Alzheimer – Quem nunca se riu?

Letícia Neto - Seixo do Côa - Sabugal - Capeia Arraiana - orelha

«Still Alice» ou em português «Para Sempre Alice». No rescaldo do dia dos namorados e depois de um domingo cheio de filmes sobre amor, relembro este filme que conta a história (baseada em factos reais) de uma professora a quem diagnosticaram Alzheimer precoce.

Lembro-me de há uns anos, não muitos, ouvir algumas pessoas da minha família lamentar o facto de uma senhora lá da aldeia (velhota, importa dizer) sofrer desta doença. Inevitavelmente vinham à baila algumas histórias cujo teor de ridicularidade permitia algumas risadas. Na altura lembro-me de pensar apenas que deveria ser estranho a Ti Catrina, respeitável, afável e de extrema educação querer bater em alguém ou dizer palavrões. Hoje em dia e pensando mais profundamente nas coisas… não é estranheza o sentimento que sobressai. É tristeza.
Que triste deve ser para alguém ver uma pessoa das suas transformar-se em ridículo, obsceno, mal-educado… em pouco mais que nada. Enquanto isso a pessoa vê-se mergulhada no dilema: cuidar de mim ou cuidar dele? Ser a pessoa que deixa de ter vida ou ser a pessoa que entrega a chave daquele corpo a um lar de idosos? Ou a um centro qualquer onde se juntam aqueles de quem a sociedade nao espera mais do que garantia de emprego nas zonas de populações envelhecidas…
Eu sei que é cruel quando são os nossos avós. Ou, no limite, os nossos pais. Agora imaginem se for aquele que escolhemos para nos acompanhar pela vida fora. A pessoa que conhecemos de todos os prismas. Aquela com quem partilhamos o que não se partilha com mais ninguém por mais amados que sejamos. Imagina o que é quando dás por ti a tomar consciência de que toda essa história se vai apagando na memória do outro. E que em breve já não terás o nome que só ele te chamava. Que deixarás de ser a mulher ou o marido e passarás a ser uma mãe ou um pai humilhado pelas circunstâncias.
– «Quem me dera ter cancro.» – A frase dita pela Alice (brilhantemente interpretada por Julianne Moore) que me ficou do filme. A doença de Alzheimer leva a uma morte cínica. No cancro parece tudo mais digno. No cancro contamos connosco, no Alzheimer contamos com os outros. Sugamo-lhes as energias sem o retorno da esperança. Ou, apenas, o retorno de ainda estarmos ali.
Confesso que dei uma ou duas gargalhadas durante o filme, mas não me senti mal com isso. Porque aprendi a pensar na doença.

Um filme que recomendo.
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«Calhaus há muitos… Seixo há um», crónica de Letícia Neto

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