Pelourinhos em Terras de Riba Côa (36)

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

:: :: GUARDA :: :: – A concessão do foral à Guarda foi um dos actos mais importantes que D. Sancho I praticou, principalmente pelas consequências que a criação daquela cidade teve na construção do país. A praça forte que a Guarda foi, serviu de rectaguarda às incursões nos territórios vizinhos.

A sé da Guarda

A sé da Guarda

Falar ou escrever sobre a Guarda é, para qualquer natural das terras do distrito, sempre algo que ao sabor da pena, ou melhor, do teclado, nos sai carregado de estranhas emoções. Essas emoções podem ter várias razões que podem ir desde a existência de sentimentos regionalistas que todos temos, até outros de natureza mais pessoal, ligados à educação. Quase todos os naturais dos diferentes locais no distrito da Guarda, até meados do século passado, que tiveram a hipótese de prosseguir os seus estudos para além da escolaridade obrigatória, passaram naturalmente por um dos principais estabelecimentos de ensino secundário da cidade (Liceu, Escola e o Rocha). É por tudo isto que falar da Guarda nos comove tantas vezes.
Feita esta prévia declaração de interesses vamos agora desenvolver o texto que até aqui nos trouxe, dentro da série onde o integrei.
A Guarda (cidade e concelho) vai ser alvo de dois textos, tal é grandeza que nós achamos que ela tem. Não podemos resumir a nossa intervenção. Tudo ali é importante e por isso a dificuldade está em escolher. Mesmo assim vamos fazer um esforço.
A origem do concelho da Guarda e da cidade, remontam ao principio da nacionalidade altura em que, no local da actual cidade existiria um pequeno povoado. Ao reconhecer a importância daquele local como sitio estratégico para apoiar os futuros castelos fronteiriços, D. Sancho I atribuiu-lhe, em 27 de Novembro de 1199 o primeiro foral. Este foral continha disposições destinadas a aumentar e a fixar a população concedendo diversas benesses a quem se lá fixasse.
Nessa data o mesmo Rei mandou iniciar a construção do castelo e das muralhas que foram acabadas no reinado de D. Fernando.
A altitude a que a cidade se desenvolve transformou o local numa praça forte que, com as muralhas que foram construídas logo após a atribuição do foral, tornavam esta cidade praticamente impossível de conquistar sem grandes perdas por parte de quem tentasse.
Por outro lado, uma praça desta natureza e com estas características constituía um apoio logístico e bélico para as incursões que se vieram a fazer sobre o território de Leão, que nessa altura se estendia até bem perto da Guarda.
Parte do território do concelho da Guarda, a que mais se aproximava da fronteira existente na altura – Rio Côa – foi, por volta de 1200 doado à Ordem dos Templários para que, com os seus cavaleiros e militares acabassem por estabelecer uma zona tampão entre os dois reinos e no fundo protegesse a cidade da Guarda.
Tudo correu bem até que, os Templários, como que para responderem à crescente influência que as aldeias da margem direita do Côa adquiriam, resolveram criar na margem esquerda um novo Município que dotaram de um castelo: Vila de Touro (aqui).
Essa atitude da Ordem dos Templários não foi muito bem aceite pelo Município da Guarda que tudo fez para combater a criação desse Município embora não o tenha conseguido.
Para o concelho da Guarda era deveras importante continuar a ser a primeira barreira para quem tentasse invadir Portugal e ser a última praça forte quando a invasão fosse no sentido de Castela. Vila de Touro retirava protagonismo ao Município da Guarda neste domínio e principalmente por isso a sua oposição manifestou-se.
Por outro lado, a Guarda entendia que, tendo acertado com os Templários a doação de uma área do seu território para que estes garantissem a sua defesa, a criação do Município de Vila de Touro era como que uma traição. Não deixa de ser curioso que as terras do concelho de Vila de Touro mesmo depois da sua extinção nunca mais voltaram ao Município da Guarda passando antes a integrar um outro Município que ali já existia – O Sabugal.
De qualquer modo, a partir do tratado de Alcanises, este novo Município começou a perder importância por razões que se compreendem: Agora o inimigo estava muito longe do Côa e bem para lá dele!…
Ainda assim, este Município de Vila de Touro, permaneceu como Município cerca de 500 anos

Pelourinho e Torre dos Ferreiros ao fundo

Pelourinho e Torre dos Ferreiros ao fundo

Como concelho, a Guarda possuía e ainda possui o respectivo pelourinho característica da generalidade dos Municípios. O pelourinho original provavelmente foi edificado na altura em que o foral foi confirmado por D. Manuel I em 1510. Desse pelourinho apenas restam alguns fragmentos guardados no museu municipal.
O actual pelourinho da Guarda, que se encontra colocado no jardim entre a torre dos Ferreiros e a Igreja da Misericórdia, foi composto já durante o século XX. Possui uma base quadrangular, formada por 3 degraus onde assenta o fuste octogonal.
A encimar o pelourinho foi colocada uma cruz que terá vindo do antigo cruzeiro do Senhor do Bonfim. Não fossem os sinais existentes de orifícios no fuste, e provavelmente diríamos que estávamos perante um cruzeiro.
Este monumento foi classificado como sendo de interesse público o que acaba por garantir alguma protecção (aqui).
Já em 1935 quando foi mandado fazer o inventario deste tipo de monumentos à Academia Nacional de Belas Artes, apenas foram encontrados fragmentos do antigo pelourinho (aqui).

Brasão da Guarda

Brasão da Guarda

O brasão da guarda, reflete as características de praça forte que a Guarda era. Reflete igualmente a categoria de cidade que aquela localidade teve desde muito cedo. O Brasão possui por isso, cinco torres a encimá-lo, característico das cidades. Contrariamente à generalidade das povoações que foram concelhos e por vezes até cidades, a Guarda foi cidade desde a data em que lhe foi atribuído o foral por D. Sancho I em 1199 altura em que a elevou igualmente a cidade. Isto só pode significar que a Guarda era, na data da atribuição do foral em 1199 uma localidade com uma importância acrescida relativamente a outras que na mesma altura também foram objecto de atribuição de foral. E, essa importância não era certamente apenas de natureza militar. Era provavelmente também derivada do desenvolvimento económico e, bem assim da dimensão populacional da localidade na altura.
Em termos altimétricos, a cidade encontra-se à cota 1056m relativamente ao nível do mar, sendo a cidade situada à cota mais alta no país. É costume referir-se que o ar da Guarda é dos melhores senão mesmo o melhor do país. A propósito disso, em 2011 até se desenvolveu a ideia de um produto “groumet” a que se chamou “Ar da Guarda” e que se pretendia comercializar através do TMG e da Culturguarda (aqui). Claro está que foi uma brincadeira, mas séria, que no fundo pretendia e conseguiu, por um lado relembrar a pureza desse ar aos que já o respiraram no estado natural e por outro, alertar para a existência de locais onde ainda se pode respirar ar deste tipo. Embora brincando, o objectivo, segundo creio, que foi conseguido.

Nota: O próximo texto desta série continuará a falar do Município da Guarda pois a dimensão dos conteúdos justifica essa divisão.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

jfernandes1952@gmail.com

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