Ir à missa

Letícia Neto - Seixo do Côa - Sabugal - Capeia Arraiana - orelha

Hoje (anteontem, domingo), pela primeira vez, fui à missa. Cá, em Lisboa. Na igreja de Sã0 João de Deus, ali na Praça de Londres. Não me arrependi porque acho que foi a primeira vez que vi desconhecidos a cumprimentarem-se em Lisboa. Ok, a maior parte será só porque se sentem constrangidos a fazê-lo, mas uma vez disse «bom dia!», na paragem de autocarro, e ninguém se sentiu constrangido a responder-me.

Igreja São João de Deus - Praça de Londres - Lisboa - Capeia Arraiana

Igreja de São João de Deus na Praça de Londres em Lisboa (foto: D.R.)

Cá, foi a primeira vez que fui mas quando vou passar o fim-de-semana ao Seixo vou quase sempre. Porquê? Não sei bem. Tive uma fase na adolescência em que não percebia a obrigatoriedade da missa e deixei de ir, mesmo com a oposição da minha mãe. Achava uma seca. Sempre igual. Sempre aquele cheiro a… a velhas, velas, frio e mofo. Não era para mim. De inverno então era como ter de mergulhar no rio geado uma vez por semana. Onde foi que mudou ou quando foi que mudei? Nao sei. Mas tenho várias teorias.
Uma delas é que passei a dar valor à missa quando percebi que era ela que fazia reunir toda a familia, em casa da minha avó, todos (mas mesmo todos!) os domingos. O melhor dia da semana. Aquele em que tudo dava certo. À volta da mesa depois da missa. Na missa a que fui hoje estava uma familia. Os pais e três filhos, aparentemente todos na casa dos 20. Imaginei as vidas de cada elemento daquela familia. Não os imaginei perfeitos mas invejei-os por estarem ali, juntos, quando podiam estar todos em sitios tão distintos. Seria por opção de todos? Não sei dizer. Mas ali estavam alinhados. Provavelmente iriam jantar a seguir. Imaginei que pudessem ter caldo verde na ementa. Não sei porquê. E apeteceu-me ir jantar a casa deles. Tenho um fraquinho por famílias com mais de dois filhos.
A outra teoria que desenvolvo é a de que vou à missa porque não tenho a minha tia/avó Margarida para me contar histórias que me façam sentir boa pessoa.
Outra tese que desenvolvo é a de que vou à missa como quem vai olhar para o mar. Tranquiliza-me. Isola-me nos meus pensamentos. Priva-me dos telemóveis, do tablet, da televisão… faz-me pegar numa frase algures, numa profecia algures, e interpretá-la como a letra de uma canção que ouvimos à nossa medida. É quase como ir ao psicólogo só que salto logo a parte dos lugares comuns. Não, nunca fui a um psicólogo, mas imagino que assim seja. Se eu fosse a um psicólogo dava com ele em maluco!
Não vou à missa para ser diferente da maioria da malta da minha geração nem porque os velhotes de onde venho apreciam esse tipo de atitude… vou quando me apetece. Vou para me obrigar a acalmar neste mundo de maluquinhos. Fui e agora posso voltar à selva.
Boa semana a todos.
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«Calhaus há muitos… Seixo há um», crónica de Letícia Neto

One Response to Ir à missa

  1. Só nos faz bem, julgo eu, ir á missa! não por obrigação mas porque no mínimo permite um pouco de paz e meditação; permite-nos durante 45/ 60 minutos abstrair- nos de correrias de intrigas de invejas do consumo e de tantas outras dependências que hoje em dia nos consomem e nos arrebatam retirando-nos aquele grau de liberdade mínima que tanta falta nos faz! quanto aos filhos também tenho 3 e com mais de 20 anos mas vão puco á missa; talvez um dia destes mudem de ideias tal como a Letícia, o que só lhe fica bem!

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