O melhor Natal não é o de dia 25

Letícia Neto - Seixo do Côa - Sabugal - Capeia Arraiana - orelha

Bem sei que ainda faltam alguns dias para o Natal. Mas é nas vésperas que ele faz mais sentido para mim. Aquela coisa de montar a árvore, as luzinhas, o procurar o presente ideal e todo o frenesim que antecede os dias 24 e 25 tornam a época mágica e única. Claro que a parte de ter toda a família por perto é o culminar da coisa, mas tudo isso acontece a uma velocidade que faz pensar: «Era só isto? Já passou? E agora? Temos de esperar mais 364 ou 365 dias para que todas estas luzes voltem e se volte a sentir o quente da lareira e a ouvir a música da Mariah Carey?»

Árvore de Natal - Capeia Arraiana

A árvore do natal citadino não tem ainda presépio

Sim, parece demasiado dramático, mas é um pouco assim. Desde pequena que esta sensação de querer congelar dias me assalta duas vezes por ano. No natal e na festa de verão, no meu caso em particular o segundo fim de semana de agosto. É espetacular o antes mas o durante e o pós já têm sempre o sabor agridoce de estar a acabar ou de já ter acabado. Não sei se isto acontece com toda a gente mas imagino que a sensação um tanto ou quanto exagerada da minha parte tenha a ver com o facto de eu nunca estar completamente satisfeita e gostar de andar sempre à procura do mais e melhor que está por vir.
De qualquer forma faltam três semanas para o dia 24 (cá por casa e pela minha aldeia valorizamos mais a noite de consoada um pouco pela mítica fogueira gigante algures – ou o madeiro, como lhe chamam em Penamacor) e já se sente aquela coisinha no ar.
Perco horas quase hipnotizada pelo piscar das luzes. Snifo o cheiro a madeira queimada da lareira ainda por envidraçar (graças a Deus que não há riqueza para tapar a lareira com vidro). Sinto o frio a pedir o mais quente e felpudo casaco cada vez que saio à rua. Testemunho a ameaça de que geie ou neve. E, no silêncio da ruralidade, quase que ouço o tique-taque dos ponteiros do relógio em contagem decrescente, a que se junta a vontade crescente de que os tais dias cheguem.
E pode parecer presunçoso e com certeza será, mas é com bastante convicção que o digo: «Infelizes aqueles que nunca viveram um natal na aldeia, no mais fresco e profundo Portugal.» E que não haja enganos. O melhor do natal já está a acontecer, lentamente, em cada preparativo.
Ok, há a parte religiosa. Eu sei que há. Vou à missa desde pequena. Primeiro por obrigação e há uns anos por opção. Sei que nasceu o menino Jesus e tal. Não menosprezando essa parte (que reservo para mim), e pondo de parte o lado púdico da coisa, o cerne da quadra não está aí. Para mim. É uma boa desculpa e agradeço a Deus se foi ele o causador disto tudo. Mas não. Nem nos presentes. Está no todo. No anseio. No embrulhar de cada presente. Na troca de doces. Numa atenção aqui e num abracinho ali. Numa aura que se cria. Na Leopoldina, na Popota e na Coca-Cola. Sim, o consumismo vem no pacote. Não sejamos hipócritas. Mas que seja! Qual é o mal? Dar e receber não são afinal coisas tão nobres? Primariamente são. Então sejamos primários no Natal.
Um frio e acolhedor Natal a todos.
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«Calhaus há muitos… Seixo há um», crónica de Letícia Neto

One Response to O melhor Natal não é o de dia 25

  1. António Emídio diz:

    Letícia :

    As prendas mais valiosas são de carácter imaterial e não se encontram em nenhuma loja de centro comercial, este é o meu ponto de vista pessoal e subjectivo, mas é impossível fugir de todo ao « business »…

    António Emídio

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