E se os rios corressem ao contrário?

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

Sem percebermos muito bem porquê, as águas do Noémi começaram de tempos a tempos a circular ao contrário. De tempos a tempos correm para o parque urbano da cidade da Guarda.

Noémi poluído na zona da Gata

Noémi poluído na zona da Gata

Quando em Maio de 2014 os rios Noemi e Diz se revoltaram contra a poluição de que estavam a ser alvo, e decidiram mudar o leito para outras terras, foi-lhe prometido pelos representantes do poder que a situação estaria resolvida a muito curto prazo (aqui).
Como acontece com a generalidade das promessas eleitorais, passado o acto, rapidamente são esquecidas e tudo volta a ser como era antes. Talvez por isso os rios retomaram a luta.
Naquele dia de manhã cedo, quando os habitantes das margens do Noémi se deslocavam entre as margens para apascentar o gado, foram surpreendidos por um fenómeno deveras estranho e que nunca tinham visto antes.
A água do rio, que por norma corria da Guarda para nascente até encontrar o Côa, hoje tinha invertido a sua marcha e agora corria no sentido da Guarda. O caudal era de dimensão idêntica e a velocidade da água também pois naquela zona (na Gata) o leito do rio era praticamente plano.
O primeiro que verificou esse fenómeno, para além da incredibilidade que o mesmo lhe provocou, que o levou a questionar-se a si próprio sobre a veracidade de tal situação, voltou à sua aldeia que não ficava longe, esbaforido para dar a novidade aos restantes moradores.
Estes, para além de duvidarem da “tanga” que aquele lhes estavam a vender, questionavam-se, em alternativa, sobre o verdadeiro conteúdo do pequeno almoço do mensageiro em face destas atitudes.
De tarde, lá foram de novo junto ao rio que, afinal, corria no sentido que sempre correra, como é normal, diziam.
Defendia-se o Jacinto (o morador do alerta), que jurava pela alma da sua mãe, em como vira o rio correr ao contrário. Mas não havia nada a fazer, pois os incrédulos moradores apenas acreditavam em evidências e evidências era coisa que não faltava quando se olhava para o rio.
Passados mais uns dias, outro habitante daquelas margens apareceu na sua aldeia de novo com a mesma história. O rio estava a correr ao contrário.
Depois de várias vezes a história se ter repetido, os mais curiosos, tentaram perceber o que se passava, tendo feito alguns quilómetros ao longo do rio, andando sempre no sentido da nascente.
Aperceberam-se então que as alterações do sentido do rio, estavam a ocorrer em alturas bem definidas e que coincidiam com as descargas poluentes que de tempos a tempos a fábrica da Gata fazia para o rio.
Logo que isso acontecia, o rio invertia o seu curso e a água que deveria engrossar o Côa lá mais abaixo, era agora encanada para o Parque Urbano do Rio Diz na Guarda, através do leito do Rio Diz aliado do Noemi nestas atitudes.
Fácil é perceber que o Parque começou a ter cada vez menos gente até que, passado algum tempo já eram raros os que para lá se dirigiam, tal era o cheiro que as águas do Diz em circulação contrária provocavam.
Com esta atitude dos rios, o Noémi passou, nestas alturas a ter um caudal menos volumoso a partir da Gata, no sentido nascente, mas com água limpa.

Noémi com água “limpa” – em Pailobo

Noémi com água “limpa” – em Pailobo

Com os rios a circular ao contrário, sempre que uma descarga acontece, estamos certos que o problema da poluição do Diz e do Noemi serão a curto prazo resolvidos.
Esta atitude radical dos rios provavelmente vai ter consequências bem mais graves do que chegou a ter a Revolta dos Rios. É que, enquanto que naquela situação os rios mudaram de sítio, abandonaram uma luta que pelos vistos não conseguiram ainda ganhar, aqui adoptaram outra postura:
Estão dispostos a lutar contra tudo e contra todos os que os querem destruir. Nem que para isso utilizem as armas dos seus adversários. Querem dar a provar-lhe do seu próprio veneno.
Ninguém pode ficar indiferente quando vê um rio inverter a sua forma de circular, tentando lutar pela sua sobrevivência e das espécies que de si se alimentam e de si fazem o seu habitat. Quando um rio se vê forçado a inverter a lei natural das coisas para tentar defender princípios, só pode ser digno do nosso apoio. Não lho neguemos.
Hoje foram os rios, provavelmente amanhã serão qualquer outra espécie animal das suas margens. E nós? Bem, nós só podemos apoiar e dar voz a estes entes da natureza, dar-lhe visibilidade, e apoiar todas as iniciativas que levem a que termine este assassinato ambiental que já leva várias dezenas de anos. Quais serão as próximas acções dos rios?
Nota: O texto, como se compreende é meramente figurativo e pretende de novo colocar na agenda local o problema da poluição do Noémi.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

jfernandes1952@gmail.com

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