Êxodo

Alcínio Vicente - Aldeia do Bispo - © Capeia Arraiana

Mais um poema e uma pintura de Alcínio Vicente, em que nos fala do êxodo que nos faz voltar à calmaria dos dias, à nostalgia e ao silêncio persecutório.

Êxodo - pintura de Alcínio

Êxodo – pintura de Alcínio

Calaram se os estampidos do estrelejar dos foguetes nos céus
Os dias e noites tumultuosas findaram
O tempo de glória destas aldeias esfumou se
Regressou a nostalgia e o silêncio persecutório
São como cigarras de Verão
Ruidosas com alegria no coração
Partem com a alma a sangrar
A saudade apertada escapando de cada mão.
As trombetas anunciam os acordes do êxodo
Cai o silêncio e a nostalgia magoada dos breves momentos de glória
Os ventos carregam nuvens sombrias com maus presságios
Revolvem se as árvores com os ventos das contradições
Nem um murmúrio ou chilreio da passarada
Estão desertas as ruas, secas as fontes, e as ribeiras pararam de correr,
Ressequida a relva dos campos
Reina uma calmaria estranha
Não se ouve sorriso de criança
Parece que o sol se abateu sobre a terra
Já se calaram estas musas para dar lugar a outras desafinadas
Já se ouvem os timbales e os clamores dos aguadeiros e «alvazis»
Anunciando dádivas e benfeitorias que o vento arrasta até um amanhã longínquo
Irão poluir o silêncio com discursos estridentes
Carregados de presentes e promessas
Será surdez minha ou mundo parou ou mudou de trajectória
Mas os corações não deixaram de bater a saudade
Esta dança repetir-se-á uma duas e muitas vezes
Carregados de sonhos e de mágoas, à procura do que aqui não encontraram .
É sina dos portugueses, ganhar o mundo e perdê-lo a seguir, por golpes de má
Fortuna ou incompetência de alguns…

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«Vivências a cor», de Alcínio

2 Responses to Êxodo

  1. Georgina Esteves Craveiro Ferro diz:

    Ninguém ama o que desconhece! E O Alcínio conhece, ama… e não tem pejo em denunciar, nas suas telas de vivos matizes e nos seus poemas de palavras, o sentimento que lhe preenche o seu viver: as nossas gentes, lugares, usos, costumes, festas e até a dor …de hoje e de antanho. Adoro este poema e sinto a dor do êxito desta tela magnífica de rostos tão profundamente tristes por mais uma abalada!…

  2. António Alves Fernandes diz:

    Além de um grande pintor “REALISTA”, de que sou teu admirador, parabéns pelo teu poema. Um abraço Arraiano.

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