Repensar os lares de idosos

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

Os lares de idosos, que foram dados como o investimento que garantiria o futuro do concelho do Sabugal, enfrentam dificuldades para ocuparem as vagas, num prelúdio de que se avizinham tempos difíceis.

Idosos no Lar de S. Salvador, no Casteleiro

Idosos no Lar de S. Salvador, no Casteleiro

Face à sangria desatada de gente nova e ao consequente envelhecimento populacional, o Sabugal e os concelhos circundantes pensaram ter nos lares de idosos a solução para os problemas das aldeias: criariam emprego, escoariam produtos da agricultura local e ajudariam as nossas terras a recobrar a vitalidade.
As associações que gerem os lares, tornaram-se de facto em grandes empregadoras. Os 29 lares de idosos que o concelho do Sabugal dispõe acolhem perto de dois mil utentes, empregam cerca de 800 pessoas e têm em conjunto um volume de negócios que se aproxima dos 10 milhões de euros.
Mas a verdade é que esse futuro auspicioso para as nossas terras cuidando dos mais velhos, se deparou com sinais preocupantes que podem pôr em causa a sustentabilidade do sector. Começou a faltar gente para ocupar camas disponíveis e a crise económica que atravessamos parece não ser a única razão para isso.
A verdade é que onde não há jovens também não pode haver velhos, pois isso não é sustentável a longo prazo.
Se os filhos têm que estar longe para garantirem emprego, então preferem que os seus pais os acompanhem ou lhes façam frequentes visitas. Na fremente vida de hoje um casal jovem com filhos tem que contar com alguém mais idoso, e já na reforma, que ajude a suportar o encargo, ficando em casa com os meninos, levando-os à escola ou passeando-os no jardim.
Os velhos que resistem a esta fatalidade, querendo ficar na aldeia, têm que se deslocar para reverem os filhos e acariciarem os netos que estão longe. Inicialmente vão por curtos períodos, mas com o tempo habituam-se a passar longas temporadas na cidade, com a tendência para que a permanência se torne definitiva.
Se a partir de determinada idade a saúde lhes faltar e se a solução passar pelo internamento num lar de idosos, os filhos escolhem algum que lhes esteja próximo.
Os lares de idosos do concelho do Sabugal podem correr perigo e exigem-se soluções.
Num encontro recente, que juntou algumas IPSS do distrito da Guarda, o provedor da Santa Casa da Misericórdia do Sabugal, António Dionísio, defendeu o trabalho em rede e o esforço promocional conjunto para ultrapassar o constrangimento. A solução poderá passar por acolher idosos de outras paragens que estejam dispostos a ocupar os lugares de qualidade que os nossos lares oferecem.
Joaquim Ricardo, presidente da Liga dos Amigos de Aldeia de Santo António, já tinha deixado há tempos algumas ideias no mesmo sentido: apostar na qualidade dos serviços e criar no Sabugal uma escola profissional para o sector.
Urge encontrar soluções que garantam a sustentabilidade para os lares de idosos do concelho do Sabugal.
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«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

One Response to Repensar os lares de idosos

  1. Joaquim Portas diz:

    Se os 800 postos de trabalho fossem de uma qualquer unidade industrial, estaríamos a falar necessariamente de uma grande empresa, que por si só condicionaria para o bem e para o mal o mercado do trabalho no concelho e o seu próprio processo de desenvolvimento e a Câmara Municipal estaria muito preocupada se algo indiciasse a diminuição desses postos de trabalho ou o encerramento da empresa. Numa situação assim não faltariam incentivos e benesses à empresa para a manutenção dos postos de trabalho.
    Ter 800 empregos em 30 entidades é muito melhor do que tê-los apenas numa. Todavia, apesar do risco de se perder emprego nas Instituições sociais, não me parece que a Câmara tenha, até agora, estado preocupada com este assunto.
    Há muito que defendo a ideia de que os Lares e as Instituições Particulares de Solidariedade Social que os suportam, podem ter um papel importante no modelo de desenvolvimento e no futuro do concelho do Sabugal.
    O primeiro passo passaria por profissionalizar a gestão que na maior parte dos casos depende do voluntarismo dos dirigentes, sem prescindir da disponibilidade e boa vontade desses mesmos dirigentes. Depois devia ser proporcionada formação permanente e competente a todos os trabalhadores e procurar dotar estas Instituições de pessoal técnico com formação específica por forma a atingir um nível de excelência nos serviços prestados. O concelho do Sabugal podia ser conhecido e reconhecido a nível nacional e mesmo internacional pela excelência dos serviços prestados nesta área. Se à qualidade dos serviços juntarmos preços competitivos relativamente aos praticados noutras áreas do país, nomeadamente nos grandes centros urbanos e no estrangeiro, podíamos aspirar a atrair utentes dessas áreas, da zona fronteiriça espanhola mais próxima e até alguns emigrantes que na fase final da vida não deixam de sentir o apelo das raízes.
    Este objectivo só será possível se a Câmara Municipal, liderar um processo de alteração de algumas mentalidades e de paradigma, necessitando para isso de mobilizar recursos e pessoas.
    Neste, como noutros sectores, os principais responsáveis políticos do concelho têm uma responsabilidade acrescida na mudança de algumas práticas que em vez de serem mobilizadoras do processo de desenvolvimento, têm constituído e podem continuar a ser factores negativos desse mesmo processo.
    Espero que o novo Plano de Desenvolvimento Estratégico possa trazer algo de novo e de positivo para o desenvolvimento efectivo do concelho.

    Joaquim Portas

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