegrama:
«Delegados centros paroquiais, reunidos Sabugal para a eleição do Centro Católico concelhio, protestando filiar obediência, saúdam V. Exª associando-se saudação administrador do concelho Dagoberto de Carvalho. Presidente, João José.»

Rapoula do Côa
Presidente: António Alves Maria, pároco; vogais: José Cabral, Manuel Robalo, Joaquim da Cruz Camejo, José Ramos, Joaquim Lages, Manuel da Fonseca Tenente.

Baraçal
Presidente honorário: António Alves Maria, pároco; Presidente efectivo: José Pires; vogais: Joaquim Cameira, José Nunes, Manuel Afonso Nabais, Manuel Nabais.

Pousafoles
Presidente: P. José Pires de Paula Carvalho; Vice-Presidente: Manuel Lourenço das Eiras; Tesoureiro: José dos Reis; Secretário: José de Pina Antunes; vogais: José Pereira de Figueiredo, José Fernandes, Joaquim Parcerias, José de Paula, Joaquim Antunes, António de Paula, João Fragoso, Manuel João, José Teixeira e José Inácio.

Vilar Maior
Presidente: Júlio Matias, Pároco; Vice-Presidente: António Gata, comerciante. Vogais: José Morgado, operário, e Júlio Simões Ferreira, proprietário; Tesoureiro: Joaquim Fernandes, proprietário; Secretário: João António Monteiro, professor aposentado.

Soito
Conta nesta freguesia valiosíssimos elementos o Centro, sendo já muitos os sócios inscritos.
Acta da Sessão: Aos trinta e um dias do mês de Março de mil novecentos e dezoito, neste povo do Soito e casa da Junta de Paróquia, os abaixo assinados se constituíram em Assembleia Geral para a organização do Centro Católico Paroquial, conforme o programa do Centro Católico Português e de harmonia com os princípios expostos na Pastoral Colectiva dos nossos Prelados: os quais foram lembrados à assembleia pelo Sr. Dr. João José da Fonseca Garcia, depois do que foram eleitos para a Direcção deste Centro.
Presidente: P. Antonio Francisco Gonçalves; Vice-Presidente: Narciso Carrilho. Secretário: Miguel Maria Robalo. Vogais: António José Carrilho, José Augusto Dias, José Gomes de Carvalho, João Antunes Louza, Francisco Freire, José Antunes Louza e Narciso Nascimento Martins Nicolau.

Vale de Espinho

Presidente: José Martins, pároco. Vice-Presidente: Bernardino Luis Marques, professor. Tesoureiro: José Pereira, proprietário; Secretário: Joaquim Nabais do Amaral, professor; Vogais: Alexandre Vasco José Afonso Tenreiro e Antonio Varandas, proprietários.

(* O dr. Fonseca Garcia, natural do Soito, foi advogado na Guarda. Ainda vivia na Guarda nos meados do século XX, e ainda o conhecemos de visita).

O Centro apoiou, no Parlamento, com uma intervenção, a chamada Revolução dos Nabos, ou Motim do Aguilhão, no Sabugal (1926) contra os impostos lançados pelo Governo de então sobre os lavradores.
Acerca deste Centro Católico, para saber mais, pode consultar o nosso livro As Duas Cidades que existe no Centro de Estudos JPG.
:: ::
«Carta Dominical», Pinharanda Gomes

Deixar uma resposta