Pelourinhos em Terras de Riba Côa (37)

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

:: :: GUARDA (2) :: :: A concessão do foral à Guarda foi um dos actos mais importantes que D. Sancho I praticou, principalmente pelas consequências que a criação daquela cidade teve na construção do país. Vamos conhecer um pouco mais desta terra e desta gente que é a nossa.

Sé da Guarda

Sé da Guarda

No texto anterior, que pode ser consultado (aqui), falamos da criação do concelho da Guarda, do pelourinho, do foral e do brasão. Hoje vamos falar de outros temas associados ao Município da Guarda. Começamos pelo momento mais conhecido.
A Sé da Guarda que é o icon que identifica em qualquer lugar a própria cidade, e por isso também a incluí como identificadora destes dois textos, é um monumento nacional praticamente desde a altura em que essa classificação patrimonial foi instituída. Foi classificado como tal com o mesmo diploma que assim classificou por exemplo a sé de Coimbra ou a de Lisboa (aqui).
A actual sé da Guarda é a substituta das duas anteriores e terá sido iniciada já no reinado de D. João I, finais do século XIV e terminaram já no século XVI. Quer isto dizer que as obras demoraram cerca 150 anos.
Antes da actual Sé existiram duas outras: Uma primeira edificada imediatamente a seguir à transferência da diocese da Egitânia para a cidade da Guarda no reinado de D. Sancho I.
A segunda Sé foi mandada construir por D. Sancho II no local onde actualmente se localiza a igreja da misericórdia e que foi concluída no século XIV. Este edifício foi mandado destruir quando se efectuou a reforma fernandina das muralhas por se situar fora delas e poder permitir que através dela os Castelhanos pudessem subir à muralha e tomar a cidade. Isto leva-nos a concluir que este monumento estaria encostado às muralhas.
A actual Sé da Guarda esteve encerrada ao culto durante os anos de implantação da república tendo sido reaberta em 1921.
A Guarda possuía muralhas e Castelo. Deste ainda resta, em bom estado de conservação a Torre de Menagem.
A Torre de Menagem a que costumamos chamar Castelo, teve certamente durante a idade média importância fundamental no que se refere à defesa territorial. No entanto, para aqueles que na década de 60 do século passado passaram pela Guarda, no Liceu ou na Escola Comercial, aquele local trás concerteza recordações da saudável rivalidade que sempre existiu entre os frequentadores daqueles dois estabelecimentos e de que já fiz eco num texto (aqui). O local da torre de menagem, na parte mais elevada da cidade, era como que uma trincheira que no intervalo das aulas servia para dela se apedrejarem os do estabelecimento contrário. Relembro que o Liceu funcionava na encosta sul, e a Escola na encosta norte.

Torre de Menagem do Castelo da Guarda

Torre de Menagem do Castelo da Guarda

Imediatamente após a atribuição do foral ao concelho da Guarda D. Sancho I mandou iniciar a construção do Castelo como medida de protecção ao povoado existente.
Com D. Afonso II foi iniciada a construção da torre de menagem tendo os sucessivos reinados construído, ampliado ou reformulado as muralhas, torres e portas existentes.
Fruto da posição estratégica que o local possui, à medida que as fortificações iam sendo ampliadas e reforçadas, maior protagonismo era fornecido à Guarda. A posição próxima da fronteira, fazia com que passassem pela guarda todas as eventuais incursões ou defesas do território vizinho.
Foi assim que, na Guarda decorreram as negociações diplomáticas que acabaram por levar depois à assinatura do tratado de Alcanizes, no reinado de D. Dinis.
Durante a crise de 1385 o Castelo da guarda tomou desde cedo o partido do Mestre de Avis. Mas, na Guarda, o clero através do respectivo Bispo, era partidário da facção contrária. Conta-se relativamente a esta situação que quando naquela crise, o rei de Castela invadiu Portugal, foi recebido com pompa no palácio episcopal. Ao mesmo tempo, o alcaide do Castelo recusava a entrega das chaves da praça da Guarda. Como em tantas outras situações, o poder eclesiástico tinha dentro da cidade da Guarda posições diametralmente opostas ao poder civil/militar. Este episódio tem justificado dois dos Fs Falsa num dos casos e Fiel no outro.
A torre de menagem que ainda existe e se encontra bem conservada continuando a dominar não só a cidade mas também uma vasta zona na envolvente e que se estende até Espanha, é uma torre pentagonal irregular, e que possui no seu interior três pavimentos.

Concelho da Guarda no distrito da Guarda

Concelho da Guarda no distrito da Guarda

Territorialmente, o concelho da Guarda localiza-se sensivelmente a meio do território que o distrito abrange. Numa altura em que a componente distrital tinha competências próprias, a localização da sede do distrito numa zona central era e foi a melhor opção para as gentes dos municípios que aquele distrito integram.
Em 2013 o concelho da Guarda, como a generalidade dos Municípios do país foi alvo de nova reorganização das suas freguesias tendo algumas delas sido agrupadas em uniões de freguesia mas mantendo o território municipal tal como se encontrava anteriormente (aqui).
Claro que numa cidade com as características que temos vindo a referir há certamente dezenas de lendas, histórias, contos, etc. Provavelmente a historia dos 5Fs é aquela que mais gente conhece, enaltece ou critica.
Sobre os 5 FFs da Guarda várias são as interpretações que se podem encontrar. Por norma, cada intérprete, conforme a sua ligação maior ou menor à região, assim conduz a sua interpretação para um determinado resultado.
O hábito de associar os 5 fs à cidade da Guarda, é mais uma forma de enaltecer qualidades que a própria possui por natureza mas que, bem vistas as coisas poderiam aplicar-se, certamente a muitas outras cidades. Aparecem depois variantes quer no número quer no significado que se atribui a cada um dos Fs. Quer se queira ou não isto não passa da imaginação mais ou menos fértil que a mente de cada intérprete faz estender, encolher, glorificar, criticar, etc. Enfim trata-se de um expediente como qualquer outro. Mas se tal facto serve para aumentar a nossa auto estima continuemos a falar nos 5 Fs:
Forte – a força vem das muralhas, castelo e posição geográfica.
Farta – associa a riqueza do Vale do Mondego.
Fria – ligado ao clima frio, fruto da altitude.
Fiel – ligado ao facto de o alcaide da guarda na crise 1383/85 se ter recusado a entregar as chaves da cidade a Castela.
Formosa – Pela beleza natural.
O número de Fs pode ainda assim variar, mas isso deixo para a imaginação do leitor.
Visitar a Guarda não é algo que seja necessário pedir às pessoas que façam. A Guarda por si só, com as suas características próprias, é um lugar que todos gostariam de visitar. Por isso, subam, subam, até à Guarda.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

jfernandes1952@gmail.com

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