Assassinato da cultura

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

O fanatismo e fundamentalismo são estados psicológicos que levam o homem a mostrar o que de pior consegue. As acções tomadas por quem está imbuído daqueles estados, atingem por vezes as raias da irracionalidade.

Membros do «Estado» Islâmico destruindo estátuas milenares

Membros do «Estado» Islâmico destruindo estátuas milenares

De tempos a tempos, ao longo da história do homem na terra, assiste-se à prática de actos que acabam por ser publicitados pelas piores razões, e que por norma envolvem a destruição de elementos culturais de diversos povos.
Hoje, tais actos ou atitudes provocam na mente das pessoas perante as quais são exibidos verdadeiros sentimentos de revolta e incompreensão nas atitudes.
Quando assistimos a homens de marreta a destruir estátuas com centenas ou milhares de anos, está a passar à nossa frente o que de pior existe no domínio da religião – as atitudes fundamentalistas.
Sabemos que as crenças e a religião, quando associadas em contextos da adoração de divindades, e por vezes de criação artificial de nações, originam misturas explosivas das quais os seus membros cultivam o que de pior têm.
Quando assistimos a actos de pura barbárie, transmitindo execuções sumárias em directo nas televisões só podemos acreditar que os respectivos actores são pessoas perturbadas e totalmente preocupadas em encontrar respostas da pior forma para as suas dúvidas, crendices e convicções. Também aqui temos de admitir que a nossa sociedade acaba por contribuir para esses actos quando os divulga. É que, o carácter exibicionista pelos piores motivos pode ser um incentivo para a prática desses actos.
Chegados a este ponto, será altura de nós próprios nos questionarmos se temos o direito de ignorar o que está a acontecer, impedindo ou dificultando a sua divulgação. Ou se, pelo contrário, devemos divulgar tudo o que mau acontece como remédio preventivo para que não volte a acontecer. Apesar de compreender que o dilema nas nossas mentes existe, inclino-me claramente para a divulgação e portanto contra a omissão.
Este episódio ocorrido este ano, em pleno século XXI, fez-me lembrar de outros que ao longo da história nos foram contados. É certo que a descrição de certos episódios nos chegam não é, muitas vezes, única. Falemos agora de 2 ou 3.
No caso da destruição da biblioteca de Alexandria, a versão mais aceite conta que, conquistada a cidade, o comandante das forças invasoras, um muçulmano, terá pedido orientação a quem o tinha enviado (Omar) sobre o que fazer com os livros da biblioteca. Omar respondeu:
Se esses livros estiverem de acordo com o Alcorão, então não precisamos deles para nada; e se eles se opõem ao Alcorão, destrói-os.
Os livros foram então distribuídos pelos balneários de Alexandria tendo sido utilizados como combustível para aquecimento de água. Abasteceram os balneários durante 6 meses.
Esta é uma das versões que se conhecem. Provavelmente a mais credível. Mas há outras.
Por cá, temos crónicas que nos dão conta de situações que, não tendo a dimensão daquelas que antes refiro, acabaram por constituir atitudes irracionais motivadas por comportamentos comandados por emoções por vezes originadas por sentimentos nobres.
D.Pedro I, mandou arrasar a Vila do Jarmelo, por volta de 1355, quando, depois de ter apanhado os executantes da morte de Inês de Castro, e feito justiça sobre eles – terão sido mortos com extracção do coração pelo peito e pelas costas – mandou arrasar a Vila do Jarmelo não deixando pedra sobre pedra.

Marco Geodésico do Jarmelo

Marco Geodésico do Jarmelo

Ainda hoje aquele local assim se encontra. Falei nisso (aqui).
Em época mais recente e agora por motivos meramente políticos e dos mais baixos, o Marquês de Pombal mandou espalhar sal no local onde foi executada a família Távora, depois de acusada e acto contínuo condenada por ter intentado contra a vida do rei D. José I. Também aqui a sentença era clara: Naquele local nada poderia crescer ou ser construído, daí o sal. Aqui parece que a sentença não foi totalmente cumprida, pois o local está há muito pulverizado de construções, que dificultam inclusivamente que se encontre o local do cumprimento da sentença, onde se encontra um monumento evocador com legenda gravada na pedra. Largo do Chão Salgado.

Largo do Chão Salgado

Largo do Chão Salgado

Emoções, religião, crendices são sempre maus conselheiros para a tomada de decisões e mais ainda para o controle de multidões. Estas, quando os seus membros se encontram possuídos por sentimentos colectivos por vezes do pior tipo acabam por ser incontroláveis e praticar actos que não são por norma irreversíveis. E esse é o principal problema.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

2 Responses to Assassinato da cultura

  1. António Emídio diz:

    José Fernandes :

    Todo e qualquer fanatismo é a redução máxima da Liberdade do Homem. E, quanto mais elevado seja o nível cívico e ético de um povo menor é a influência de fanatismos. Ao vêr a fotografia que está a ilustrar o seu artigo, leva-me a dizer que o pensamento moderno é o pensamento da decadência, também neste civilizado Ocidente… Mas será que quem destrói cultura à martelada é moderno ? Eu acho que quem sabe manejar moderníssimas armas e tecnologia avançada, como é o caso de muitos combatentes do « Estado » Islâmico, segundo as gazetas, não é tão atrasado como isso. Então em que ficamos ? Nisto ! O nosso tempo caracteriza-se por um desenvolvimento tecnológico impressionante, mas moralmente é muito baixo.

    António Emídio

  2. JFernandes diz:

    Caro AEmído:
    Obrigado pela achega.
    um abraço
    JFernandes

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