Viajar em dia de chuva

Letícia Neto - Seixo do Côa - Sabugal - Capeia Arraiana - orelha

Se eu vos disser que ontem, segunda-feira, fiz uma viagem de seis horas e vos perguntar onde fui eu tenho a certeza que só vos vai ocorrer um percurso: Guarda – Lisboa! Aposto que vos li os pensamentos! Ou não… afinal é uma viagem de 300 e alguns quilómetros. Que de carro faço em três horas. Eu.

Carruagem-Bar do comboio Guarda-Lisboa

Carruagem-Bar do comboio Guarda-Lisboa

E porquê esta tremenda demora? Sobretudo a chuva. Choveu e algures entre Mortágua e a Pampilhosa não se podia passar. Disse-me o senhor revisor que era no túnel do Trezoi. Linha cortada e sem gôndolas à disposicão. Mas calma que primeiro foi preciso chegar a Mortágua!! Arrancámos da Guarda no interregional que normalmente faz a ligação Guarda-Vilar Formoso e tudo estava bem (apesar de ser a única mulher naquela carruagem) até se sentir um estrondo qualquer. Eu pensei que nos tinha caído uma árvore em cima. Tipo eucalipto apesar de nao saber se já estávamos na zona dos eucaliptos. Parámos e alguns passageiros levantaram-se algo assustados. Eu baixei o som da música e no meio do reboliço ouvi dizer «Não tinha ar do lado esquerdo!?». Quando ouço isto resolvo aliviar a tensão: «Calma que foi só o pneu da frente!» Alguns riram-se. Um outro pensou que a única gaja da carruagem era uma burrinha de óculos. Passados 15 minutos alguém «remendou o pneu» e lá seguimos.
Já no autocarro fiquei logo no banco da frente. Queria compor o meu fim de dia com um pouco de paisagem noturna. E ATÉ nem foi mau. ATÉ. Vinham dois senhores de idade muuuuito chatinhos nos bancos dos lados. Quem tem filhos/irmãos mais novos sabe como são as criancas em viagens longas. Vêem uma placa, leem o nome em voz alta e repetem-no mil vezes. Vêem uma placa com a quilometragem e anunciam: «Faltam 20 quilómetros para Lisboa!» É como ter uma voz de GPS sem ser preciso! Agora é só aplicar esse modus operandis a dois senhores com ar de quem só saiu de Alfarelos duas vezes na vida. Uma pra ir a Coimbra fazer a operação à hérnia e a outra pra ir ver o Benfica do Eusébio. Um pouco irritante. Um deles não parava de dizer as palavras de ordem «Morte à água» por causa do raio do nome da terra.
Nisto (dizer nisto enquanto se conta uma história dá sempre um fôlego à narrativa não é?) chagámos à Pampilhosa. À do Botão e não à da Serra! A Pampilhosa que tem uma equipa no terceiro escalão do futebol português, liderada (até onde sei) pelo mestre dos mestres: Fernando Niza. Não haja confusões.
Já no segundo comboio do dia (o que tem bar/cafetaria) decido ir onde? Usufruir do serviço de bar e cafetaria! Enquanto percorro a carruagem 21 penso em como me apetecia uma bebida quentinha. Chego e reparo que há um microondas. E Ucal! Perfeito. Depois de deixar passar toda a terceira idade lá vou eu. O senhor que estava a servir (que devia ter perto de 60 anos) era de extrema simpatia. Pedi o leite achocolatado aquecido, se POSSÍVEL. «Menina, eu aquecia de bom grado, mas onde?», disse ele muito desgostoso. Eu sorri e sugeri: «Que tal no microondas atrás de si?» O senhor virou-se para trás meio incrédulo e apressou-se a dizer que só podia ter uma coisa ligada. O computador ou o microondas. E como num bar as pessoas precisam mesmo é de computadores… a escolha foi fácil. Mas não era má vontade. Passados uns 15 minutos já tinha meio Ucal quente. Onde estava a outra metade? Perdeu-se com a trepidação. Ainda houve tempo pra ler os diabetes de um outro senhor na mesa do lado e para ver a alegria do senhor do bar e cafetaria quando eu lhe disse que o leite estava espetacular.
Nisto escrevo este belo texto. Já passámos o Entroncamento e levamos uma hora e meia de atraso. Já fiquei sem bateria no telemóvel (não sem antes tirar uma foto do local que serviu de meu escritório para este artigo) mas o tablet que me foi oferecido este Natal pelas minhas mulheres salvou-me o dia. O que eu me ri enquanto escrevi estas palavras…
Fica um conselho: tentem viajar só quando não chover muito. Ou quando voltarmos a não pagar portagens. Se não é chato. Ou então se conseguirem ser engenhosos e dar a volta à questão com algum sentido de humor.
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«Calhaus há muitos… Seixo há um», crónica de Letícia Neto

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