O Vale do Noémi – As Estações do Comboio

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

Cada estação ferroviária corresponde a uma aldeia, vila ou cidade a que por norma facilita o acesso e de que está próxima. São raros os casos em que isso não acontece. A estação do NOÉMI era um desses casos.

Açude em frente da Estação do Noémi - alimentava o moinho do «Abílio»

Açude em frente da Estação do Noémi – alimentava o moinho do «Abílio»

As diferentes Estações e Apeadeiros, da linha da Beira Alta, foram projectados e depois «baptizados» seguindo de perto o nome das aldeias, vilas e cidades por onde o Comboio passou a passar.
Provavelmente essa era a forma mais natural e fácil de identificar quer as novas estações e, por outro de facilitar a vida a quem queria viajar entre elas.
Entre a Guarda e Vilar Formoso, desenvolve-se um troço da linha ferroviária da Beira Alta que acompanha em grande parte da sua extensão o Vale formado pelo Rio Noémi, sobre o qual já (aqui) se escreveu.
Quando a linha da Beira Alta foi construída em 1882 certamente que houve, como sempre, discussões sobre as estações e apeadeiros, os seus nomes e localizações. Grande parte senão mesmo a totalidade dos nomes das estações ferroviárias resultaram dos nomes das localidades que mais perto estavam do local da estação.
Surgiram assim: Gata, Vila Garcia, Vila Fernando, Rochoso, Cerdeira, Miuzela, NOÉMI, Castelo Mendo, Malhada Sorda, Freineda, Aldeia, Vilar Formoso.
Havia, contudo uma estação, que não tinha o nome de nenhuma aldeia das que na sua proximidade se localizavam. Provavelmente por serem várias, provavelmente por nenhuma delas se localizar suficientemente perto da estação. A que ficava mais perto, mas mesmo assim longe, era uma aldeia, quem sequer era freguesia era e, alem disso, tinha um nome esquisito, Pailobo.
Provavelmente por isso, o «padrinho» das estações deve ter tido um problema sério para resolver entre os concorrentes ao nome da Estação. E, no meio da discussão deve ter surgido a ideia do nome do Rio que passava «perto» de todas. Terá sido assim que surgiu o nome da estação do NOÉMI. Será que alguém consegue encontrar uma teoria melhor que esta? Duvido. Mas também não encontrei documentação que sustente este raciocínio que me parece razoável e convincente.
Na estação do Noémi apanhavam o comboio para a Guarda, para lá dela e para Vilar Formoso pessoas de pelo menos as seguintes localidades:
Pailobo, Ade, Monte Perobolso, Porto de Ovelha, e até Badamalos.
Havia naturalmente caminhos de terra batida, que ali são de pedra batida, pois as margens do noémi, e principalmente as encostas dos montes que as enformam para um e outro lado, são pródigas em macissos graníticos que, para além da parte visivel se desenvolvem no sub-solo donde emergem quando a chuva remove a pouca terra que sobre eles se consegue aguentar.
Por isso ainda hoje são visiveis esses caminhos, mesmo através do Google Maps e naturalmente que hoje estarão em pior estado do que estavam há 50 anos.
Atrás da antiga estação do NOÉMI, na encosta que conduz a Porto de Ovelha, existia uma casa onde as pessoas guardavam os seus animais de transporte quando de manhã apanhavam o comboio. Os animais, por norma burros, ficavam nessa casa, aberta, durante todo o dia até que os seus donos chegassem de novo no comboio no fim do dia. O Chefe da Estação ou o agulheiro davam durante o dia uma olhadela no intervalo entre dois comboios.

Antiga Estação do Noémi

Antiga Estação do Noémi

Aqui, os animais de carga, neste caso os burros, eram tratados pelas pessoas como hoje tratariamos um carro, uma mota ou mesmo uma bicicleta.
Tudo se passava como se a Estação do NOÉMI possuisse um parque de estacionamento na parte de trás, onde se estacionavam os transportes próprios que as pessoas usavam das suas terras até à estação e no fim do dia da estação para voltar a casa.
Provavelmente esta era, no caso deste troço da linha da Beira Alta a única estação que tinha «parque de estacionamento», provavelmente por ser a única em que nenhuma das aldeias que servia, ficava suficientemente perto para dispensar o transporte usando os animais.
Esta Estação funcionou durante mais de um século e foi o destino e o ponto de partida de muitas vidas das que na sua envolvente sobreviviam. Porém, com o incremento do transporte rodoviário, estas estações do comboio perderam importância pois deixaram de ser usadas pelas pessoas que passaram a ter a vida mais facilitada com a rodovia. Por isso, começaram a ser desactivadas e hoje são várias as que, daquele rol inicial, já não funcionam, entre as quais se inclui a do NOÉMI.
Em frente da antiga estação do Noémi, o rio possui um Açude que era destinado, em tempos idos, a conduzir a água para um moinho que existia na margem esquerda do rio, naquele local. Esse moinho de água que na minha terra se conhecia como sendo o moinho do Abílio, do Monteperobolso, era um dos locais onde se levava o centeio para ser moido e convertido em farinha e que depois permitia que se fizesse o pão.

Estação do Noemi vista da margem esquerda do rio

Estação do Noemi vista da margem esquerda do rio

O rio, esse continua indiferente às mudanças que se operaram na Estação do Comboio e aqui, a cerca de 30 Km da Guarda os efeitos da poluição são mais atenuados e por isso na primavera e verão o rio nos brinda com uma vegetação luxuriante que as árvores da imagem colhida no inverno deixam adivinhar.
Quando olhamos para as águas do Noémi mesmo com a puluição que continua a martirizá-lo desde a Guarda, não podemos deixar de pensar quão cristalinas seriam essas águas se aquel foco não existisse. Quem já as viu cristalinas não pode deixar de lutar e ter esperança no regresso dessas águas.
Hoje, como noutros tempos, só a pé se pode visitar o que resta da estação. A sua envolvente e principalmente o rio, podem ser visualmente usufruídos mesmo viajando de comboio entre a Guarda e Vilar Formoso.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

jfernandes1952@gmail.com

2 Responses to O Vale do Noémi – As Estações do Comboio

  1. J.S.fernandes diz:

    Prezado patricio,
    parece uma história surreal, mas, infelizmente, é bem real. No Natal tentei chegar a pé, a partir do Paraizal, ao lugar que dava pelo nome de estação do Noémi. O comboio continua a passar, sem pessoas, o rio continua o curso, umas vezes sereno, outras vezes com a fúria que lhe conheciamos no inverno no local em que se junta ao Côa. Procurei ver se os antigos engenhos (fábricas) ainda existiam. Não consegui chegar lá. Fica para as próximas férias.
    Obrigado pela crónica.
    JSFernandes

  2. JFernandes diz:

    Caro JSFernandes:
    Obrigado pela visita e pelo interesse. É dificil chegar à antiga estação mas ainda se consegue.
    Sugiro-lhe que caminhe ao longo da linha do comboio ao lado dos carris.
    Um abraço
    jfernandes

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