Os cursos gastronómicos e a tradição portuguesa

Paulo Sá Machado - Emoções Gastronómicas - © Capeia Arraiana

Temos sido invadidos em vários canais televisivos nacionais e estrangeiros, por cursos e concursos gastronómicos, que nos proporcionam visitas ás mais variegadas cozinhas, todas elas afastadas e muito, da cozinha tradicional portuguesa.

Os concorrentes são «obrigados» a invenções lastimáveis

Os concorrentes são «obrigados» a invenções lastimáveis

Chegámos ao ponto de saturação máxima, de tal modo, que deixamos de ver esses pseudo cursos de gastronomia, obrigando-nos a mudar de canal. A que ponto chegámos. Não só a ataques frontais à nossa gastronomia, mas também um ataque às personalidades dos concorrentes que são «obrigados» a invenções lastimáveis, que só são apreciadas pelos membros do júri.
Recentemente numa visita a um dos mais sofisticados restaurantes, ousámos pedir um cozido à portuguesa, pois estava no cardápio (não menú). Depois de uns entretens de boca (não entradas ou outro nome francês), chegou-nos o prato escolhido, já empratado e com várias bolinhas, cerca de quatro. Chamámos o chefe de mesa, e questionamos se era o que tínhamos solicitado. Para nossa admiração, solicitamente informou-nos que era uma amálgama de produtos altamente seleccionados (o que não duvidámos), nos quais estavam todos os sabores do cozido à portuguesa. Elucidados, pedi a conta (nada acessível) e partimos para um outro local onde encontrámos a cozido à portuguesa, muito bem preparado e igualmente confeccionado com produtos tradicionais portugueses.
Não entendemos porque o Canal 1, que é de serviço público, não leva a cabo cursos onde é ensinada a verdadeira cozinha tradicional portuguesa, e pôr os nossos tradicionais produtos á disposição dos futuros chefes, que assim o desejarem.
Os turistas que nos visitam procuram a nossa cozinha tradicional, os produtos da terra, as nossas raízes tão ricas que nos diferenciam e são altamente valorizadas.
Vamos defender, produzir e divulgar o que é nosso. Não embarquemos em águas já muito poluídas e que nos levam ao corriqueiro. Temos conhecimento pessoal que muitos turistas que ao depararem com a comida «importada» que lhes é servida saem frustrados e com desejos de provarem a verdadeira cozinha tradicional portuguesa.
Vamos defender o que é nosso, e as Confrarias Enogastronómicas tem esse trabalho a desenvolver em benefício do nosso rico património gastronómico nacional.
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«Emoções Gastronómicas», opinião de Paulo Sá Machado

(Ensaísta, Historiador)

2 Responses to Os cursos gastronómicos e a tradição portuguesa

  1. António Emídio diz:

    Sr. Paulo Sá Machado :

    Esta é a destruição das nossas tradições gastronómicas, e até da nossa cultura. A Globalização não é mais nem menos do que a imposição económica, tecnológica e cultural das nações mais poderosas sobre as mais débeis. A nível de gastronomia, se assim se pode chamar, temos o Mc Donalds, por exemplo, dizem que é o « embaixador da Democracia » nos países menos desenvolvidos!!!
    As nossas mães cozinhavam assim tão mal que as suas receitas não sejam capazes de superar toda uma série de « viandas » modernas importadas ? Tenho a certeza que sim.
    Mas estamos no tempo da modernidade e num País que não passa de um protectorado de uma das nações mais poderosas da Europa.

    António Emídio

  2. JFernandes diz:

    Caros Dr. PSá Machado e AEmidio:
    É na verdade lamentável o que tem vindo a acontecer nos diferentes canais.
    Quanto aos canais privados na verdade eu não tenho nada a ver com isso.
    Já quanto ao canal público todos temos a ver com o que o mesmo divulga. E na verdade seria de extrema importância para o património gastronómico da nossa terra que fosse divulgada a gastronomia tradicional, feita na forma tradicional, pois é isso que importa preservar.
    Nada tenho contra quem gosta de comer uma refeição embonecada, altamente rica e feita dos melhores produtos ainda que seja apresentada como uma espécie de concentrado desses produtos. Claro que não gosto, e por isso não como, de pastilhas ou outras coisas parecidas que são segundo dizem os vendedores, muito melhores que o prato tradicional. Faz-me lembrar as rações de combate que nos eram distribuidas noutros tempos: Pequena dimensão mas muito nutritivas!….
    Eu continuo a preferir que o cozido à portugesa tenha couves, batatas, nabo, cenouras, carne de porco, chouriço, etc
    São gostos.
    Um abraço
    JFernandes

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