Crónicas do Gervásio – A feira da Miuzela

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

Na feira da Miuzela, realizada na última quinta-feira de cada mês, negociava-se tudo. Mas a parte da feira reservada ao gado tinha um movimento e cheiro próprios dos animais que se vendiam. Negócio feito, albroque bebido. Só depois do albroque se considerava o negocio formalizado.

A feira do gado

A feira do gado

Diariamente o Gervásio cumpria a tarefa de levar o vivo ao lameiro. O vivo do Gervásio era uma vaca e duas burras, uma mais velha, a castanha, e outra mais nova, a amarela. A castanha e a vaca, quando era necessário, formavam uma junta, não de vacas, não de burros, mas apenas a junta do Gervásio. Era uma junta esquisita que não dava para fazer tudo mas dava para as tarefas essenciais.
De vez em quando o filho perguntava por que não tinham uma junta de vacas.
Não temos uma junta porque somos pobres.
Só os mais ricos podem ter juntas de vacas.
Para ter uma junta de vacas é preciso ter dinheiro para comprar as vacas e depois ter lameiros para as alimentar e terras para justificar o trabalho que com elas se pode desenvolver.
Como não temos essas coisas, não temos junta de vacas.
A vaca do Gervásio, por norma dava-lhe um bezerro por ano que, passados dois ou três meses, vendia e obtinha umas notas para a difícil gestão da sua casa.
Mas hoje ia ao mercado da Miuzela para vender a burra mais velha.
A nova já estava mais ou menos ensinada e já se ia ajeitando com a vaca quando era preciso lavrar.
Chegados à Miuzela, dirigiu-se com a burra para o mercado do gado.
Estava instituído que quem naquele local se colocava com os animais pela rédea, queria vendê-los. Por isso, os compradores iam circulando por entre os animais, de cajado na mão, olhando para todos os sinais de qualquer defeito que pudesse vir a baixar o preço.
Ainda não eram 10 horas e já vários potenciais compradores tinham perguntado ao Gervásio o preço da burra, através daquele característico “quanto quer por ela?”
Ele que tinha pensado pedir pela burra 9-10 notas(1), mas com tantos interessados estava quase a mudar para as 15.
Agora chegou perto dele o Alfredo de Badamalos a quem chamavam o Alfa que, depois de ter mirado o animal de alto a baixo, visto os dentes e os cascos, disparou a pergunta sacramental para o Gervásio:
– Quanto está a pedir?
– O Gervásio, nervoso, meio engasgado, lá conseguiu aguentar-se e retorquiu: 15 notas.
– Mas vocemecê acha que tem aqui uma vaca? Não pode ser, disse o Alfa.

A castanha ainda na terra do Gervásio

A castanha ainda na terra do Gervásio

Continuaram a conversar com o Gervásio a enaltecer as qualidades do animal a quem no limite e nas suas palavras só lhe faltava falar. Tinha sim senhor já uns anitos mas muito ainda poderia dar.
O Alfa, por seu lado, apontava os defeitos visíveis da burra, desde o pêlo que estava a cair, até um dente que estava a ficar preto.
O Alfa continuava: Está velha, não vale isso. Se fosse mais nova!…
Olhe para estes dentes, todos pretos?
Entretanto, estava a chegar-se perto um outro possivel comprador e que mostrava vontade de intervir.
O Alfa cortou-lhe as vasas:
Enquanto eu e Gervásio não conseguirmos chegar a acordo ou desistir, vocemecê, não tem que se meter, só se for para ajudar a fazer o negócio. Esta saída do Alfa fez desandar o interessado.
Dou-lhe 10 notas diz o Alfa para o Gervásio.
É pouco. Por esse preço o animal volta para casa. Quero vendê-lo mas não quero dá-lo retorquia o Gervásio.
Mais um conjunto de defeitos colocados ao animal e eis que aparece outro, o Tó da Cerdeira, amigo de ambos disposto a ajudar a concretizar o negócio. Colocou o cajado que trazia de baixo do braço esquerdo enquanto cumprimentava ambos e passava a mão direita pelo pêlo do lombo da burra.
Se querem fazer negócio temos que rachar, diz o Tó, quando à volta dos intervenientes já se tinha reunido um grupo de curiosos sobre a fluência do negócio..
Rachar é curto para mim retorquia o Gervásio. Para mim têm de ser 14 notas e já estou a perder, pois este animal vale muito mais.
Dou-lhe 12 notas diz o Alfa depois de ter colocado mais uns defeitos e fingido lamentar o que estava a fazer.
Com os dois a aproximar-se, o Tó da Cerdeira via cada vez mais próximo o momento de beber o albroque. Mas esse momento é o Gervásio que o decide.
Ó homem, desça qualquer coisa e resolvemos já o assunto dizia o Alfa.
Nessa altura foi a vez do Tó da Cerdeira:
São 13 notas e o negócio está feito.
O Alfa acenou com a cabeça e o Gervásio, um bocado a contragosto, falou: Está vendida.
Apertou a mão do Alfa ao mesmo tempo que convidava todos para o albroque. O albroque aconteceu logo ali ao lado, onde um taberneiro tinha montado a pipa de vinho atravessada numa das pedras do mercado.
Participaram no albroque todos os que estavam a ajudar a fazer o negócio o que acabou por dar cerca de 2 litros de vinho para todos beberem
Depois do albroque cada um foi à sua vida, não sem que antes o Gervásio tirasse o cabresto da burra para levar para casa, com as notas no bolso.
O Alfa partiu para Badamalos, com a burra pela rédea formada por um bocado de corda que arranjou no mercado.
Diz-se que enquanto o labroque não é bebido qualquer negócio pode ser desfeito. Depois disso, nunca. Verifica-se assim que este ritual é de longe muito mais importante que qualquer promessa ou negociação. É o albroque que dá eficácia ao negócio. Até ai é apenas a sua preparação.
Depois do albroque, o Gervásio tirou o cabresto à burra e estava feita a feira. Em simultâneo o Alfa atou-lhe uma corda ao pescoço com um nó não corredio e diz para a Castanha: Vamos embora.

(1) – No tempo do Gervásio, na beira raiana, uma nota eram 100 escudos.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

jfernandes1952@gmail.com

4 Responses to Crónicas do Gervásio – A feira da Miuzela

  1. Assisti a alguns negócios desses,depois de calcorrear por caminhos bem tortuosos digamos.,a distancia de Ade a Miuzela

  2. JFernandes diz:

    CPereira:
    …. passando naturalmente por Pailobo .
    jf

  3. Teresa Castro diz:

    Boa noite, José.
    As personagens destas suas crónicas são reais ou fictícias?
    O “Tó da Cerdeira” existe mesmo?
    Fui à Miuzela (ali tão perto!) uma única vez. Mas recordo-me muito bem de toda a dinâmica e importância das feiras e mercados. O meu Pai, como agricultor, frequentava-os com regularidade para vender e trocar animais ou outros negócios. De lá vinha o porco da matança e o sempre “presentinho” dos tão apreciados tremoços…
    Cumprimenta,
    Teresa

  4. JFernandes diz:

    Boa noite D. Teresa.
    Os personagens das crónicas do Gervásio, são ficticias.
    No entanto, podem em muitas situações, ter grandes semelhanças com personagens reais.
    E Têem-nas.
    jfernandes

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