Desilusão

Alcínio Vicente - Aldeia do Bispo - © Capeia Arraiana

Um poema e uma pintura de Alcínio Vicente em que é invocada a figura dos mendigos que erravam pelas aldeias em tempos idos.

Pedintes invisuais numa pintura de Alcínio

Pedintes invisuais numa pintura de Alcínio

Os pedintes invisuais que esmolavam
De aldeia em aldeia na década de quarenta
Olho pra rua está toda escancarada
Sinto o vento como alma danada
Dá voltas e reviravoltas
Ficou furioso por não encontrar nada
Espreito para baixo e para o lado
E vem o vento com mais uma rajada
Sinto o corpo e a alma arrepiada
Deixo me levar na sua peugada
Tenho frio e não sinto nada
Demos voltas as ruas marcha acelerada
Mas a rua é de ninguém
Ter amor mas não ser amada
É chuva em terra ensopada
É querer ouvir eco sem dizer palavra
É querer tudo sem achar nada
É um palco onde a peça nunca foi representada.
Desejo que tudo isto nunca seja tragédia estreada
É este país enlameado onde parece não existir ninguém honrado
Vive este povo conspurcado
Vilipendiado arremessando lama para todo o lado
Ficando todos nela enredado e nunca lhe ter tocado
E assim vai vivendo este povo acabrunhado
Condenado sem ter sido processado
A não saber escolher quem os tem enganado
Sem compreender que todos nós
Não nos tenhamos indignado contra estes vendilhões
De tesouros pelos portugueses acumulado
Que não tenham punido aqueles cujos pais desonraram
E gente honesta espoliado
Não é sua culpa dos bens públicos
Serem mal geridos senão de quem os tem nomeado.

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«Vivências a cor», de Alcínio

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